O cuidado, enquanto projeção lançada, é definido como ser-fundamento de uma nulidade que é, ela mesma, nula.
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A existência humana, em seu todo, é ser-nulo fundamento de uma nulidade.
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Nesse sentido ontológico originário, o Dasein é, enquanto tal, culpado.
A autenticidade não consiste na superação ou eliminação da culpa.
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A culpa ontológica é ineradicável, pois coincide com a própria condição existencial do Dasein.
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A autenticidade exige, antes, a assunção da própria possibilidade de ser-culpado como possibilidade mais própria.
Assumir a culpa significa tomar para si a base lançada que se é e as projeções que se realizam a partir dela.
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Trata-se de apropriar-se de uma existência necessariamente culpada, em vez de deixá-la dissolver-se no impessoal.
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Querer-ter-consciência expressa essa disposição para responder ao chamado e decidir-se a partir de si mesmo.
A resposta exigida pela consciência não é a adoção de um código moral determinado.
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O que se exige é a disposição para responder, a prontidão para deixar-se interpelar.
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Querer-ter-consciência é escolher-se, colocando-se a serviço da própria possibilidade de individualidade.
Querer-ter-consciência é um modo de compreensão, pois projeta o Dasein sobre sua possibilidade mais própria de ser-culpado.
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A essa compreensão correspondem uma disposição afetiva específica, a angústia, e um modo de discurso, o silêncio.
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A forma de desvelamento de si que daí resulta é denominada resolução [Entschlossenheit].
A resolução, enquanto modo de ser-no-mundo, não isola o Dasein de seu mundo.
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Ela reconduz o Dasein às suas relações concretas com entes e com outros, para que descubra suas possibilidades reais naquela situação.
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A resolução é essencialmente indeterminada, pois nenhuma ontologia fundamental pode fornecer roteiros existenciais prontos para a autenticidade.
A situação não é um dado prévio, mas algo que se constitui no próprio ato resoluto.
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Somente a partir de uma resolução concreta um contexto adquire definição existencial.
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Resolver-se é projetar não apenas uma possibilidade, mas o próprio contexto como portador de um horizonte determinado de possibilidades.
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A resolução constitui, assim, o âmbito no qual ela mesma atua.