Jean-Luc Nancy, Ego Sum. Paris: Flammarion, 1979.
Dum scribo
1. Dum scribo — “enquanto escrevo” — designa, na décima segunda das Regras para a direção do espírito, o instante em que a escrita deixa de ser simples registro de um pensamento previamente constituído e passa a participar da própria constituição do conhecimento.
2. Enquanto são escritas as Regras destinadas a assegurar ao espírito humano uma direção única e constante para a verdade, a Mathesis universalis apresenta-se menos como conhecimento de conteúdos ou resultados particulares do que como conhecimento da estrutura, do procedimento e da operatividade do próprio conhecer.
3. O primeiro livro efetivamente escrito como livro permanece destinado a não ser concluído nem publicado, não por conter um erro fundamental, mas porque o progresso do próprio conhecimento durante sua elaboração torna insuficiente o espaço inicialmente projetado, como uma casa que se torna pequena depois que seu construtor adquire riquezas inesperadas e precisa conceber uma construção mais ampla.
4. A escrita nos códices das Regras participa materialmente da inauguração de uma nova época do conhecimento, pois a passagem antiga do volumen ao códice moderno transforma a superfície escrita numa máquina de articulação, ordenação e conexão dos princípios demonstrativos.
5. A escrita dos nove cadernos já contém, sem que o escritor possa sabê-lo, sua futura sobrevivência à morte, ao naufrágio e à deterioração material, de modo que escrever para uma publicação não realizada coincide paradoxalmente com escrever para leitores futuros que observarão, por sobre o ombro do morto, palavras eternizadas no instante de sua inscrição.
6. Dum scribo, intelligo — enquanto escrevo, compreendo — faz da intelecção uma coleta, reunião e seleção, uma inter-lectio que é simultaneamente leitura, pois escrever implica ler inteligentemente entre as próprias linhas e recolher aquilo que transforma a escrita no Livro das Regras do Espírito e no Livro da Intelecção.
7. Aquilo que se compreende de maneira tão imediata durante a escrita não é simplesmente a doutrina, o pensamento ou o conteúdo das palavras, mas o próprio fato de que se está escrevendo: ler entre as próprias linhas significa recolher-se na escrita e apreender “eu escrevo”, de modo que antes de cogito, sum encontra-se scribo, intelligo.
8. O recolhimento de si na escrita do código coincide com o instante em que se traça simultaneamente o saber desse código e o saber do próprio gesto que o inscreve, exigindo máxima atenção à identidade entre movimento gráfico e intelecção.
9. Dum scribo, intelligo eodem instanti quo singuli characteres in charta exprimuntur significa que, no mesmo instante em que os caracteres individuais são traçados sobre o papel, não se move apenas a parte inferior da pena, pois nenhum de seus menores movimentos pode ocorrer sem ser simultaneamente recebido pela pena inteira.
10. Enquanto se escreve, compreende-se que o movimento de cada letra na extremidade inferior da pena acontece simultaneamente em todo o instrumento, fazendo da unidade material da pena um modelo para compreender uma transmissão instantânea sem passagem sucessiva entre suas partes.
11. O movimento da escrita interessa não como fluxo contínuo da cursiva, mas como instante discreto no qual cada caráter se singulariza e se imprime, aproximando a escrita manual do modelo tipográfico e transformando o escritor numa máquina de escrever.
12. A cada instante da escrita imprime-se a marca distintiva de uma unidade fonemática, e o conjunto dessa fonografia não forma primordialmente uma duração, mas uma soma de unidades caracterológicas cuja configuração imprime a figura do pensamento expresso pela linguagem e, finalmente, a verdadeira Regra da Verdade no Livro.
13. A impressão ocorre na charta, palavra que designa tanto o papel quanto a carta ou documento dotado de valor jurídico, de modo que o suporte material da escrita se converte na carta constitutiva da ciência, cuja assinatura e cujo selo não são exteriores ao texto, mas consistem no próprio caráter de sua grafia.
14. A proximidade entre carta, mapa e o nome Des Cartes concentra ironicamente numa mesma inscrição a superfície escrita, a cartografia e a assinatura do sujeito que traça a ordem do conhecimento.
15. O movimento da escrita desenha as letras e o espírito encontra-se inteiramente nesse movimento, não porque os sinais escritos funcionem como simples mediações de uma significação, mas porque o movimento da pena vale por si mesmo enquanto gesto não significante que acompanha a produção dos signos sem reduzir-se a eles.
16. O gesto da escrita é instantaneamente o mesmo na pena inteira, sem passagem, transferência, progressão ou comunicação entre suas extremidades, de maneira que dum scribo não significa a duração do trabalho de escrever, mas o mesmo tempo sem duração no qual diferentes movimentos permanecem submetidos a uma única instantaneidade.
17. Todas as diversidades do movimento da pena são simultaneamente desenhadas no ar pela sua extremidade superior, mesmo sem se conceber qualquer realidade que migre de uma extremidade à outra.
18. A inscrição aérea da extremidade superior reproduz os diversos movimentos da pena sem que nenhuma entidade material atravesse o instrumento, fornecendo o modelo de uma comunicação que se realiza pela copresença instantânea das partes.
19. As extremidades encontram-se no instante e produzem no ar uma escrita transparente, impalpável e invisível, uma verdadeira eterografia em que o movimento da escrita se apresenta como instantâneo contato entre as partes.
20. A décima segunda Regra expõe, desse modo, a verdade do selo e reúne conclusivamente as Regras precedentes ao pôr em operação, de maneira geral, os princípios do verdadeiro conhecimento estabelecido sobretudo pela intuição, visão da coisa à luz natural do espírito e impressão luminosa e característica pela qual o pensamento é atingido.
21. Somente o intelecto é capaz de receber a verdade que deve ser percebida, e sua capacitas deve ser entendida literalmente como poder de receber e conter, fazendo do intelecto uma coleção de marcas impressas e, em sua qualidade suprema, um Livro.
22. A intuição não é o testemunho flutuante dos sentidos nem o julgamento enganador da imaginação que combina imperfeitamente seus objetos, mas visão pura do espírito, cuja própria pureza deve ser tornada visível sem ser diminuída.
23. Somente o intelecto possui capacidade para perceber a verdade, mas precisa ser auxiliado pela imaginação, pelos sentidos e pela memória para que nada daquilo que depende da atividade humana seja omitido.
24. O intelecto não funciona independentemente da máquina composta pela imaginação, pelos sentidos e pela memória, pois a industria designa aquilo que se dispõe, organiza, prepara ou fabrica no interior de si, fazendo da revolução industrial também uma revolução do sujeito.
25. A intelecção exige uma indústria das imagens, na qual mapas, esquemas, tabelas, figuras e desenhos se tornam auxiliares privilegiados do espírito e componentes de uma fábrica corporal do conhecimento.
26. A exposição desejada deveria explicar nesse mesmo lugar o que é o espírito humano, o que é o corpo e de que modo o corpo é informado pelo espírito.
27. O problema decisivo consistiria em determinar simultaneamente espírito, corpo e sua relação, inserindo essa relação no próprio mecanismo demonstrativo das Regras.
28. Informar o corpo pelo espírito pode ser entendido como dar-lhe figura, fazendo do corpo a figura traçada pelo espírito e conduzindo demonstrativamente à apreensão do verdadeiro modo do conhecimento numa luz clara.
29. O desejo constante é escrever de maneira tal que as razões apresentadas reproduzam aquelas mesmas razões que conduziram o pensamento à verdade.
30. A escrita deseja ser a própria dedução que conduziu o escritor e que pode igualmente conduzir ou persuadir o leitor, tornando a exposição das razões uma sedução pela verdade e fazendo do corpo que escreve parte da própria operação dedutiva.
31. Essa exposição não pode ser realizada no lugar presente porque ele parece demasiado estreito: o livro, os cadernos, os códices e os mapas não oferecem espaço suficiente para a dedução do corpo escrevente do espírito, e a estreiteza material da escrita transforma-se em angústia de uma pena comprimida num espaço inadequado à amplitude da verdade.
32. A insuficiência do livro não decorre simplesmente de seu pequeno tamanho, pois mesmo que todo o conhecimento desejável estivesse contido em livros, a mistura entre coisas úteis e inúteis e sua dispersão numa massa imensa de volumes exigiriam mais tempo de leitura do que a vida permite e mais inteligência para selecionar o necessário do que para descobri-lo diretamente.
33. O livro é estreito porque exige leitura, enquanto aquilo que se deseja comunicar deveria ser visto: aspira-se a uma escrita iluminadora e ofuscante, literalmente escrita com luz, capaz de transmitir como uma fotografia o próprio escritor no instante em que escreve.
34. Em vez de explicar simplesmente como o corpo é informado pelo espírito, importa mostrar como o espírito se torna visível no corpo e como ambos adquirem conjuntamente sua figura na própria escrita que se imprime, talvez escapando assim à estreiteza do volume material.
35. A escrita do Livro ainda precisa ser conquistada mediante uma saída do canto estreito e da angústia, mobilizando ao máximo os recursos da industria para ultrapassar a limitação de seu próprio suporte.
36. Não é necessário acreditar que as coisas sejam realmente como as hipóteses as descrevem, desde que essas suposições tornem tudo muito mais claro, pois a força do fundamento poderá ser julgada pela visibilidade da construção que ele sustenta.
37. Concipiendum est igitur introduz aquilo que deve ser concebido e não simplesmente imaginado ou aceito como descrição figurativa.
38. Todos os sentidos externos sentem propriamente por paixão, do mesmo modo como a cera recebe a figura impressa por um selo.
39. O modelo da sensação é uma recepção passiva na qual o corpo sensível é marcado pela figura proveniente de fora, exatamente como a cera recebe a impressão do sinete.
40. Sigillum é o pequeno signum, a figura ou imagem portada pelo selo, e o mundo aparece assim menos como mundo de signos do que como mundo de signa e sigilla que imprimem suas figuras na cera dos sentidos.
41. Enquanto se fala, a cera é aproximada do fogo, perde o sabor residual, deixa escapar seu odor, muda de cor e perde sua figura.
42. Dum loquor introduz uma transformação em que a alteração sensível da cera elimina suas formas aparentes e deixa subsistir a concepção intelectual daquilo que ela é.
43. Enquanto se fala e a cera derrete, sua figura sensível desaparece e resta apenas a concepção da cera, que não depende da faculdade de imaginar, embora a imaginação continue sendo mobilizada como auxiliar do conhecimento.
44. No dum scribo das Regras, porém, a mesma cera encontra-se como que no movimento inverso: afastada do fogo, prestes a esfriar e endurecer, aproxima-se do selo e recebe a figura, fazendo da paixão dos sentidos uma impressão pela qual o sujeito conhece.
45. Não se deve considerar a relação entre sensação e selo como uma simples analogia, pois é necessário concebê-la exatamente da mesma maneira.
46. A impressão sensível não é apresentada figurativamente: o que deve ser imaginado é a própria imaginação, e a impressão da figura constitui propriamente o modo da paixão dos sentidos, sobretudo da paixão do olho, que recebe a figura impressa pela iluminação como se fotografasse as formas do mundo.
47. Todo conhecimento externo deve ser concebido literalmente segundo a figura, porque nada cai mais facilmente sob os sentidos do que a forma que pode simultaneamente ser tocada e vista.
48. Na décima segunda Regra, a figura ocupa assim o centro material e conceitual de uma teoria em que ver, tocar, imprimir e conceber se cruzam na mesma operação.
49. Não se trata de ler, mas de escrever e ver: tudo assume figura porque o conceito de figura é tão comum e simples que se encontra envolvido em tudo aquilo que pode ser percebido pelos sentidos, bastando desenvolvê-lo para obter a cada vez a imagem da coisa.
50. O emblema cromático mostra que todas as diferenças sensíveis podem ser expressas e impressas mediante uma multiplicidade infinita de figuras, fazendo da figura o elemento universal de todas as coisas e tornando impossível pensar o mundo sem ela: cogito, figuratur.
51. A impressão é instantaneamente transportada a outra parte do corpo denominada senso comum, para a qual a figura comum a todas as coisas passa desde os sentidos externos no mesmo instante e sem trânsito real de qualquer ente de uma parte para outra.
52. A questão decisiva torna-se então compreender como uma transmissão dessa espécie é possível sem passagem material entre os pontos conectados.
53. Aquilo que se compreende enquanto se escreve é precisamente o modo dessa transmissão, porque o próprio gesto de escrever oferece imediatamente o modelo pelo qual ela pode ser apreendida.
54. Plane eodem modo, quo nunc, dum scribo: o modo em questão deve ser concebido exatamente como aquilo que acontece agora, enquanto se escreve.
55. Ao escrever a décima segunda Regra destinada a assegurar a direção única do espírito para a verdade, identifica-se no próprio gesto gráfico o modo de uma transmissão instantânea e sem trânsito que torna possível o conhecimento verdadeiro do mundo.
56. A pena não funciona como mera analogia, pois o instantâneo de seu movimento fornece diretamente a modalidade pela qual qualquer figura passa para o interior do sujeito.
57. Nenhuma razão permite supor que a conexão entre as partes do corpo humano seja menos íntima do que a conexão existente entre as partes da pena.
58. A unidade corporal pode, portanto, ser concebida por meio da continuidade do instrumento de escrita, no qual cada movimento localizado pertence simultaneamente à estrutura inteira.
59. O corpo humano, tanto em sua exterioridade quanto em sua interioridade e tanto em sua multiplicidade quanto em sua unidade, mantém-se como uma pena, ou ainda mais rigorosamente do que uma pena, constituindo um formidável calamus.
60. Nada pode ser concebido de maneira mais simples para expressar essa relação entre as partes e tornar inteligível a estrutura do corpo.
61. O procedimento não é meramente figurativo, mas uma excogitação pela qual o pensamento sai de si mesmo, inventa e fantasia para conceber a impressão da figura em seu próprio interior.
62. É necessário ainda conceber que o senso comum exerce a função de selo, imprimindo na fantasia ou imaginação, como se esta fosse cera, as mesmas figuras ou ideias que chegam puras e sem corpo dos sentidos externos, sendo a própria fantasia uma verdadeira parte do corpo.
63. O senso comum assume função ativa de selo justamente onde a sensibilidade aparecia como cera passiva, permitindo que as figuras recebidas sejam novamente formadas no interior corporal da imaginação.
64. A paixão converte-se em impressão, o mesmo corpo sensível torna-se corpo escrevente e a mesma cera assume a dureza metálica do selo, instaurando o problema de uma transubstanciação instantânea pela qual cavidades e relevos invertem suas posições sem romper a identidade do processo.
65. A pena inteira não se move exatamente como sua extremidade inferior, pois sua parte superior parece realizar um movimento diverso e contrário.
66. A diferença dos movimentos internos da pena introduz, no interior da identidade do instrumento, uma contrariedade que permite pensar atividades distintas ocorrendo conjuntamente.
67. A pena permite conceber como o corpo se sela a si mesmo em sua relação com o espírito e como os corpos se imprimem nos pensamentos: o que deve ser concebido é uma contrariedade motriz no interior de uma identidade modal, plane eodem modo e, simultaneamente, plane diverso et contrario motu.
68. Nesse lugar sem estreiteza, canto ou angústia e aberto à infinitude das figuras, realiza-se a transfiguração dos corpos: as figuras tornam-se instantaneamente ideias puras e incorpóreas sem terem atravessado materialmente o espaço entre exterior e interior.
69. A décima segunda Regra retoma, desse modo, o princípio já estabelecido na nona Regra da transmissão instantânea da força motriz.
70. Se uma extremidade de um bastão, por mais longo que seja, é movida, pode-se conceber facilmente que a potência que a move faz mover simultaneamente todas as outras partes, porque aquilo que se comunica é a potência nua e não uma potência transportada materialmente por algum corpo.
71. O movimento do bastão fornece um modelo de transmissão em que a eficácia se comunica de maneira instantânea sem depender do deslocamento de uma entidade corporal portadora.
72. O bastão muito longo prefigura a pena e pode ser imaginado indefinidamente grande, até mesmo infinito, pois o decisivo não é o que se escreve sobre o papel, mas compreender que as figuras se comportam como a potência: comunicam-se nuas.
73. No próprio discurso, as figuras das coisas tornam-se instantaneamente ideias pela substituição de uma palavra por outra sem passagem entre os respectivos conceitos, fazendo da ciência uma escrita por deslocamentos sem transferência.
74. Solus intellectus pode então ser pensado como impresso num corpo transfigurado pela potência de sua própria nudez, e a intelecção necessita dessa indústria imaginante porque ela mesma é a figura nua da verdade transfigurada em ideia.
75. A consideração das coisas sensíveis serve, portanto, para reunir toda a indústria dos sentidos e da imaginação a serviço da intelecção mais pura e genuína, não para subordinar o pensamento ao sensível.
76. Logo depois, a mesma Regra introduz a força pela qual todas as coisas são propriamente conhecidas e determina-a como puramente spiritualis, distinta até mesmo das ideias sensíveis que somente se tornam puras porque foram despojadas de seus corpos.
77. Essa força cognoscente é definida como tão distinta do corpo inteiro quanto o sangue é distinto do osso ou a mão do olho.
78. A distinção entre espírito e corpo é paradoxalmente expressa mediante distinções entre partes do próprio corpo, cuja conexão havia sido afirmada tão intimamente quanto a das partes da pena ou do bastão.
79. A força cognoscente é una em todas as suas operações: o mesmo espírito sente e compreende, recebe e forma figuras, despoja a cera virgem e nela imprime sua marca, vê o mundo e escreve sua ciência.
80. Em todas essas funções, a força cognoscente ora sofre, ora age, imitando alternadamente o selo e a cera.
81. A mesma potência do conhecimento pode ocupar as posições ativa e passiva, comportando-se tanto como aquilo que imprime quanto como aquilo que recebe a impressão.
82. Nesse ponto, a imitação precisa ser reconhecida como analogia, pois nada nas coisas corporais é perfeitamente semelhante à força espiritual, e o espírito somente pode ser descrito por essas imagens sob a condição de se reconhecer sua insuficiência.
83. Não existe verdadeira cera nem verdadeiro selo espiritual, de modo que o espírito deve finalmente ser concebido além da analogia que permitiu aproximar-se dele, suspendendo a própria impressão analógica que até então orientava a concepção.
84. Quando a força cognoscente age sozinha, diz-se que ela compreende, mas o modo pelo qual essa compreensão acontece deverá ser explicado mais amplamente em seu lugar próprio.
85. A explicação prometida é remetida a um outro lugar no qual a analogia do selo deveria ser finalmente desfeita, lugar ausente do pequeno livro e suficientemente amplo para não estreitar a escrita, como um espaço aéreo onde nenhuma letra material precisa ser traçada.
86. Nesse lugar de exposição já não haverá figura visível ou impressão levantada de uma superfície, mas uma compreensão comparável à leitura de uma eterografia pura com o livro e os olhos fechados.
87. A própria concepção da nudez, isto é, da potência nua de conceber, continua exigindo a figura insistente da impressão, e seu lugar não se encontra num futuro distante, mas no próprio instante, na extremidade superior do calamus.
88. Os caracteres dessa antigrafia são desconhecidos e justamente por isso exigem engenho e excogitação, conforme o princípio metodológico formulado na décima Regra.
89. O método consiste na observação constante de uma ordem, seja ela efetivamente existente na coisa, seja engenhosamente inventada, como ocorre quando se procura ler uma escrita cifrada em caracteres desconhecidos e, não encontrando nela uma ordem aparente, fabrica-se uma ordem para torná-la inteligível.
90. A leitura do desconhecido não prescinde da invenção, pois a metodologia pode produzir uma ordenação quando a ordem não se oferece imediatamente à percepção.
91. Fingimus significa simultaneamente forjar, fingir, ficcionar e figurar, de maneira que o método impõe a ordem e a figura da escrita sobre a ordem antigráfica da verdade e, ao fazê-lo, figura também aquele que conhece.
92. Conceber adequadamente exige o suplemento de uma figura: mesmo a antigrafia permanece escrita, e a verdade nua já se encontra sempre marcada por algum selo.
93. Uma vez concebidas todas essas relações, o leitor atento pode facilmente recolher quais auxílios devem ser buscados em cada faculdade e até onde a atividade humana pode estender-se para suprir as deficiências do engenho natural.
94. A industria humana não elimina os limites do ingenium, mas mobiliza sentidos, imaginação, memória, figuras e procedimentos como suplementos capazes de ampliar metodicamente a capacidade do conhecimento.
95. O leitor verdadeiramente atento já participa dessa industria se, ao ler, passa também a escrever a si mesmo: enquanto escreve, compreende e recolhe, mediante a atividade da fantasia, o movimento de pena de seu próprio corpo.
96. A propriedade fundamental desse sujeito escrevente encontra-se na imobilidade de seu movimento e na morte que, a cada instante, interrompe e recolhe o gesto gráfico.
97. A pena é inimaginável, mas essa inimaginabilidade não significa que seja necessário impor violentamente uma figura àquilo que carece de figura nem que a intuição pura somente possa aparecer através de um substituto figurativo.
98. A verdade da alma coincide, assim, com a verdade da pena, princípio que encontrará expressão posterior nos Princípios.
99. A natureza do espírito permite que simples movimentos corporais despertem pensamentos sem qualquer semelhança com esses movimentos, fenômeno particularmente evidente nas sensações, nos sentimentos e no efeito das palavras faladas ou escritas.
100. A verdade é uma calamidade, porque sua inscrição somente se produz no ponto em que o movimento do conhecimento coincide com interrupção, despojamento, vazio, exposição e perda de qualquer substância capaz de assegurar definitivamente aquele que escreve.