MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).
1. O sentir volta a ser uma questão. Longe de ser a posse de uma qualidade morta, é uma comunicação vital com o mundo que confere à qualidade um valor para o corpo e torna o mundo presente como lugar familiar da vida. A partir dele é preciso redefinir a associação, a passividade e o próprio entendimento, e a reflexão só atingirá o centro do fenômeno perceptivo se esclarecer ao mesmo tempo sua inerência vital e sua intenção racional.
2. Sensação e juízo perderam juntos sua clareza aparente, que só existia graças ao preconceito do mundo. A crítica da hipótese de constância e a redução da ideia de “mundo” abrem um campo fenomenal a ser circunscrito e situado em relação ao saber científico, à reflexão psicológica e à reflexão filosófica.
3. Ciência e filosofia foram sustentadas durante séculos pela fé originária da percepção num ser em si, cuja tese muda é a de uma experiência coordenável sem lacunas. Prolongando sem crítica esse ideal de conhecimento, chegou-se a uma filosofia em que o corpo vivo se torna exterior sem interior e a subjetividade interior sem exterior. A percepção passa a valer como ciência incipiente, e a ciência como percepção metódica e completa.
4. Essa filosofia se destrói diante dos próprios olhos, pois o objeto natural, o organismo e a ideia de um universo de pensamentos ou de valores revelam seus limites. A ciência clássica é uma percepção que esquece suas origens e se crê acabada, e o primeiro ato filosófico consiste em retornar ao mundo vivido aquém do mundo objetivo, reencontrando o sistema “Eu-Outrem-as-coisas” em estado nascente.
5. O campo fenomenal não é um mundo interior, e a experiência dos fenômenos não é introspecção nem intuição bergsoniana, mas explicitação da vida pré-científica da consciência, uma análise intencional. O imediato deixa de ser a impressão que coincide com o sujeito e passa a ser o sentido, a estrutura, o arranjo espontâneo das partes, que se “compreende” por apropriação.
6. A psicologia fenomenológica difere em princípio da psicologia de introspecção, que, sem questionar a existência absoluta do mundo, realizava a consciência como “fato psíquico” e setor do ser. Ao tomar a Gestalt como tema, o psicólogo rompe com o psicologismo, pois o sentido do percebido determina as sensações em vez de resultar delas. Toda descrição fiel já implica a atitude transcendental e conduz ao problema da constituição do mundo.
7. A reflexão psicológica ultrapassa-se a si mesma, e o campo fenomenal torna-se campo transcendental. Esse campo, porém, opõe à explicitação total uma dificuldade de princípio, pois a forma é o próprio aparecimento do mundo e o nascimento de uma norma, e não a realização de uma razão preexistente. A reflexão deve ser compreendida como operação criadora que participa da facticidade do irrefletido e reconhece como problema fundamental a presunção da razão.
8. A investigação da percepção precisava começar pela psicologia para seguir metodicamente o caminho que leva da atitude natural ao problema transcendental, sem supor uma dimensão transcendental eternamente dada. Também não podia começar apenas por ela, pois a descrição psicológica, purificada de todo psicologismo, só se torna método filosófico se ancorada em referências que mostrem de onde parece verdadeira: a experiência antecipa uma filosofia, e a filosofia é apenas experiência elucidada.