NANCY, Jean-Luc. La déclosion. Paris: Galilée, 2005.

O judeu-cristão. Da fé.

1. A denominação “judeu-cristão”, historicamente instável e progressivamente ampliada para designar o entrelaçamento entre judaísmo e cristianismo no interior da civilização ocidental, não nomeia uma síntese pacificada, mas uma composição cuja própria articulação contém uma desunião, de modo que o hífen que reúne judeu e cristão assinala simultaneamente sua aproximação e seu afastamento e conduz à questão mais ampla da constituição do Ocidente como composição internamente dividida entre religião, filosofia, judaísmo, helenismo, cristianismo e islamismo.

2. A Epístola atribuída a Tiago constitui um lugar privilegiado da composição judeu-cristã porque, dirigida às “doze tribos da dispersão” e incluída apesar de resistências no cânone cristão, liga a eleição singular de Israel à universalidade da humanidade, fazendo da diáspora e da catolicidade duas figuras correlativas de uma totalidade em dispersão e apresentando Israel como o lugar visível a partir do qual se atesta a santidade invisível de todos os homens.

3. A ausência quase completa de cristologia e de elaboração teológica na Epístola de Tiago não constitui uma deficiência doutrinal, mas uma retirada deliberada da representação dos conteúdos em favor da efetividade do ato de fé, situando o texto no intervalo entre judaísmo e cristianismo e fazendo dessa posição intermediária simultaneamente sua construção comum e o ponto em que essa construção se oferece à própria desconstrução.

4. A semelhança do homem com Deus é pensada na Epístola segundo uma lógica do dom em que Deus, como Pai das luzes e doador de todo dom perfeito, não transmite uma propriedade apropriável, mas se dá no próprio ato de dar, fazendo da imagem divina no homem a participação numa generosidade cuja graça somente pode ser recebida mediante uma receptividade igualmente gratuita, para além tanto da inveja apropriadora quanto da renúncia sacrificial.

5. A relação entre fé e obras em Tiago não significa que atos exteriores devam comprovar uma fé previamente existente, mas que a fé somente existe como obra e na obra, de maneira que pistis, praxis, poiesis e ergon convergem na efetividade de um agir que excede seu próprio conceito, enquanto a fé deixa de ser crença ou saber e se torna o excesso prático pelo qual o agente é infinitamente mais do que aquilo que pode representar de si mesmo.

6. A “lei perfeita da liberdade” reúne o amor ao próximo, a crítica da riqueza e a palavra verdadeira como três modalidades de uma fé que consiste em exposição ao outro e ao inapropriável, de modo que liberdade não significa autonomia soberana ou apropriação de si, mas agir segundo uma verdade que não pertence ao sujeito e cujo acontecimento o transforma para além da adequação consigo mesmo.

7. A referência a Jesus como “Cristo de glória”, embora permaneça quase inteiramente retirada de uma cristologia doutrinal, introduz na fé um nome próprio que não funciona como conceito ou conteúdo de crença, mas como nome do advento messiânico e da glória inapropriável, fazendo do messias a exposição do retiro do divino e conduzindo a própria construção cristã a uma desconstrução interna na qual presença, glória e parusia significam simultaneamente aproximação e afastamento.

8. A unção dos enfermos e a “oração da fé” levam ao extremo a lógica da carta ao fazer do morrer não uma passagem garantida para outra vida nem uma realidade substancial que sacrifício, tragédia ou ressurreição pudessem dominar, mas a própria experiência inapropriável da presença finita, na qual cada moribundo se torna messiânico porque toca, no instante mesmo de desaparecer como mortal, a única imortalidade possível: a inconsistência absoluta da morte e a exposição da existência ao fato de existir.