GUERRA

NANCY, Jean-Luc. Être singulier pluriel. Paris: Galilée, 1996 / Being Singular Plural. Translated by Robert D. Richardson and Anne E. O’Byrne. Stanford: Stanford University Press, 2000:24

1. As linhas que seguem respondem ao pedido, vindo dos Estados Unidos, de refletir sobre a guerra e a técnica, podendo parecer inadequado ou mesmo indecente empreender tal reflexão em pleno meio da guerra, quando o que conta são as apostas imediatas, os mortos e os sofrimentos, mas a responsabilidade já está fortemente engajada também como responsabilidade do pensamento, sendo o retorno da guerra como figura em nosso espaço simbólico um fenômeno de inegável novidade que merece ser pensado urgentemente.

1. A guerra, apesar de tudo.

2. O apagamento aparente da Guerra simbólica dizia respeito apenas à configuração das nações que compõem o polo de ordem, direito e desenvolvimento do planeta, tendo o terceiro mundo continuado sempre devastado por conflitos armados considerados de dimensão apenas local, parecendo que desde 1914 a Guerra pretende acceder a uma dimensão mundial, determinada mais pelo papel mundial de certos Estados do que pela extensão das áreas de conflito, não havendo guerra sem Senhores da Guerra.

3. Em vez de ocupar-se das técnicas militares, deslocar a atenção para o soberano na e da guerra permite desvelá-la como techné, como arte ou execução da própria Soberania, sendo essa uma pontuação decisiva e exemplar de toda a simbólica ocidental, tendo-se acreditado poder circunscrever ou suspender a guerra propriamente dita em sua figura de guerra fria e na dissuasão nuclear.

4. É exatamente essa guerra que retorna, com todos os seus sinais, tendo sido necessário que o que acontecia, qualquer que fosse seu nome exato, viesse acompanhado dos signos e insígnias da guerra, processo irresistível que não se atribui a simples negligência de linguagem, prefigurado desde há quarenta e cinco anos pelas guerras das Malvinas e de Granada, ao passo que outras operações armadas não diziam respeito oficialmente ao nosso mundo senão como intervenções de polícia em conflitos de revolta, subversão ou guerra civil.

5. Agora há a guerra, e a guerra mundial nesse novo sentido em que estão implicados muitos desses Soberanos cuja soberania decifra-se de modos complexos e contraditórios, mundializando sua presença ainda mais a guerra mundial, sendo o mais surpreendente não que haja este combate, mas que a própria ideia de guerra tenha reencontrado direito de cidadania entre nós, isto é, que a legitimidade da violência estatal, há tanto suspeitada, tenha reconquistado quase inteiramente sua plena legitimidade, ou seja, a legitimidade da Soberania em absoluto.

6. Disse-se e escreveu-se que não era exato nem legítimo servir-se da palavra guerra no caso presente, observação que permaneceu isolada no purismo jurídico, enquanto o discurso geral se lançava com prazer contra a semântica, a lógica e a simbólica da guerra, que jamais tinham sido de fato anuladas, ainda que o espírito do tempo, favorecendo a ideia de Estado de direito, tenha deslocado a atenção para onde a violência fundadora do poder deveria ser apagada ou sublimada.

7. Sucede, porém, que o nacionalismo ressurge por toda parte, com figuras heroicas ou risíveis, patéticas ou arrogantes, mas sempre inquietantes, ainda que um reconhecimento mundializado do valor democrático tenda a regular essas afirmações de identidade e soberania, sabendo-se contudo que ainda não há direito supranacional ou pré-nacional, nem democracia já pronta acima das nações, havendo apenas um direito dito internacional cujo entre constitui todo o problema.

8. Nesse contexto a guerra exibe sua grande figura, importando pouco que seja chamada guerra ou polícia, tendo sido aceito e mesmo exigido que houvesse guerra, anunciando-se paradas de vitória depois que o mundo adotou extasiado a fórmula da Mãe de todas as batalhas, palavra soberana do vencido, tendo os Estados encarregados sabido captar virtualidades das opiniões públicas segundo as quais a guerra voltava a ser exigível ou desejável, descreditados os pacifismos por terem representado o reverso impotente da mundialização também da guerra.

9. Mesmo reduzido hoje a um habitus sem substância, cuja única dimensão respeitável é a piedade, o pacifismo contrasta com a reafirmação da guerra, que deriva de um habitus reencontrado num novo contexto, sendo esse ethos a própria disposição dos costumes que afirma a guerra não apenas como instrumento de política, mas como fim consubstancial ao exercício da soberania, que sozinha detém seu direito excepcional.

10. Essa resposta pressupõe convencionar chamar de polícia o emprego de uma força do Estado segundo seu próprio direito, e de guerra o exercício de um direito soberano de decidir atacar outro Estado soberano, convenção precisamente reativada, sendo o direito de guerra o mais soberano de todos os direitos por permitir a um soberano decidir que outro soberano é seu inimigo e agir para submetê-lo ou destruí-lo, isto é, subtrair-lhe sua soberania.

11. Nada é válido no contexto soberano da guerra, salvo algumas convenções que deveriam mantê-la dentro de certa ordem moral, ordem essa que não lhe é exatamente superior, mas de que a guerra é uma extremidade soberana, sendo assim a própria guerra capaz de criar novo direito e nova distribuição de soberanias, origem da maior parte de nossas soberanias estatais e nacionais.

12. O direito de guerra faz exceção ao direito precisamente no ponto em que lhe pertence, como origem e como fim, num ponto de fundamento que não se pode pensar sem soberania nem pensar a própria soberania sem pensá-la como exceção e excesso, precisando o direito do brilho e do evento fundador da guerra, que é por isso também o Evento por excelência, o evento-soberano que suspende e reabre o curso da história.

13. Esse modo de instauração do direito torna-se inadmissível num mundo que representa o próprio direito como sua origem ou fundamento, seja a título de direito natural da humanidade ou de sedimentação irreversível das conquistas de um direito positivo tornado pouco a pouco de todos, daí a perturbação diante da ideia de guerra, e mais precisamente de guerra justa, expressão que submeteria ao mesmo tempo a guerra ao direito e o direito à guerra.

14. Nossa perturbação testemunha que este mundo da mundialização desloca o conceito de guerra junto com todos os conceitos político-jurídicos da soberania, produzindo-se o retorno da guerra justamente no interior desses deslocamentos, testemunhando também, não um pesar nem uma nostalgia, mas uma dificuldade de prescindir da instância soberana até em seu esplendor mais terrível, sendo essa persistência da soberania em nós o que se pretende examinar antes de compreender para onde, para qual outro da soberania, poderíamos ir, vendo-se como isso passa pela técnica.

15. É preciso tomar certas precauções para que este programa não caia no simplismo: não se pretende reduzir a história da guerra do Golfo a uma pura decisão soberana de guerra, tendo-se produzido, num contexto geral misturado de guerras endêmicas, sedições proliferantes e polícias múltiplas e conflitantes, um processo misto de guerra e polícia onde cada uma remetia à outra, importando antes interrogar, nesse par, o que sustenta obstinadamente como limite do próprio direito a exigência da guerra que manifesta a exceção soberana.

16. Nenhum pensamento disponível sabe dar conta satisfatoriamente dessa lógica da exceção, oferecendo o estilo humanista neo-kantiano apenas a infinita promessa de moralizar a política, tendo o estilo revolucionário naufragado junto com a pretensão de designar o sujeito de outro direito, e estando o estilo decisionista relegado ao estilo totalitário, não havendo saída para pensar aqui e agora a soberania nem para pensar além dela.

17. Não se interpreta assim a guerra do Golfo à luz de nenhum desses esquemas, dizendo-se apenas que entre um esquema sempre frágil da guerra do direito e um esquema reativado da guerra soberana se estende um espaço vazio, que não é o de uma guerra dos povos, mas um deserto perfurado tanto por poços de petróleo quanto por crateras de bombas, deserto de nosso próprio pensamento e também da desolação e da injustiça econômica e cultural que se agrava através de direitos e guerras, reconhecendo-se que o deserto cresce e que a esterilidade do humanismo dominante deixa enfim transparecer sua irresponsabilidade, não se reivindicando aqui a invenção de outro pensamento, mas apenas evidenciando sua extrema exigência.

18. Ainda que a preferência não tenha sido pela guerra, tem-se consciência de que a maioria dos partidários da guerra quiseram ser partidários de um direito superior às soberanias nacionais, sendo interessante não que se tenha dissimulado a guerra sob o manto do direito, mas que se tenha podido afirmar a guerra, e de que maneira.

19. Ao mesmo tempo é impossível suspender a avaliação dos interesses e cálculos que constituem a aposta da guerra tanto no eixo leste-oeste quanto no eixo norte-sul, sabendo todo o mundo do que se trata sem que seja preciso pertencer a um Partido para partilhar algumas verdades de Marx, estando em jogo não a simples determinação econômica, mas o fato de que a economia está por esgotar as perspectivas e os fins, respondendo o retorno da figura da Guerra a um exasperado desejo de legitimação ali onde ninguém mais pode crer que a economia veja legitimada uma finalidade própria e universal, não sendo essa economia soberana, mas dominante, o que é diferente, suicidando-se por isso a política no moral-jurisdicismo sem soberania, ou antes buscando, para melhor servir ao domínio, restaurar seu próprio brasão soberano, tendo-se assim a Guerra, ambiguamente soberana-escrava da economia.

20. É verdade que, interpretando os fatos e discursos sob o signo do retorno de uma dimensão guerreira que se podia crer esquecida, parece desdenhar-se as reservas de uma guerra que se quer bem temperada, tendo havido poucos discursos propriamente belicistas, embora ecos notáveis em discursos privados que exaltavam o bem que faria aos ocidentais reencontrar as bolas.

21. Retomando este texto após o fim dos combates, cabe acrescentar que, diante da partida tão irregular disputada, foi preciso o discurso da guerra sem de fato querê-la, mas desejando apenas seu resultado, não tendo podido nem querido a quarta armada do mundo combater, tendo a primeira se batido logo para conjurar sob as bombas a própria possibilidade da batalha, não impedindo isso mortes nem destruições, nem sobretudo a enorme disparidade quantitativa entre um campo e outro, disparidade que contudo não afeta a dimensão simbólica da guerra, articulada apenas em termos de vitória e derrota, de soberania afirmada, conquistada ou reconquistada.

22. Pressupõe-se a interpretação de uma quantidade de detalhes, desde a aprovação da guerra pelos Parlamentos nacionais até os índices fornecidos pela semântica e pelo estilo de tantos discursos consagrados à urgência, ao perigo, ao sacrifício, ao dever nacional, à virilidade marcial, ao deslumbramento dos clarões no céu, ao desencadeamento das potências primárias, acrescentando-se os discursos da missão sagrada, com Deus do lado de ambos os contendores, monotheos contra monotheos, e os apelos à fundação de uma nova ordem.

23. Não é preciso muita violência interpretativa para decifrar nesses documentos a presença de uma simbólica e de uma fantasmática guerreira mais ou menos discretamente misturada às razões do direito e da polícia, sem que estas fiquem por isso desacreditadas, não se podendo esquecer tampouco o papel desempenhado pelo desejo de resgatar os fracassos de guerra anteriores, o Vietnã para os americanos e o Sinai para os árabes, tratando-se para os Estados Unidos de lavar não apenas a humilhação de uma derrota completa, mas uma guerra que tornara a guerra vergonhosa.

24. Não se pode esquecer, enfim, o gosto exibido durante a preparação e a primeira fase da guerra pelo espetáculo da beleza épica e da virtude heroica, não sendo essas imagens diferentes das dos filmes de guerra, sendo talvez mais a guerra que se assemelha a um filme do que o contrário, não havendo guerra sem um ímpeto guerreiro do imaginário, misturando-se seu espetáculo inextricavelmente à coerção mecânica que faz o soldado avançar, tendo os psicólogos do exército americano explicado que os boys não marchavam por uma causa mas apenas para não recuar diante dos companheiros, pertencendo os impulsos de honra e glória já em si à ordem do espetáculo.

25. Não se pretende que tenha retornado a epopeia homérica, napoleônica ou das grandes batalhas do século vinte, embora se tenha podido falar do passado lendário de navios que levavam ao Golfo a aura dos antigos esplendores da última guerra mundial, faltando muito para um retorno da epopeia, mas não o suficiente para que nada reste da afirmação e celebração da guerra, restando ao menos as facetas de um esplendor soberano, havendo na guerra uma soberania incandescente e fascinante que é saudada por um instante, não sendo talvez isso uma parte essencial daquilo de que nos pensamos despossuídos em geral, o esplendor, as figuras do Sol, não se representando nosso mundo como carente de potência nem de inteligência, mas certamente estruturando a falta de Soberania uma parte essencial de sua representação de si e de seu desejo.

2. Fins soberanos.

26. O que retornou ou permanece com a guerra não pertence evidentemente à ordem das técnicas militares, pois o uso dessas técnicas nunca se interrompeu no curso de todas as quase-guerras e operações de polícia, valendo ainda mais o que vale para as técnicas militares para as técnicas ditas civis empregadas para fins militares, sendo praticamente impossível distingui-las, começando talvez uma diferença específica no plano das finalidades de destruição de massa e sobretudo na ordem das marcas simbólicas, uniformes e insígnias dos exércitos.

27. Até esse limite, todas as técnicas em jogo, da fabricação de um fuzil à gestão logística de exércitos inteiros, não fornecem nenhum elemento para declinar a ideia de guerra como tal, pois não há, num certo sentido, questões específicas relativas às técnicas de guerra, salvo questões técnicas que não permitem interrogar ou pensar a técnica, tendo desde o primeiro dia desta guerra a evidência de certas tecnologias permitido observar que os discursos favoráveis ou desfavoráveis à técnica nada tinham a ver com ela, seguindo antes os preconceitos e as aporias da própria guerra.

28. Celebrou-se a potência do fogo tecnológico que produz o míssil, novo emblema guerreiro, alegrou-se com as autolimitações dessa mesma potência no discurso da guerra cirúrgica, deplorou-se as terríveis possibilidades das novas técnicas como a vitrificação, e temeu-se enfim o recurso às técnicas hoje banidas do conjunto NBC, cujo uso efetivo no passado e virtualidades catastróficas desempenham papel estratégico evidente, continuando as convenções sobre instrumentos de guerra a mostrar a fragilidade do direito que as sustenta, remetendo sempre o direito da guerra ao seu fundamento na exceção soberana.

29. Não há assim uma questão da técnica específica da guerra, tal como não há uma questão da técnica em geral enquanto colocada como questão à técnica ou a seu sujeito aplicando-lhe critérios que não lhe dizem respeito, não sendo a guerra feita com mísseis nem melhor nem pior que a feita com balista, tratando-se sempre da guerra, devendo antes a questão dizer respeito aos próprios conceitos de guerra ou de comunicação e a seu devir-técnica num espaço mais geral do devir-técnica do mundo, e não a calcular novos instrumentos para fins imutáveis de um mundo sempre velho.

30. A guerra é terreno privilegiado para evidenciar a inutilidade das considerações sobre a técnica que não partem dessa ideia preliminar, não sendo as técnicas responsáveis pela guerra nem a guerra pelas técnicas que não lhe são próprias, embora esta lhe ofereça instrumentos e aquela suscite progressos técnicos, sendo os problemas éticos e jurídicos postos pelas técnicas civis tão candentes quanto os postos por certas armas, mas os discursos intermináveis que celebram ou desprezam a técnica, fundados em valores estranhos a esse devir, acabam por ocultar o que se passa com a guerra, a medicina ou a família.

31. Não há questão da técnica corretamente colocada enquanto as técnicas forem consideradas meios a serviço de fins, situando-se então todas as questões na ordem dos fins práticos, éticos, políticos ou estéticos, caindo sob essa lógica a própria guerra quando considerada meio a serviço de fins, sendo essa a verdadeira aposta da fórmula de Clausewitz segundo a qual a guerra é a continuação da política por outros meios, fórmula que assinala uma mutação moderna do pensamento da guerra em relação ao pensamento clássico segundo o qual a guerra é o exercício ou a expressão extrema da soberania, sendo esse deslocamento iniciado por Clausewitz ainda por completar, talvez até o fim da guerra.

32. Para o pensamento da guerra que ainda é o nosso, a guerra é a técnica por excelência da soberania, representando sua execução e sua realização suprema, não sendo uma técnica nesse sentido um meio, mas um modo de execução, de manifestação e de efetuação em geral, modo de cumprimento que se distingue do modo natural como seu duplo e rival, distinguindo os termos gregos physis e techné dois modos de cumprimento que são o mesmo, não o idêntico, em sua diferença, o mesmo do cumprimento em geral, remetendo constantemente um ao outro numa relação chamada mimésis.

33. O cumprimento consiste em executar, levando algo à extremidade de sua lógica e de seu próprio bem, isto é, à extremidade de seu próprio ser, tendo para nosso pensamento o ser em geral sua substância, seu fim e sua verdade no cumprimento de seu ser, pensando-se o ser não como ser-a-meio mas como presente e realizado, completo, terminado, sempre para si final e efetuado, sendo todo o problema saber se a efetuação, o cumprimento, é finita ou infinita e segundo qual sentido desses termos.

34. Physis e techné são assim o ser do ser, o mesmo jogado duas vezes, sendo a história o regime geral de uma torção ou de um deslocamento que destina essa diferença, só havendo questão da técnica a partir do momento em que ela é considerada como cumprimento do ser e não como meio para outro fim, sendo então uma finalidade sem fim de um gênero ainda por descobrir, expondo-nos nossa história a essa descoberta enquanto devir-tecnológico do ser e de seu cumprimento.

35. O que é falso em tantas considerações sobre a técnica é querer para ela princípios e fins externos, inscritos por exemplo numa natureza que por sua vez entra incessantemente num devir-tecnológico, continuando-se a obter para a técnica um Deus ex machina que as tendências habituais de nossas representações levam a designar como um Diabolicus ex machina, tornando-se o Deus diabólico por já não ser mais o técnico da natureza que reporta todas as coisas a um Fim absoluto e soberano, negando-se à técnica o regime do fim e mais ainda o da Fim Infinita.

36. Talvez Leibniz estivesse mais próximo de uma primeira consciência clara da técnica ao buscar uma machine ex Deo, a menos que convenha combiná-lo com Spinoza num Deus sive natura sive machina, significando então a morte de Deus a rigorosa efetuação de um programa assim assumido, a machine ex machine, aquela que não terminou de terminar e cuja lei e aposta nos resta pensar.

37. Não se deve omitir a posição extraordinariamente marcada que nosso pensamento atribui à guerra entre natureza e técnica, mostrando ela o instinto mais bruto e o cálculo mais frio, posição relacionada com a que atribuímos à beleza entre arte e natureza, posição problemática e privilegiada que não é indiferente.

38. Toda a consideração sobre os fins reconduz à soberania, residindo a potência dos fins, enquanto potência do último ou do extremo, numa soberania, dispondo-se necessariamente todo fim, enquanto tal, segundo um fim soberano, estando para todo o nosso pensamento o Fim na Soberania e a Soberania no Fim, remetendo a transcendência absoluta dos fins supremos a esse círculo: o que é soberano é final, o que é final é soberano.

39. A soberania é a potência da efetuação ou do cumprimento enquanto tal, absolutamente e sem subordinação a qualquer outra coisa, compondo a criação divina e a decisão principesca sua dupla imagem, sendo por isso um pouco apressado acusar uma potência soberana de querer a guerra, constituindo a efetuação desse querer não apenas um dos fins específicos do poder executivo, mas o modo extremo desses fins, e assim não mais apenas um órgão, mas a própria soberania em seu cumprimento, indo na guerra algo imediatamente além de todos os objetivos possíveis de guerra, até o cumprimento do Soberano como tal numa relação de oposição absoluta com outro Soberano, sendo a guerra indissociavelmente a physis e a techné da soberania.

40. Encontrar-se-iam confirmações disso na carga simbólica específica dos instrumentos e máquinas de guerra, tendo a guerra do Golfo, ainda que não tenha dado lugar ao discurso explícito da soberania senão de modo embaraçado, suscitado um excepcional desdobramento de imagens de tanques, aviões e mísseis, saturadas dessa carga simbólica.

41. Os objetos perdem seu caráter simbólico à medida que cresce sua tecnicidade funcional, mas isso não impede que sejam reinvestidos simbolicamente, podendo o simbolismo aderir à função de modo tão imediatamente evidente apenas na imagem de uma arma de guerra, pois essa imagem não apresenta um instrumento de destruição, mas antes a afirmação do direito soberano da potência soberana de realizar uma destruição soberana, sendo isso não apenas uma função mas uma destinação, a de infligir e receber a morte coletiva sublimada no destino da comunidade.

42. Assim a guerra confina com a arte, não a arte da guerra mas a arte tomada em seu sentido moderno, a techné como modalidade de efetuação do ser, seu modo de cumprimento no esplendor do belo e do sublime, rival da eclosão da physis, revelando a estetização do espetáculo guerreiro tanto desconhecimento quanto uma estética da destinação da comunidade, elevando-se a morte dos indivíduos na figura do soberano onde encontra seu cumprimento, sendo a guerra o monumento, a festa, o signo obscuro e puro da comunidade em sua soberania.

43. A guerra é por essência coletiva, e a coletividade dotada de soberania é por definição dotada do direito de guerra, mostrando toda a história do conceito de guerra o jogo constante de sua determinação numa dupla relação com a res publica e com o Princeps, sendo nesse ponto preciso que o direito da república confina inevitavelmente com a exceção do príncipe, seja qual for a forma de governo, não tendo a democracia jamais modificado profundamente esse esquema, apenas o recalcado na sombra de suas próprias incertezas.

44. Desde a Primeira Guerra Mundial é a própria democracia, representando-se como princípio geral para a humanidade, que foi considerada dotada do direito de guerra, transformando a guerra em defesa da res publica da humanidade, tendo sido preciso que um país neutro decidisse sair de sua neutralidade em nome do direito internacional e designasse como inimigo não um povo mas governantes julgados nocivos ao bem de todos os povos civilizados, não fazendo assim a democracia guerra a um soberano, mas a maus chefes.

45. Diante da repressão dos curdos pelo mesmo chefe soberano ao qual foi infligida a polícia do direito, as Potências hesitam entre respeitar sua soberania dentro de suas fronteiras e afirmar um direito de ingerência, não existindo modo mais adequado de ilustrar a inconsistência do par conceitual direito internacional e soberania, exprimindo essas dificuldades o estado real de um mundo obstruído pela soberania sem que se saiba transferi-la ou superá-la.

46. Para que a decisão de combater em nome do direito internacional se tornasse decisão e não apenas voto, foi preciso que tomasse forma e força na soberania de um Estado ou de uma aliança de Estados, sendo isso sempre e ainda o fato de uma decisão soberana, num certo sentido um sobreacréscimo de soberania em relação ao príncipe tradicional, sendo por isso tão complexo e ao mesmo tempo tão simples o remissivo constante entre a autoridade da ONU e a dos Estados Unidos, precisando a legitimidade sem soberania do direito internacional de uma techné soberana, e precisando essa soberania, por sua vez, da legitimidade do direito internacional.

47. Aqui, como em toda parte, trata-se apenas do Bem público e da Paz, testemunhando toda a história de nosso pensamento da guerra, desde Platão e Aristóteles até as doutrinas cristãs e republicanas, que a guerra ocidental tem sempre a paz por fim, ao ponto de ser preciso combater de modo pacífico, sendo Esparta o Estado que tem a guerra por fim de sua estrutura e que Platão submete a severa crítica, e permanecendo a regulação teórica geral da guerra ocidental aquela da guerra pacificadora, negando-se assim a guerra ocidental como fim soberano, sendo essa negação, como convém, sua própria confissão.

48. Seria preciso analisar o jogo complexo dos três grandes monoteísmos do Livro, que são também os três monoteísmos da Comunidade e portanto da soberania, guardando o israelita e o islâmico, cada um à sua maneira, a parte de um princípio de guerra que não se confunde com a paz dos povos, propondo o monoteísmo cristão outra complexidade que mistura o modelo da pax romana e o da guerra ao Infiel, não se confundindo o amor cristão simplesmente com um princípio de paz, perdendo progressivamente o deus do amor sua divindade à medida que o amor na paz perde a soberania, sendo a paz do humanismo sem força nem grandeza senão o enfraquecimento da guerra.

49. Privado do Templo e de todo lugar de soberania, o monoteísmo judaico deve ser aniquilado num além da própria guerra precisamente por essa falta de soberania, ao passo que, ressuscitado a serviço de um estatismo ocidental, o jihad islâmico reanima uma chama de Cruzada diante da paz e da polícia do direito, podendo contudo em todo momento o monoteísmo judaico reidentificar a sublime Soberania e o Islã afundar-se na contemplação da Soberania absoluta que sela sua comunidade, estando assim o tríplice monoteísmo implantado na tensão entre sua efetuação e sua contenção.

50. A simbiose do tríplice monoteísmo e de seu outro-mesmo, o monologismo filosófico, apresenta-se assim como uma guerra de princípios, guerra soberana contra guerra pacificadora, ou antes choque da guerra soberana e da paz soberana, presente na própria filosofia entre uma instância absoluta da paz, exigida pelo logos, e um incessante recurso ao esquema do polemos, permanecendo a soberania da paz uma soberania prometida ou ideal, enquanto a soberania da guerra já está dada, deixando no polemos o traço do esplendor divino, não podendo assim a guerra pela paz deixar de ser guerra pela guerra e contra a paz seja como for.

51. Segue-se que a soberania da paz, quando reivindicada, não é simétrica à da guerra, sendo antes a paz o bem supremo cuja supremacia não poderia se manifestar como tal nem na glória nem na potência nem na identificação coletiva, sendo a paz a supremacia da ausência de distinção suprema, não podendo assim deixar de ter, para toda a nossa cultura, certo tom de renúncia, exigindo tudo, para a Soberania propriamente dita, a incandescência da exceção e a distinção identificável do cumprimento.

52. Assim, a soberania do direito, que deveria estruturar a paz, é inevitavelmente soberania por defeito, ao passo que a verdadeira soberania tem lugar não apenas na plenitude mas no excesso e como excesso, impedindo essa disposição fundamental que a guerra possa até agora tornar-se simplesmente uma técnica destinada a colocar a força a serviço do direito, sem ser sempre também a techné da afirmação soberana.

53. Não basta portanto voltar incansavelmente à exigência final da paz, nem denunciar sua ilusão remetendo-se ao realismo da força, tendo essas duas atitudes regulado no essencial nossa relação recente com a guerra pelo recalque total ou parcial do que se tentou aqui lembrar, sendo aceitar limitar-se a isso preparar já as guerras futuras, mesmo sem saber se o controle demonstrado por esta guerra não representa uma etapa ainda modesta rumo a uma relegitimação completa da guerra cujas condições de possibilidade não estão tão distantes quanto se queria crer.

54. Um ordem simbólica tão amplamente enraizada em toda uma cultura produz todos os seus efeitos no real, sendo importante não desconhecer tais efeitos, sendo a arte, como a guerra propriamente dita, absolutamente arcaica em sua simbolicidade, escapando assim a algo da história como progresso do tempo linear, mas retornando a guerra quando se trata de reabrir nesse tempo um certo espaço, o da apresentação da Soberania, obedecendo esse arcaísmo a leis mais profundas do que as de um penoso legado, sendo por isso ainda mais urgente pensar o que está em jogo nesse arcaísmo hoje.

3. A ecotécnica.

55. A persistência ou reinvenção da guerra não se produz fora da história, mesmo que a época seja uma grande suspensão da historicidade, sendo o conflito da polícia e do bellum proprie dictum também o efeito de um importante deslocamento histórico que produz grandes consequências para a guerra, correspondendo a primeira das guerras mundiais ao surgimento de um esquema de ordem adequado às dimensões do mundo, deslocalizando-se a guerra-polícia e tornando-se também confronto entre visões de mundo, o que nunca é atributo da soberania.

56. Quando o espaço do mundo se satura e o jogo das soberanias se fecha, o mundo como tal se torna objeto de um problema, não sendo mais certo que seu cumprimento possa ser previsto como o foi o dos soberanos, não sendo a humanidade mundial a soma da humanidade nem a instauração de nova soberania, colocando a guerra-polícia da humanidade mundial diretamente em jogo os fins do homem, ao passo que a guerra soberana expunha por si a Fim, não tendo a humanidade mundial nenhuma techné própria, ainda apenas techné em sofrimento.

57. Pode-se ver na invenção da guerra mundial, ao lado do mercado mundial, a resultante das guerras que acompanharam a formação do mundo contemporâneo, de um lado as guerras americanas de Independência e de Secessão, herdeiras da guerra soberana, de outro a guerra de libertação em nome do gênero humano tal como a inventa a Revolução Francesa, modelo que oscila entre uma revolta contra a ordem dos soberanos e uma administração policial do gênero humano.

58. O estado mundial da guerra exprime assim uma exigência simples: a necessidade de uma autoridade que supere a dos Soberanos dotados do direito de guerra, exigência que rigorosamente não tem lugar no espaço e na lógica da soberania, podendo essa exigência ser analisada como resposta a uma soberania mundial, impossível de estar em guerra com quem quer que seja, ou como de outra natureza e origem que a da soberania, tendo desde a Sociedade das Nações até a ONU evidenciado sempre as apotias de tal sobressoberania.

59. O problema é radical, não se tratando apenas de combinar exigências de cooperação internacional com o respeito aos direitos soberanos dos Estados, nem apenas de inventar novas formas político-jurídicas, dependendo as formas do fundo e do fundamento, não tendo porém o direito forma alguma em relação ao que deveria ser sua própria soberania, estando o problema colocado precisamente no próprio lugar da soberania, ou do Fim.

60. O problema não é planejar a soberania, essencialmente intratável, sendo antes preciso fundar de maneira completamente nova algo que ainda não dispõe de razões nem de modelo utilizável, sendo o homem mundializado, o homem após o humanismo, exposto a um limite ou abismo de fundamento, de fim e de exemplaridade, exprimindo o retorno da guerra, mesmo relativo, essencialmente uma exigência ou pulsão de soberania, sendo esta um grande modelo da civilização onde se opera a mundialização, modelo daquilo que nada tem acima de si, mas ao qual o homem mundial, outro gênero de extremidade, já não corresponde mais.

61. Só o direito parece subtrair-se ao domínio do modelo, instalando-se de imediato entre princípios primeiros e fins últimos, aceitando deixar princípios e fins a uma autoridade que não é a sua, subtraindo-se assim ao modelo apenas para lhe indicar de novo seus lugares, nas duas extremidades dos princípios e dos fins, onde a soberania não pode deixar de nos assombrar por situar ali a instância da exceção e do excesso, que é também a instância da exemplaridade.

62. Há sempre na exemplaridade a exceção que dá a regra, havendo contudo na dissolução da exemplaridade, de um lado a exceção onde a regra se dissolve lentamente, e de outro uma regra sem exemplo, o direito, isto é, também sem cumprimento, subestimando-se, ao insistir na ausência de fundamento do direito e ao subestimar o papel fundador da soberania como esquema da exceção, a verdadeira aposta da guerra: que ela é o modelo da techné executora, desde que o fim é pensado como fim soberano, subestimando-se simetricamente, ao considerar o direito um bem sem força, outra verdade segundo a qual o direito sem modelo nem fundamento, se não submetido a uma soberania, representa uma techné sem fim que nosso pensamento não sabe o que fazer.

63. Não se responderá à questão da guerra senão através de sempre mais guerra enquanto não se tiver atravessado esse campo problemático, cabendo perguntar como pensar sem fim, sem cumprimento, sem soberania, sem contudo resignar-se a um pensamento fraco, servil-humanista do direito, não bastando porém colocar a questão nesses termos, pois o desordem mundial, sem razão nem figura, tem toda a efetividade daquilo que chamamos técnica planetária e economia-mundo, dupla face de um mesmo complexo de reciprocidade de causas e efeitos, denominando-se aqui isso ecotécnica.

64. É significativo que o país até agora símbolo da ecotécnica triunfante concentre em si as figuras do Estado soberano e do direito, tendo devido o mundo soviético correspondente representar a revolução que supera essa tripla determinação, mas não tendo sido esse mundo nem o do Estado nem o do direito nem o da ecotécnica, mas uma penosa contorção mimética dos três a serviço de pura apropriação de poder, tendo contudo essas duas entidades partilhado, apesar de sua oposição na guerra fria, uma linha de fuga comum que se deveria chamar soberania sem soberania, cumprimento sem fim, do qual a ecotécnica poderia ser a última figura sem figura.

65. A guerra recente teria sido assim simultaneamente um poderoso sobressalto da soberania e o início da passagem ao regime da soberania sem soberania, contornando-se a guerra com a polícia e a vitória e a derrota com negociações frenéticas cuja aposta é o direito internacional como garante da ecotécnica, recusando-se de ambos os lados contar claramente os mortos, revelando-se o verdadeiro regime desta guerra ser o da guerra ecotécnica, sem esplendor soberano mas sem ceder nada quanto às técnicas de aniquilamento.

66. A luta de classes deve ser algo distinto tanto da guerra soberana quanto da guerra ecotécnica, pretendendo-se que ela não tenha mais lugar, declarando-se assim não haver conflito fora da guerra soberana chamada polícia e da guerra ecotécnica chamada competição, não se dando assim a guerra em nenhum lugar mas assistindo-se por toda parte à laceração e à violência policial que se apresenta como caricatura das antigas violências sagradas, sendo a ecotécnica exatamente num sentido pura techné da não-soberania, mas substituindo à soberania o aniquilamento sob a gestão de sua competição, uma vez que o lugar vazio da soberania permanece ocupado por esse próprio vazio.

67. A ecotécnica é doravante o nome da economia política, pois para nosso pensamento não haveria política sem soberania, não havendo mais polis quando há por toda parte o oikos, a gestão do cuidado do mundo como única família, tendo uma humanidade por mãe e um direito por pai, sabendo-se contudo que essa grande família não tem nem pai nem mãe, e não sendo mais oikos do que polis.

68. Essa ecotécnica implica uma tríplice divisão que nunca é partilha de soberania, a dos ricos e pobres, a dos integrados e excluídos, a do Norte e do Sul, implicando lutas violentíssimas onde toda consideração de soberania é vã, não restando, uma vez que a própria luta de classes escapa ao seu esquema, senão a nua justiça, cabendo aprender a pensá-la nesse espaço vazio.

69. A ecotécnica corrói, enfraquece ou perturba todas as soberanias, salvo as que se confundem com a própria potência ecotécnica, entregando-se os nacionalismos, antigos ou recentes, às penosas mímicas de uma soberania mumificada, sendo o atual espaço da soberania apenas um espaço distendido e esburacado onde nada mais pode vir à presença.

70. A ecotécnica faz valer, com maior ou menor hipocrisia, um primado do combinatório sobre o discriminante, do contratual sobre o hierárquico, da rede sobre o organismo e do espacial sobre o histórico, compondo esses motivos uma necessidade da época pela qual passa hoje o pensamento deste mundo mundializado sem soberania, concentrando-se toda a dificuldade desse pensamento em não confundir essa espacialização do mundo nem com uma extensão de significações nem com uma abertura do sentido.

71. Ou as significações se dissolvem até a insignificância nas ideologias do consenso e da comunicação, ou uma cirurgia sem suturas mantém aberta a laceração do sentido no estilo de um niilismo estetizante, sendo isso igualmente ideológico, não tendo sido reencaminhadas nem a justiça nem a identidade, exigindo pensar a espacialização do mundo considerar frontalmente o fim da soberania em vez de fingir esvaziá-la ou sublimá-la, sendo essa espacialização ela mesma o lugar vazio da soberania, do fim, do bem comum e, numa palavra, da justiça no fundamento do direito, não podendo mais ser atribuídas, quando o lugar da soberania está vazio, nem a essência do bem nem a do comum, não devendo mais nenhuma essência ser atribuída, apenas as existências sendo finitas.

72. Como pensar sem Fim soberana é o desafio da ecotécnica, desafio até agora jamais assumido e que esta guerra talvez comece a transformar em urgência absoluta, sendo necessário partir daqui: a ecotécnica esfuma ou dissolve a soberania, sendo o problema seu lugar vazio enquanto tal e não uma expectativa de retorno ou substituição, não havendo mais soberania, sendo isso o que hoje quer dizer a história, mostrando a guerra, com a ecotécnica, o lugar doravante vazio do Sentido soberano.

73. A própria ecotécnica pode convocar nesse lugar vazio a figura da soberania, podendo assim ser esquecidas todas as questões sobre a exceção e o excesso no esplendor soberano que toma emprestada, por um tempo de guerra, a potência sem lei que serve de gendarme à ordem mundial, ou podendo em outro registro o lugar vazio de um ator da epopeia ser ocupado pela figura soberana de um profeta da Lei moral, tentando de outro lado uma outra figura reanimar a epopeia árabe com o único fim de participar da potência ecotécnica dos senhores do mundo, sendo de ambos os lados necessário que modelos identificáveis em caráter soberano viessem garantir a melhor presunção de justiça ou de povo.

74. O lugar vazio da soberania só poderá dar lugar a substituições desse gênero, mais ou menos bem-sucedidas, enquanto esse lugar como tal não for interrogado e desconstruído, isto é, enquanto não for posta sem reserva a questão do fim, da extremidade do cumprimento e da identidade, que é doravante a questão de um sentido não soberano enquanto sentido mesmo da humanidade do homem e da mundialidade do mundo.

75. A própria espacialização do mundo, a abertura de uma espaço-temporalidade descontínua e dispersa, apresenta à Soberania algo de si mesma, longe de suas figuras imperiosas, estando ela sempre também exposta como espacialização, como amplitude de um esplendor, elevação de uma potência, desvio de um exemplo, lugar de uma aparição, podendo os mesmos motivos servir, ora ao chamado nostálgico das figuras soberanas, a guerra em primeiro lugar, ora a esse acesso, que devemos inventar, ao espaçoso da espacialização, à deslocalização do lugar.

76. O mundo mundializado da ecotécnica propõe, na obscuridade e na ambivalência, a realização da soberania até o fim, isto é, até o extremo de sua lógica e de seu movimento, tendo até hoje esse extremo terminado sempre na guerra, mas parecendo agora que o extremo da soberania se situa ainda mais longe, dizendo-nos o transtorno do mundo ser impossível não ir mais longe, não indo a própria guerra além do esplendor da morte e da destruição, funcionando a morte, a identificação numa figura da morte, como contra-impulso da soberania que sempre acaba por dela se apossar.

77. Contudo, ela não foi muito longe, não sendo o estar-exposto-à-morte, se é exatamente a condição humana, um ser-para-a-morte enquanto destino e cumprimento supremos, sendo o cumprimento da existência finita uma infinitude que excede por todos os lados a morte que a contém, implicando o sentido infinito da existência finita uma exposição sem esplendor, discreta, descontínua, a algo a que o existente não chega sequer na extremidade soberana.

78. A soberania não é NADA, esforçou-se Bataille por afirmar, não querendo essa frase dizer, em todo caso, que a soberania seja a morte, dizendo-se aqui apenas que a extremidade soberana significa que não há de chegar-se, não há de cumprir-se ou de levar a termo, não há cumprimento, embora para um cumprimento finito a realização seja sem fim, sendo o mundo mundializado exatamente o mundo finito, o mundo da finitude, sendo a finitude a espacialização, que se executa infinitamente, não recomeçando sem fim, mas não podendo dar-se por findo com o sentido.

79. Nesse nada não há recalque nem sublimação do esplendor violento da soberania, havendo antes, sem nunca acabar, um esplendor e uma violência além da guerra, uma fulguração de paz, sendo num certo sentido a própria técnica, sendo o que chamamos aqui de ecotécnica a techné da finitude ou da espacialização, não mais o meio técnico para um Fim, mas a própria techné como fim infinito, a existência do existente finito, seu esplendor e sua violência, sendo a própria técnica que levanta em si a necessidade de apropriar-se de seu sentido contra a lógica apropriadora do capital e contra a lógica soberana da guerra.

80. Enfim, a questão não é que a guerra seja má, sendo-o absolutamente a partir do momento em que o espaço onde se manifesta já não permite mais a apresentação gloriosa de sua figura, fazendo esse espaço antes espacialização, interseção de singularidades e não choque de rostos ou máscaras, sendo aqui que nossa história encontra hoje todo o seu perigo e toda a sua sorte, no imperativo ainda mal percebido de um mundo que cria suas condições mundiais tornando insustentáveis as partilhas de riqueza e pobreza, integração e exclusão, de todos os Nortes e todos os Sules, porque este é o mundo da espacialização e não do cumprimento, da interseção das singularidades e não da identificação das figuras, o mundo onde a soberania se esgota por si mesma, indicando por todas essas razões a ecotécnica obscuramente a techné de um mundo onde a soberania não é NADA.

81. Isso não é dado como destino, mas oferecido como história, devendo a ecotécnica ainda libertar, enquanto techné, tanto a técnica quanto a economia e a soberania, começando a saber-se ao menos que o índice, o tema e o motivo dessa liberação estão neste enunciado provisório de que a soberania é nada, podendo em consequência a multiplicidade dos povos não ser engolida pela hegemonia de um só, nem sucumbir ao fermento do desejo de distinção soberana para todos, tornando-se então talvez pensável uma articulação política do mundo que escape a esses dois perigos, podendo assim o direito expor-se ao nada de seu próprio fundamento.

82. Tratar-se-ia então de ir até a extremidade sem exemplo do nada da soberania, cabendo perguntar como pensar, agir e fazer sem modelo, questão evitada e no entanto colocada por toda a tradição da soberania, podendo a efetuação sem modelo e sem fim ser precisamente a essência da techné como essência revolucionária, a partir do momento em que a própria revolução se expuser ao nada da soberania.

83. Se cada povo, palavra revolucionária, se cada interseção singular, palavra ecotécnica, substituísse à lógica do modelo soberano, sempre sacrificial, não a invenção ou multiplicação de modelos, mas outra lógica onde a singularidade valesse ao mesmo tempo de maneira absoluta e não exemplar, onde cada um fosse um apenas por não ser identificável numa figura, mas infinitamente distinto pela espacialização e infinitamente substituível pela interseção que duplica a espacialização, poder-se-ia chamar isso, parodiando Hegel, a singularidade mundial, tendo ela o direito sem direito de dizer o direito do mundo, dando-se a paz a esse preço: o preço da soberania abandonada, o preço daquilo que vai mais longe que a guerra em vez de nela sempre permanecer.

84. Sabe-se bem que isso não se deixa conceber por nosso pensamento moldado no modelo soberano e guerreiro, mas não havendo realmente nada mais no horizonte além de uma tarefa inaudita, inconcebível, ou a guerra, sendo absolutamente ingênuos todos os pensamentos que ainda queiram conceber uma ordem, um mundo, uma comunicação ou uma paz sem passar por essa tarefa, tendo sempre sido ingênuo apropriar-se de seu próprio tempo, mas vendo-se com clareza que é tempo de fazê-lo, sendo o desastre da soberania já tão extenso e comum a ponto de desencantar qualquer um.

85. No meio do clima geral de ingerência humanitária que dispõe o jogo perverso perseguido pelos protagonistas da guerra, a soberania está mais presente do que nunca, multiplicando-se quase monstruosamente as perguntas sobre o que é um povo, uma etnia, uma comunidade religiosa, e sobre as relações entre povo soberano e povo popular, entre tribos, clãs, classes e redes sociais, sendo essa multiplicação a prova do problema de que se fala, não enfrentando nem o modelo soberano nem a instância do direito esse problema, mas antes o recusando, tratando-se afinal da mundialidade enquanto proliferação da identidade sem fim e sem modelo, e talvez também da técnica enquanto techné de um horizonte novo de identidades inéditas.