MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).
A SÍNTESE DO CORPO PRÓPRIO
1. A análise da espacialidade corporal mostra, pela primeira vez a propósito do corpo próprio, o que vale para todas as coisas percebidas: a percepção do espaço e a percepção da coisa não são dois problemas distintos. Enquanto a tradição cartesiana e kantiana explica a coisa pelo espaço, a experiência do corpo enraíza o espaço na existência. Sob o espaço objetivo há uma espacialidade primordial que se confunde com o próprio ser do corpo, e a espacialidade do corpo é o desdobramento de seu ser de corpo.
2. A unidade do corpo tem a mesma estrutura de implicação do espaço: seus segmentos e seus aspectos visuais, táteis e motores não são coordenados passo a passo, mas envolvem-se uns nos outros num gesto único. O sujeito não está diante do corpo, é o próprio corpo, que se interpreta a si mesmo como “lei eficaz” de suas mudanças. O corpo não é comparável ao objeto físico, mas à obra de arte: um nó de significações vivas em que não se distingue a expressão do expresso.
3. O hábito em geral esclarece a síntese do corpo próprio, pois todo hábito é ao mesmo tempo motor e perceptivo e reside na função que delimita o campo de visão e o campo de ação. A bengala do cego não é objeto percebido, mas instrumento com o qual se percebe, extensão da síntese corporal, e o objeto exterior não é o invariante de perspectivas, mas uma coisa de que as perspectivas são aspectos. O corpo, sistema de potências motoras e perceptivas, é um conjunto de significações vividas que tende ao equilíbrio e às vezes forma um novo nó de significações.