MERLEAU-PONTY, Maurice. Le visible et l'invisible: suivi de notes de travail. Texte établi par Claude Lefort. Paris: Gallimard, 1964. (Bibliothèque des Idées).
A ciência supõe a fé perceptiva e não a esclarece
1. Poder-se-ia dizer que essas antinomias pertencem ao universo confuso do imediato e do vivido, sem verdade, e que é preciso esperar que a ciência, único conhecimento rigoroso, explique de fora esses fantasmas. O verdadeiro seria o objetivo, determinado pela medida e pelas operações sobre variáveis definidas, sem nada dever ao contato com as coisas, e a ciência, depois de excluir os predicados que vêm de nosso encontro com elas, os reintegraria como casos particulares de suas relações. O mundo se fecharia então sobre si, e, exceto pelo espectador imparcial que pensa e faz a ciência, seríamos partes do Grande Objeto.
2. Contra essa objeção de princípio, basta dizer que o espectador do mundo (κοσμοθεωρός), capaz de reconstruir o mundo por suas operações, longe de dissipar as obscuridades da fé ingênua, é sua expressão mais dogmática e se sustenta nela. Por dois séculos a física pôde crer que seguia as articulações de um mundo em si, mas hoje, ao reconhecer como seres físicos últimos relações entre observador e observado, é a ontologia do espectador absoluto e do Grande Objeto que parece preconceito pré-científico. A fórmula que permite passar de uma perspectiva astronômica a outra não conduz a um saber absoluto, pois só tem sentido físico inserida em observações situadas; dar-lhe valor de saber absoluto é a ciência retomar em proveito próprio a velha certeza de sobrevoo que a fé perceptiva contém.
3. Tão inventiva no manejo do algoritmo, a ciência mostra-se conservadora na teoria do conhecimento, retraduzindo suas descobertas na ontologia tradicional, como se precisasse excetuar-se das relatividades que estabelece e pagar seu êxito com a cegueira para o Ser. As considerações de escala deveriam contestar o próprio corte entre subjetivo e objetivo e fazer entrar o contato observador-observado na definição do real, mas os físicos buscam nelas argumentos para o determinismo ou para uma realidade “mental” ou “acausal”, e pensam as partículas efêmeras como partículas comuns que duram menos. Nenhuma ontologia é exigida pelo pensamento físico em ação, e a ontologia clássica do objeto é, para quem a conserva, apenas uma “preferência”, como a de um pintor por um estilo; ou a física é uma prática do algoritmo cujos especialistas não têm direito de decidir o que existe, ou pretende dizer o que é, e então deve reconhecer a análise da constituição do universo das medidas a partir do mundo vivido como fonte.
4. A mesma conclusão resulta da ordem “subjetiva”, complemento da objetiva na ideologia científica, cujos conceitos de psiquismo e de psicologia são tão míticos quanto as classificações das sociedades arcaicas. Foi preciso exorcizar a introspecção, pois nunca houve visão do dentro, mas há uma vida perto de si, aberta ao mundo comum e aos outros, e o recurso ao “fora” apenas transporta para o exterior a ideia confusa de uma visão psicológica. O “psiquismo” é concebido como coisa invisível atrás dos corpos, opaca a si, que se reencontra em suas réplicas exteriores; é ainda a fé perceptiva, com sua convicção de sobrevoo, aplicada ao homem, e objetivo e subjetivo são duas ordens de objetos com a mesma estrutura, até que o saber questione o espectador absoluto: o físico de que falo é o físico que fala, e o psiquismo do psicólogo é o seu.
5. A história da psicologia nos últimos cinquenta anos, sobretudo a da Gestalt, mostra essa abertura: ela quis constituir seu domínio objetivo nas formas do comportamento, definidas por relações funcionais, e acumulou determinações, mas hoje sente-se de novo num ponto morto. Essas relações só valem nas condições artificiais do laboratório, como integrações simples em relação às quais as estruturas mais complexas são qualitativamente diferentes, e as condições servem antes de ocasião para o condicionado. A estrada que se afasta para o horizonte, vista livremente com os dois olhos, não tem largura mensurável, é tão larga quanto de perto e não é, num sistema de proximidade, distância e horizonte que é a verdade perceptiva, ordem ambígua do ser percebido em que a dependência funcional não “morde”. Não se trata de opor à ciência um domínio que lhe escaparia, mas de mostrar que ser-objeto e ser-sujeito não formam alternativa e que o fracasso da psicologia e da física objetivistas pede uma revisão da ontologia: as ideias de sujeito e objeto convertem em adequação de conhecimento a relação vivida na fé perceptiva, utilizam-na sem esclarecê-la.
6. A psicologia da percepção em geral mostra que as crises da psicologia têm razões de princípio, e não de atraso das pesquisas, e a mesma dificuldade reaparece nas pesquisas especializadas.
7. Uma psicologia social é impossível numa ontologia objetivista, pois os outros homens e as constelações sociais só intervêm como símbolos, por sua configuração num espaço, num tempo e num código sociais, e não por propriedades físicas. A ideologia objetivista contraria aqui o saber: considerar sem verdade intrínseca a magia e o mito é um postulado da psicologia ocidental, e, como o etnólogo descreve um tempo mítico, a psicologia social não pode excluir a priori componentes míticas e oníricas em nossas relações. Tampouco deve fazer do pensamento objetivo mero produto social, mas tomá-lo como método a usar até o limite, fase de eliminação antes que explicação total, encontrando lateralmente as questões do filósofo sobre outrem, o acontecimento histórico e o Estado.
8. Sem aceitar uma “objetividade” verdadeira no domínio humano, em que as leis funcionais cercam o irracional sem eliminá-lo, a psicologia dá das sociedades uma visão abstrata, e é dela que os preconceitos objetivistas voltam a assombrar a filosofia dos físicos. É mais difícil renunciar ao mecanicismo quanto à ação do mundo sobre o homem do que dentro do mundo físico, porque na fisiologia dos sentidos isso questiona nossa ideia mais arraigada das relações entre ser, homem e verdade, e os biólogos permanecem mais materialistas que os físicos, ao menos como filósofos. O cartesianismo idealizou o mundo físico e inspirou uma ciência do corpo que o decompõe em processos objetivos e prolonga a análise ao psiquismo com a sensação; essas duas idealizações devem ser desfeitas juntas, voltando à fé perceptiva.
9. Porque a percepção dá fé num mundo de fatos naturais contínuo, acreditou-se que ele poderia incorporar tudo, até a percepção, mas já não se crê numa natureza assim nem que as ilhotas de psiquismo sejam ligadas por seu solo. É preciso compreender se e em que sentido o que não é natureza forma um mundo, o que é um mundo e quais as relações entre mundo visível e invisível, trabalho que a ciência não pode realizar inteiramente, pois se move no mundo e o pressupõe. Dizer que os estímulos são reveladores, e não causas, não é perceber sem corpo, mas reexaminar o corpo como objeto puro, nem instalar-se em essências, mas reconsiderar a distinção entre o quê e o fato de ser a partir da experiência do mundo; a filosofia é o conjunto das questões em que quem questiona é posto em causa, e uma física e uma psicologia que aprenderam a situar o físico e o psicólogo perderam a ilusão do sobrevoo e impõem o exame radical de nosso pertencimento ao mundo.