Abertura

NANCY, Jean-Luc. La déclosion. Paris: Galilée, 2005.

1. O abandono e a piedade

A crise da religião não exige sua restauração, tampouco um retorno ao religioso, mas a abertura da própria razão à ilimitabilidade que constitui sua verdade, de modo que, uma vez apresentadas todas as razões, permaneça indicado aquilo que excede toda restituição racional, enquanto a secularização deixa de poder ser compreendida como simples transferência do idêntico e passa a exigir o pensamento da diferença produzida em todo retorno.

2. A ameaça (sobre)religiosa

A civilização da “morte de Deus”, isto é, da emancipação da própria razão, acabou por abandonar a Razão em favor do entendimento, deixando sem elaboração adequada o vazio aberto por essa emancipação e criando, no esgotamento simultâneo das racionalidades modernas e das religiões instituídas, a possibilidade de uma irrupção sobre-religiosa capaz de responder violentamente à ausência de sentido.

3. A desclosão

A desclosão designa a abertura de um recinto e o levantamento de uma clausura, devendo operar-se como desclosão recíproca das heranças da religião e da filosofia, para que a razão possa trabalhar sobre os limites que ela própria se prescreveu e reconhecer, no interior da imanência mundana, aquilo que a excede sem constituir um segundo mundo.

a. A metafísica desclosa

A metafísica não constitui simplesmente uma totalidade fechada que a modernidade teria superado do exterior, pois sua própria constituição contém o movimento pelo qual sua clausura se desestabiliza e se abre, fazendo aparecer no interior da razão aquilo que excede a razão sem lhe ser simplesmente estranho.

b. O cristianismo descloso

O cristianismo deve ser compreendido não como enfermidade acidental posteriormente contraída por um Ocidente originariamente saudável, mas como componente de sua própria constituição, formado na conjunção entre pensamentos grego e judaico, razão e fé, e capaz de produzir simultaneamente a clausura metafísica e o movimento que a desclosa.

c. “Maior do que se possa pensar”

O princípio da desclosão encontra-se inscrito no próprio coração da tradição cristã quando Anselmo, no Proslogion, conduz o pensamento para além da fórmula segundo a qual Deus é aquilo maior do que o qual nada pode ser pensado e alcança a formulação mais radical do “maior do que se possa pensar”, fazendo do excesso do pensamento sobre sua própria capacidade o núcleo da experiência racional do incondicionado.

4. O que segue

O conjunto subsequente não pretende constituir uma exposição contínua e sistemática, mas reunir provisoriamente textos heterogêneos que circundam a mesma questão da desconstrução e da desclosão do cristianismo, tendo como axioma não a possibilidade de restaurar filosoficamente uma crença em Deus, mas a necessidade de perguntar se a fé alguma vez se confundiu verdadeiramente com a crença e se ela não constitui antes uma relação com o nada, isto é, com a ausência de qualquer apoio ou termo indestrutível capaz de deter a abertura indefinida da desclosão.