Dei Paralysis Progressiva

NANCY, Jean-Luc. The Birth to Presence. Tr. Brian Holmes et alii. Stanford: Stanford University Press, 1993

1. Em janeiro de 1889, em Turim, Nietzsche não desaparece.

2. A postura e a figura em que Nietzsche é paralisado são a postura e a figura de Deus.

3. Ou então: Deus não morreu no enunciado nietzschiano, no texto de Nietzsche (quem, em um texto, alguma vez morreu de uma morte não fictícia?).

4. Em 1889, Deus não está mais simplesmente morto, como estava ou poderia ter parecido estar em A Gaia Ciência.

5. Em outras palavras: o grito “Deus está morto” já não se deixa acompanhar, em 1889, por aquele eco abafado e limitador, “No fundo, apenas o Deus moral faleceu”.

6. Quando o louco gritou “Deus está morto!”, ouviu-se a voz de alguém, com seu tom e acento.

7. Deus está morto, mas desta vez já não é novidade.

8. O que é desagradável e ofende minha modéstia é que no fundo sou todos os nomes da história. Também com os filhos que pus no mundo, considero com certa desconfiança se não é o caso que todos os que entram no “reino de Deus” também saem de Deus.

9. Em Turim, Deus Pai é encarnado diretamente, sem mediação — e sem um Mediador para qualquer tipo de saúde — isto é, sem um Mediador pelo qual passar através da morte e ressuscitar do túmulo.

10. Com Nietzsche e em Turim, ocorre aquele momento da história em que a morte precede a si mesma para mostrar o que ela “é”.

11. Já não “a morte não é”, mas antes “o ser da morte é não-ser, e tal é também o ser de Deus”.

12. Em Turim, chega a ocorrer aquele momento da história em que se mostra que o nome de Deus já não é o nome além de todos os nomes, que já não é a nomeação extrema do Inominável (pois o nome de Deus nunca foi nada além do nome de um Nome impossível), mas que é antes o vazio de toda nomeação, uma ausência de nome sulcada atrás de todos os nomes, ou então a paralisia e morte de todos os nomes.

13. Ele é um que entrou na morte, e que, de certo modo, reconhece e reencontra a si mesmo ali.

14. Com efeito, o espírito que “na morte mantém seu ser”, e, consequentemente, resurge dessa morte para afirmar-se em sua plenitude, é o espírito como Si: o Si — ou a subjetividade — é a determinação do ser (ou da vida, o que Hegel chama “a substância viva”) como autoprodução e autoposição.

15. O Si não poderia ser imediato, pois o que é imediato não é produzido, não se tornou, não foi atualizado — o que, para Hegel, e na verdade para toda a filosofia, equivale a não ser efetivo.

16. Pois não se deve confundir essa frase.

17. Por outro lado, é o enunciado de um sujeito que se afirma anterior à sua própria produção.

18. Essa verdade já estava em obra quando Descartes compreendeu que o ego sum também pertence à loucura.

19. O que Nietzsche teria tomado consciência em Turim, por uma espécie de implosão final da clareza cartesiana, ou por uma última convulsão da “vida que se conserva na própria morte”, é que “se pode morrer de imortalidade”, como ele mesmo havia escrito.

20. “Eu sou Deus” é a enunciação de tal saber, e a palavra “Deus” opera a de-nominação do Sujeito: ele não tem nome, atravessa a história soprando todos os nomes, conduzindo todos os filhos de Deus, junto consigo, de volta à vacância dos céus.

21. É impossível imaginar o frio horror que deve ter sido, por onze anos, o confronto entre o Si e o apagamento de toda inscrição.

22. No entanto, não é possível imaginar uma estranha alegria, e mesmo uma alegria cintilante, não nessa noite mas ao lado dela, como um brilho infinitesimal no canto do olho de Nietzsche?

23. Turim, 4 de janeiro de 1889

24. Ao meu maestro Pietro.

25. Canta-me uma nova canção: o mundo está transfigurado e todos os céus estão cheios de alegria.

26. O Crucificado?

27. De onde vem essa alegria, cantada com as palavras e a jovialidade do salmista?

28. Mas o deus-criança não é Deus, nem mesmo um pequeno deus.

29. Para ele, os céus já não são o céu que se alcança após passar pela morte.

30. Como Nietzsche queria lê-lo, contra a leitura cristã (e talvez contra todas as leituras possíveis desse texto), nos Evangelhos, “a morte não é uma ponte, não é uma passagem”, pois “o Reino de Deus” não é algo que se deva esperar; não tem ontem nem depois de amanhã.