3 Ordens

MERLEAU-PONTY, Maurice. La structure du comportement. Précédé de « Une philosophie de l'ambiguïté » par Alphonse De Waelhens. Paris: Presses Universitaires de France, 1942. (Bibliothèque de Philosophie Contemporaine).

A ordem física, a ordem vital, a ordem humana

1. A reflexologia de Pavlov trata o comportamento como coisa, mas as variáveis de que ele realmente depende são relações que não estão contidas nos estímulos físicos, desde a relação entre duas nuances de cinza até as relações de expressão da conduta simbólica. O estímulo desdobra-se em acontecimento físico e em situação “para o organismo”, e a resposta, em “comportamento geográfico” e comportamento propriamente dito, melodia cinética dotada de sentido. Situação e reação são dois momentos de um processo circular, e ao campo físico é preciso acrescentar um campo fisiológico e um campo mental, o que parece reconduzir aos problemas clássicos que o behaviorismo quis eliminar.

2. A noção de forma, aplicável aos três campos, permitiria integrá-los como três tipos de estruturas, superando as antinomias entre materialismo, espiritualismo e vitalismo. Quantidade, ordem, valor e significação seriam apenas o caráter dominante em cada ordem e se tornariam categorias universalmente aplicáveis. Em contrapartida, a biologia e a psicologia não deveriam, por princípio, subtrair-se à análise matemática e à explicação causal.

3. A teoria da forma tende a prolongar-se numa filosofia da forma que substituiria a das substâncias, mas não levou longe esse trabalho, pois a forma só pode ser plenamente compreendida numa filosofia livre dos postulados realistas da psicologia. Enquanto o comportamento é visto como acontecimento do mundo, a mediação vital e espiritual entre estímulo e reação só pode ser pensada como passagem de um plano de realidade a outro. Vida e consciência tornam-se então forças reais que suprem determinantes físicos insuficientes, e recai-se no antigo espiritualismo.

4. A psicologia da forma inclina-se, antes, para o materialismo: supõe que o comportamento, enraizado no meio geográfico, deve pertencer ao único universo de discurso da física, e busca processos nervosos estruturais isomorfos ao psíquico e homogêneos às estruturas físicas. Se, porém, não há diferença de estrutura entre o físico, o fisiológico e o psíquico, não há diferença alguma. A consciência torna-se o que se passa no cérebro, e o “isomorfismo”, numa filosofia da forma, é uma identidade.

5. Nem a conclusão materialista nem a interpretação espiritualista levam a noção de Gestalt às últimas consequências, pois ambas a tratam como acontecimento da natureza, causa ou coisa real, deixando de pensar segundo a “forma”. Enquanto o mundo físico for visto como o ser que tudo abrange, oscila-se entre um espiritualismo que opõe substância a substância e um materialismo que reduz as ordens superiores à física. É preciso compreender matéria, vida e espírito como três ordens de significações e pedir à própria forma a síntese da natureza e da ideia.

6. A forma define-se como sistema físico, conjunto de forças em equilíbrio ou mudança constante em que nenhuma lei vale para cada parte isolada e cada vetor é determinado por todos os outros. Unidade interior inscrita num segmento de espaço e resistente às influências externas por sua causalidade circular, a forma física é um indivíduo. Com ela introduz-se um princípio de descontinuidade e as condições de um desenvolvimento por saltos ou crises, de um acontecimento, de uma história.

7. A forma nega a individualidade dos corpúsculos da física clássica e afirma uma individualidade “molar”, mas Köhler encontrou exemplos dela na própria física, e todas as leis físicas exprimem uma estrutura e só têm sentido dentro dela. As leis são propriedades de conjuntos relativamente estáveis, e o que se verifica é sempre um sistema de leis, e não uma série causal isolada. O conteúdo efetivo da ciência não exige nem a fusão de um universo em que tudo depende de tudo nem a justaposição de processos isoláveis, mas a estrutura.

8. Dizer que existem formas físicas é incontestável se significa que a ciência não pode definir o universo físico como campo homogêneo, mas não se se pretende encontrar estruturas numa natureza em si. Lei e estrutura envolvem-se reciprocamente: a lei só é possível no interior de uma estrutura de fato, e esta se insere num tecido contínuo de relações. São dois momentos dialéticos, e não duas potências de ser, e a forma não é um elemento do mundo, mas um limite para o qual tende o conhecimento físico.

9. Nesse sentido, a forma deve ser conservada, e uma teoria do conhecimento físico ou histórico que a excluísse não explicaria a história e a realidade como objetos de pensamento. As estruturas reconstituídas, como o Egito enquanto estrutura econômica, social e política, não são forças reais que orientem a história, mas ideias, significações comuns a um conjunto de fatos que todos exprimem e nenhum contém inteiro. A forma, e com ela o universo da percepção, é um objeto de percepção sem o qual a física não teria sentido, pois é construída a propósito dele e para coordená-lo.

10. A forma não se define em termos de realidade, mas de conhecimento, como conjunto percebido: Köhler o admite implicitamente ao dizer que cada acontecimento local “conhece dinamicamente” os outros. Tomada como ser natural no espaço, a forma estaria sempre dispersa; sua unidade é a dos objetos percebidos, e é do universo percebido que a Gestalttheorie toma a noção. A reintrodução de estruturas perceptivas na física moderna não revela formas da vida ou do espírito num mundo físico em si, mas mostra que o universo do naturalismo não pôde fechar-se sobre si e que a percepção não é um acontecimento da natureza.

11. A forma física é um equilíbrio obtido em relação a condições exteriores dadas, e sua ação para fora tende sempre a reduzir uma tensão e levar ao repouso. Há estruturas orgânicas quando o equilíbrio é obtido em relação a condições virtuais que o próprio sistema faz existir, quando a estrutura executa um trabalho fora de seus limites e constitui para si um meio próprio. Nesse caso, o estado privilegiado não pode ser determinado como resultado das ações recíprocas que ocorrem efetivamente no sistema.

12. Um organismo nunca realiza todos os comportamentos que seriam possíveis se fosse uma máquina, e há comportamentos privilegiados, às vezes individuais, na postura, no gesto e na percepção.

13. Todo comportamento não privilegiado é sentido como difícil ou imperfeito, e cabe perguntar o que confere aos privilegiados seu privilégio. Não se pode compará-los à bolha de sabão, cuja forma esférica resolve um problema de mínimo e máximo, pois em si mesmos eles, na maioria das vezes, não têm privilégio de simplicidade ou de unidade.

14. Ao voltar a cabeça para uma fonte sonora, tornando síncronas as excitações nos dois ouvidos, o processo não fica mais simples parte por parte; só parece simples se nele se busca um todo exprimível por uma lei e pela semelhança com um modelo proposto pelo espírito.

15. Não é por ser mais simples que um comportamento é privilegiado, mas por ser privilegiado que é achado mais simples. Ele é mais simples e econômico em relação à tarefa em que o organismo está engajado e a suas formas fundamentais de atividade, pois as reações dependem da significação do estímulo para um ser capaz de certos tipos de ação. No ato de apontar, o plano privilegiado corresponde a um equilíbrio vital, e não físico, e depende da atividade total do organismo.

16. O plano privilegiado do braço é deslocado por todos os excitantes sensoriais e por todos os movimentos do corpo, mesmo despercebidos, e o mesmo movimento o desloca em sentidos opostos conforme sua significação. Os comportamentos privilegiados só por abstração são tratados como fenômenos locais. O que é privilegiado é uma relação determinada entre posição e tônus, e não cada um deles isolado.

17. Existe para cada indivíduo uma estrutura geral do comportamento que se exprime em constantes de conduta, limiares, afetividade, temperatura, respiração e pulso, sem que se possa distinguir nelas causas e efeitos. Cada organismo tem suas condições ótimas de atividade e sua maneira de realizar o equilíbrio, determinadas por uma atitude geral para com o mundo. As estruturas inorgânicas exprimem-se por uma lei, e as orgânicas só se compreendem por uma norma, pois o organismo mede ele mesmo a ação das coisas sobre si e delimita seu meio num processo circular sem análogo no mundo físico.

18. As relações entre o indivíduo orgânico e seu meio são dialéticas e só se deixam classificar segundo sua significação vital, e não segundo os aparelhos que as realizam. Distingue-se um comportamento imediato, compensação local que se aproxima de um processo físico, e um comportamento objetivo, trabalho exterior em que o organismo inteiro se engaja. A ciência da vida só se constrói com noções feitas sob medida, tomadas da experiência do vivente.

19. Os tropismos, tidos como reações a agentes físicos e químicos, não parecem existir assim nas condições normais de vida. A anêmona-do-mar, após várias inversões da grade, solta o pedículo e vai fixar-se na areia, o que mostra que o organismo põe ele mesmo as condições de seu equilíbrio; os tropismos de Loeb seriam reações de laboratório, como as de um homem desorganizado pela emoção.

20. A dialética entre organismo e meio pode ser interrompida por comportamentos “catastróficos” que reduzem momentaneamente o organismo a sistema físico, mas trata-se de casos patológicos ou de laboratório. Isso vale também contra a Gestalttheorie: as reações perceptivas só se explicam por modelos físicos quando isoladas artificialmente do contexto de ação. Se a percepção obedece às leis de Wertheimer, é porque o funcionamento nervoso encontra nelas constantes admitidas pela atividade total do organismo, e construir um modelo físico do organismo seria construir um organismo.

21. Não se trata de vitalismo, mas de reconhecer que as reações de um organismo só são compreensíveis como atos dirigidos a um meio, e que o objeto da biologia são suas reações “adequadas”, e não tudo o que lhe acontece no laboratório. O organismo como soma de ações físico-químicas não é o objeto da biologia, pois uma análise molecular total dissolveria as funções na massa indivisa das reações banais. “O sentido do organismo é seu ser”: o organismo biológico é uma unidade ideal, e as ações físico-químicas constituem, segundo Hegel, “nós” ou “turbilhões” relativamente estáveis, de modo que o mecanismo se duplica numa dialética.

22. Pode-se objetar que, sendo a análise físico-química ilimitada de direito, as categorias vitais pertenceriam à maneira humana de perceber e a biologia descritiva seria um inventário provisório das superestruturas da física do vivente. Manter como constitutivas essas categorias, porém, parece levar ao vitalismo: ao admitir que o organismo modifica seu meio segundo uma norma interior, fez-se dele um indivíduo e uma “capacidade determinada de reação”, modelo irredutível (Urbild) do conhecimento biológico, estrutura de direito, e não apenas de fato.

23. A ideia de significação permite conservar a categoria de vida sem força vital. O resíduo que a física não coordena é anônimo, mas o “fundo não relacional” da biologia revela relações objetivas de um novo gênero: a unidade dos sistemas físicos é de correlação, a dos organismos, de significação. Essa significação é atributo do organismo percebido, mas o organismo verdadeiro é a totalidade concreta do organismo percebido, e a percepção do “corpo fenomenal” apreende de imediato estruturas e núcleos de significação que são como um a priori da biologia.

24. Essas observações não justificam o vitalismo, nem o de Bergson, pois a relação do elã vital com seus produtos é mágica. Mecanicismo e vitalismo tomam o organismo como produto real de uma natureza exterior, quando ele é uma unidade de significação, um fenômeno no sentido kantiano. A totalidade não é aparência, mas fenômeno: os atos vitais são o desdobramento de unidades ideais, e a significação está para a causa final como a relação de função a variável está para a causa produtora.

25. As relações entre indivíduo e meio não são mecânicas, mas dialéticas: os estímulos são ocasiões, e não causas, e entre as variáveis e a conduta aparece uma relação de sentido. Organismo e meio tornam-se “aptidão” e “meio”, polos de uma mesma estrutura. O que se chamou vida já era consciência da vida: “o espírito da natureza é um espírito oculto”, espírito para o espírito que o conhece. Na ordem humana, o trabalho inaugura uma terceira dialética, projetando entre o homem e os estímulos objetos de uso (Gebrauchsobjekte) e objetos culturais que constituem seu meio próprio.

26. O termo hegeliano “trabalho” é preferido a “ação” porque se costuma ligar a consciência à ação sem tomar a ação humana em seu sentido próprio. Bergson reduz o trabalho humano a outra solução dos problemas do instinto, e às vezes recai numa noção puramente motora da ação, como a “função do real” de Janet; a filosofia reflexiva, por sua vez, faz do juízo de existência um choque sem conteúdo, de modo que consciência e ação são justapostas, e não ligadas. É preciso admitir uma vida da consciência que ultrapassa seu conhecimento expresso de si e descrever as estruturas de ação e conhecimento em que ela se engaja: a percepção é um momento da dialética de um sujeito concreto e tem por objeto primeiro não o “sólido inorganizado”, mas as ações de outros sujeitos humanos.

27. A percepção nascente visa intenções humanas, mais que objetos de natureza ou qualidades puras, e as apreende como realidades vividas, mais que como objetos verdadeiros. A criança percebe primeiro rostos e gestos, e um sorriso pode ser percebido sem que cores e linhas estejam presentes à consciência; a significação humana é dada antes dos supostos signos sensíveis. Os objetos primitivos são antes vividos que conhecidos, como o campo de futebol para o jogador, em que a consciência não é senão a dialética do meio e da ação.

28. Esses caracteres não se explicam pela simples presença de homens e objetos de uso em torno da criança, nem por causalidade sociológica ou fisiológica, e exigem uma reformulação da noção de consciência. A consciência infantil precisa encontrar de imediato nos atos e objetos humanos a intenção de que são testemunho, sem que isso signifique inatismo. A distinção kantiana entre forma a priori e conteúdo empírico não se aplica à consciência nascente, que conhece “a priori materiais”, como a linguagem e o outro: a consciência é uma rede de intenções significativas, ora claras para si, ora mais vividas que conhecidas.

29. Essa concepção integra à consciência o coeficiente de realidade que os psicólogos introduzem de fora com a “função do real”. A consciência de realidade não se reduz ao eco de um acompanhamento motor, pois toda alteração na consciência das existências se traduz numa modificação do aspecto concreto dos objetos, e é no sentido intrínseco do percebido que se deve buscar o índice existencial.

30. O que define o homem não é criar uma segunda natureza econômica, social e cultural, mas ultrapassar as estruturas criadas para criar outras. O macaco não possui o instrumento no sentido pleno, enquanto para o homem o galho continua sendo galho-transformado-em-bastão, visível sob vários aspectos, o que lhe permite fabricar instrumentos para um uso virtual. A dialética humana é ambígua: manifesta-se nas estruturas que produz e em que se aprisiona, mas tem também o sentido de negá-las, e a percepção vivida já prefigura o conhecimento de um universo.

31. Não basta opor uma descrição às explicações redutoras, que sempre podem tratar os caracteres descritivos como aparentes: é preciso denunciar o abuso do pensamento causal e mostrar como pensar as dependências fisiológicas e sociológicas. Como a percepção nascente é sobretudo contato emocional, o freudismo serve de exemplo para precisar as relações entre a dialética humana e a dialética vital.

32. Os mecanismos descritos por Freud não exigem o sistema de noções causais com que ele os interpreta. O desenvolvimento pode ser compreendido como estruturação (Gestaltung, Neugestaltung) progressiva e descontínua do comportamento, o recalque como integração apenas aparente, e o complexo como estrutura estereotipada de consciência. A explicação causal só é possível na proporção da insuficiência das estruturações do sujeito, e a obra de Freud é um quadro de anomalias, ao lado das quais há uma verdadeira transformação da existência em que os atos espirituais têm sentido próprio.

33. Nem o psíquico em relação ao vital nem o espiritual em relação ao psíquico são substâncias: a relação de cada ordem com a superior é a do parcial com o total, e o advento das ordens superiores suprime como autônomas as inferiores. Por isso fala-se de ordem humana, e não de ordem psíquica ou espiritual, e a distinção entre psíquico e somático só tem lugar na patologia. O espírito não é uma diferença específica acrescentada ao animal, pois o homem não é um animal racional; mas também não age sozinho, sendo uma nova forma de unidade que não pode repousar em si.

34. As alternativas da psicologia são artificiais: o behaviorismo intencional de Tolman introduz “determinantes” que conferem sentido aos estímulos, mas conserva a distinção realista entre causas e condições e fica preso ao debate entre “mentalistas” e “materialistas”. Tomado em sua unidade e em seu sentido humano, o comportamento não é realidade material nem psíquica, mas um conjunto significativo, uma estrutura que não pertence nem ao mundo exterior nem à vida interior, e é o realismo em geral que deve ser posto em questão.

35. A obscuridade vem da antítese entre percepção exterior e interior e do privilégio concedido a esta, quando uma psicologia objetiva pode descrever as estruturas de conduta sem introspecção. A própria introspecção, ao comunicar-se pela linguagem, é homogênea à observação exterior e visa, como ela, uma estrutura ou significação. Ela é uma das perspectivas possíveis sobre a estrutura e o sentido imanente da conduta, que são a única “realidade” psíquica.

36. Desenvolvendo o que estava implicado na representação científica do comportamento, a noção de estrutura levou a rejeitar mecanicismo e finalismo e a ver no físico, no vital e no psíquico três dialéticas, e não três potências de ser. O que se chama natureza já é consciência da natureza, a vida já é consciência da vida, e o psiquismo é ainda um objeto diante da consciência; cada ordem, não sendo nova substância, é retomada e nova estruturação da precedente. Resta esclarecer esse duplo rapport pelo qual o superior se liberta do inferior e se funda nele, e saber se o ponto de vista do “espectador estrangeiro” deve ceder a uma reflexão incondicionada, isto é, qual a relação entre a consciência como meio universal e a consciência enraizada nas dialéticas subordinadas.