0 Prólogo

MERLEAU-PONTY, Maurice. Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945. (Bibliothèque des Idées).

1. A fenomenologia permanece difícil de definir mesmo meio século depois dos primeiros trabalhos de Husserl porque reúne exigências aparentemente contraditórias: é estudo das essências, mas reinsere as essências na existência; é filosofia transcendental que suspende a atitude natural, mas reconhece o mundo como sempre já presente antes da reflexão; pretende constituir-se como “ciência exata”, mas descreve espaço, tempo e mundo vividos; recusa explicações psicológicas e causais, mas admite dimensões genéticas e construtivas; e essa tensão não pode ser resolvida simplesmente pela separação entre Husserl e Heidegger, já que Ser e tempo desenvolve indicações husserlianas ligadas ao conceito natural de mundo (natürlicher Weltbegriff) e ao mundo-da-vida (Lebenswelt).

2. A unidade da fenomenologia não deve ser procurada numa doutrina acabada nem numa soma de citações, mas em sua existência como maneira, estilo e movimento filosófico reconhecível antes de alcançar plena consciência conceitual de si mesmo.

3. A primeira exigência fenomenológica consiste em descrever em vez de explicar ou analisar, e o retorno “às coisas mesmas” significa antes de tudo recusar a pretensão de que a ciência possua o mesmo sentido de ser que o mundo percebido.

4. O retorno fenomenológico ao mundo vivido distingue-se radicalmente do retorno idealista à consciência, pois rejeita tanto a análise reflexiva que reconstrói a experiência a partir de um sujeito constituinte quanto a explicação científica que a dissolve em nexos causais.

5. O mundo precede toda análise reflexiva e não pode ser construído a partir de sensações ou perspectivas isoladas que são, elas mesmas, produtos posteriores da análise, razão pela qual a reflexão deve reconhecer o irrefletido que constitui sua própria condição inicial.

6. O verdadeiro sentido da redução fenomenológica não consiste numa retirada para uma consciência transcendental absolutamente transparente que constituiria o mundo por sucessivas operações de significação, pois tal interpretação conduziria a um idealismo transcendental no qual as diferenças concretas entre sujeitos seriam dissolvidas numa consciência prepersonal universal.

7. A redução fenomenológica torna-se possível justamente porque a relação com o mundo é constitutiva e pode ser momentaneamente suspensa para aparecer como tal, não pela rejeição das certezas da atitude natural, mas pela interrupção de sua familiaridade silenciosa.

8. A redução eidética não transforma as essências em finalidade autônoma da filosofia, mas utiliza-as como meio para compreender a existência efetivamente engajada no mundo, passando do fato da existência à sua natureza, do Dasein ao Wesen, precisamente porque a vida está demasiado imersa no mundo para conhecer diretamente sua própria facticidade.

9. Buscar a essência da consciência significa reencontrar a presença efetiva de si a si que precede a definição verbal de “consciência”, assim como buscar a essência do mundo significa compreender aquilo que ele é de fato para nós antes de qualquer tematização discursiva.

10. A intencionalidade só pode ser compreendida a partir da redução porque não significa simplesmente que “toda consciência é consciência de alguma coisa”, mas que a unidade do mundo é vivida como já constituída antes de qualquer ato explícito de identificação.

11. A ampliação do conceito de intencionalidade permite distinguir a compreensão fenomenológica da intelecção clássica e torna possível uma fenomenologia da gênese, na qual compreender uma coisa, acontecimento histórico ou doutrina significa recuperar sua intenção total e sua maneira singular de existir.

12. A principal conquista da fenomenologia consiste em reunir subjetivismo e objetivismo extremos numa concepção de mundo e racionalidade em que o sentido emerge da interseção das experiências próprias entre si e com as experiências de outrem.

13. A fenomenologia, enquanto revelação do mundo, funda-se em seu próprio exercício porque todo conhecimento repousa sobre pressupostos e, em última instância, sobre a comunicação originária com o mundo, enquanto a filosofia radical precisa interrogar até mesmo esse fundamento.