Introdução

MATTÉI, Jean-François. Heidegger et Hölderlin. Le Quadriparti. Paris: PUF, 2001

Introdução. O enigma do ser

1. A reflexão heideggeriana sobre o impensado (Unbedachte) da metafísica parte da constatação de que nenhum pensamento conhece verdadeiramente sua própria origem, de modo que o edifício filosófico se ergue sobre um abismo que cresce à medida que a construção avança, indício terrestre daquilo que Heidegger reconheceu como o impensado da tradição metafísica, ao mesmo tempo em que se questiona se seria legítimo cobrar de Heidegger o desvelamento de seu próprio impensado.

2. A tarefa heideggeriana consiste em superar ou desconstruir a metafísica (Metaphysik) para reconduzi-la, sem descartar sua tradição, à questão fundamental (Fundamentalfrage) do sentido do ser, questão que atravessa de modo constante Sein und Zeit desde 1927.

3. A necessidade de uma “superação da metafísica” (Überwindung der Metaphysik) exige esclarecer em que sentido tal superação não é um avanço à maneira da Aufhebung hegeliana, mas um “passo atrás” (Schritt zurück) rumo a um novo começo, o que Heidegger identifica com a “viravolta” (Kehre) própria de seu pensamento, entendida menos como “superação” (Überwindung) do que como “apropriação” (Verwindung) da metafísica.

4. A elucidação do termo “viravolta” remete tanto à Carta sobre o humanismo de 1947, em que o título Sein und Zeit se inverte em Zeit und Sein na terceira seção não publicada, quanto à conferência de 1930 sobre a essência da verdade, cujo quiasmo transforma a “essência da verdade” em “verdade da essência”, distinção que fundamentou entre os intérpretes a divisão entre um Heidegger I, ainda preso à linguagem metafísica, e um Heidegger II, que alcançaria outro solo após a viravolta.

5. O percurso proposto acompanha o fio condutor da questão fundamental sem tomar partido na controvérsia sobre a viravolta ou sobre a oposição entre Heidegger I e Heidegger II, buscando antes seguir o que o Seminário de Zurique chama de “virada” rumo a uma “nova relação fundamental com o que é”, confidenciada como “o sentido não expresso de todo o meu pensamento”.

O enigma da Esfinge

6. A dificuldade de exprimir esse sentido não expresso remete, por comparação, à conferência de Bologna de Bergson, na qual se destaca o poder intuitivo de negação da intuição filosófica, capaz de recusar em bloco as teses mais evidentes, de modo que um filósofo varia no que afirma, mas raramente no que nega.

7. Tal observação bergsoniana aplica-se a Heidegger, cuja negação da metafísica se expressa nos termos de “destruição” e “desconstrução” da ontologia, tema constante desde Sein und Zeit até o Seminário de Zurique, no qual se afirma que a metafísica jamais pensa a diferença entre ser e ente como diferença, sendo por isso incapaz de alcançar a “Dimensão como Dimensão” em que se institui o “reino” do ser.

8. O poder intuitivo de negação heideggeriano parece corresponder a um poder intuitivo de afirmação ainda mais radical e arriscado, uma vez que a afirmação de uma “outra pensée” carece de qualquer ponto de apoio, já que a própria metafísica ocupa todo o sítio da história, o que levanta a questão de como seria possível pensar a “Dimensão” na qual o próprio pensador está imerso.

9. As críticas ao projeto heideggeriano apontam sua contradição interna, análoga à interdição de Wittgenstein segundo a qual traçar um limite ao pensamento exigiria pensar “dos dois lados” desse limite, ou seja, pensar metaficamente em termos de ente e, ao mesmo tempo, pensar não metaficamente em termos de ser, este último “sem fundamento” ou “sem razão” (Ab-grund).

10. O paradoxo enfrentado por Heidegger recebe o nome de “enigma”, distinguindo-se um enigma ontológico, segundo o qual “o próprio Ser é o enigma”, e um enigma ôntico, correspondente ao “enigma da história do Ser”, ao qual se opõe a posição de Wittgenstein no Tractatus, para quem “o enigma não existe”.

11. A recusa heideggeriana do platonismo e do misticismo do inefável em Wittgenstein permite reconhecer os dois gumes do enigma, exemplificados pela dupla questão da Esfinge, que engloba tanto o enigma ôntico proposto a Édipo quanto o enigma jamais interrogado do próprio ser monstruoso de onde emergem todas as perguntas humanas.

O sistema do ser

12. A confidência feita por Heidegger em Zurique sobre seu encontro com Hölderlin revela uma reserva deliberada diante da imediatez de certas coisas que poderiam ser ditas, por temor de que se tornassem moeda corrente e se desnaturassem.

13. Essa “medida de proteção” é reforçada pela declaração de Heidegger de que, ao longo de trinta a trinta e cinco anos de ensino, falou apenas uma ou duas vezes das coisas que lhe são próprias (von Meinen Sachen).

14. A datação precisa dessa declaração, proferida em 6 de novembro de 1951 no Seminário do Professor Spoerri, permite situar cronologicamente os cursos e conferências sobre Hölderlin e sobre o Quadripartido (Geviert), então ainda inéditos, cuja publicação só se completaria décadas depois.

15. O fio condutor deste trabalho reside justamente nessas “coisas próprias” de Heidegger, isto é, na intuição do mundo como Quadripartido (Geviert), presente desde os cursos sobre Hölderlin de 1934-1935 e a conferência de 1935 sobre a origem da obra de arte, intuição que orienta secretamente até mesmo os textos do primeiro Heidegger.

16. A aproximação entre o impensado (Im-pensé) heideggeriano e a intuição filosófica bergsoniana evidencia que ambos os pensadores reconhecem algo extraordinariamente simples e indizível que somente se mostra por meio de uma imagem intermediária, aquilo que Heidegger chama de “o Simples” (Das Einfache ou Die Einfalt).

17. A impossibilidade de dizer plenamente essa presença do Ser que precede e excede todo dizer aproxima-se da observação de Paul de Man sobre a meditação heideggeriana como meditação sobre o inefável, sendo possível apenas aproximar-se dela caminhando em sua direção, como “marchar em direção a uma estrela”.

18. Em contraste com o sistema hegeliano, no qual o pensamento livre e verdadeiro se identifica com o “sistema” enquanto ciência que se desenvolve como totalidade circular e fechada sobre si mesma, a noção heideggeriana de sistema segue outro caminho.

19. O curso de 1936 sobre Schelling interpreta o mundo (κόσμος) a partir do termo grego σύστημα, traduzido por “ajuntamento” (Gefüge), de modo que “o sistema é o ajuntamento do próprio ser”, identificando-se a mesmidade entre ser e ajuntamento (sustema) como tarefa fundamental do pensador, tarefa que Heidegger buscará dissecar por meio da meditação paciente dos poemas de Hölderlin a partir de 1934.

A revelação de Hölderlin

20. A eleição de Hölderlin entre todos os grandes poetas suscita a pergunta sobre suas razões, sendo levantada pelos intérpretes a hipótese de que essa escolha decorreria tanto da moda acadêmica em torno da edição de Norbert von Hellingrath quanto de uma suposta fuga heideggeriana de sua experiência política após a renúncia ao Reitorado de Friburgo em 1934.

21. A tese segundo a qual Heidegger buscaria em Hölderlin a justificação de sua ideologia é considerada circular, exemplificada pela crítica de Adorno, que vê em Hölderlin um “poeta menor” instrumentalizado por Heidegger para fins autoritários por meio de uma heroização política do poeta.

22. Em oposição a essa leitura política, sustenta-se que Heidegger buscou antes desvelar a verdade secretamente contida nos poemas, não redutível às interpretações cristã, republicana ou nacional-socialista, tal como expresso no quiasmo sobre o poema Em azul adorável…, segundo o qual o poema não é verdadeiro porque é de Hölderlin, mas Hölderlin o cantou porque é verdadeiro.

23. Essa notação em quiasmo revela que, para Heidegger, é o próprio Ser que dá a Hölderlin a poetizar, e não Hölderlin que dá a Heidegger a pensar, de modo que o vínculo entre pensador e poeta não é de dependência, mas de partilha de uma mesma intuição do ser, remontando essa intuição a 1907, com a leitura da obra de Brentano, anterior aos cursos de 1934-1935.

24. O percurso heideggeriano junto a Hölderlin compreende dezesseis momentos textuais principais, do primeiro curso de 1934-1935 sobre As Hinos de Hölderlin: A Germânia e O Reno até a última conferência de 1968 sobre O Poema, passando pelas conferências de Roma em 1936, os discursos de 1939-1943, a Carta sobre o humanismo de 1946, os Ensaios e Conferências de 1954 e a conferência capital de 1959 sobre Terra e Céu de Hölderlin.

25. Esse conjunto de textos organiza-se em cinco fases distintas, correspondentes aos períodos de 1934-1936, 1939-1943, 1954, 1959 e 1968, intercaladas por silêncios de onze, cinco e nove anos respectivamente.

26. O propósito deste estudo não é reconstituir a figura poética de Hölderlin traçada por Heidegger nem julgar a justeza filológica de suas hipóteses, tampouco responder às críticas de Adorno ou às reservas de Philippe Lacoue-Labarthe e Jean-Luc Nancy quanto ao recurso ao mito, mas mostrar como Heidegger fez emergir, a partir de Hölderlin, a figura quadripartida do ser como sistema da Terra e do Céu, dos Divinos e dos Mortais.

27. A tese de intérpretes como Beda Allemann, segundo a qual a estrutura poética que Hölderlin nomeou, em suas Observações sobre Antígona, “retorno natal” (vaterländische Umkehr), teria influenciado decisivamente a “viravolta” (Kehre) heideggeriana, situa o pensamento de Heidegger sob dependência da poesia de Hölderlin, apesar de reconhecer a reserva do próprio Allemann quanto a aprofundar a analogia entre o Quadripartido (Geviert) e o mundo espiritual de Hölderlin.

28. Contrariamente a essa tese de influência direta, sustenta-se que Heidegger não decidiu comentar Hölderlin por razões poéticas ou históricas, mas para reforçar uma intuição originária do ser já despertada em 1907 pela leitura de Brentano, sendo Aristóteles, e não Hölderlin, a verdadeira origem de seu caminho de pensamento.

29. O plano da obra parte do ente, e não do ser, para efetuar o passo atrás fora da metafísica, dedicando sua primeira parte à quadratura do ente que Heidegger descobre em Aristóteles antes de aplicá-la a todo o campo metafísico, dossiê preparatório indispensável ao encontro posterior com Hölderlin.

30. Somente após examinar a quadruplicidade do ente em Aristóteles é que se acompanhará, na segunda parte, o percurso heideggeriano junto aos cursos de 1934-1935 sobre A Germânia e O Reno, com ênfase na tonalidade fundamental (Grundstimmung) do primeiro poema, e, na terceira parte, a “linha arquitetônica unitária” de O Reno, em cinco articulações, de onde emerge a figura do enigma.

31. A última parte da obra precisará os traços dessa figura cruzada, fonte única da intuição heideggeriana, que comanda tanto a quadratura do ente metafísico quanto as quatro vozes da tonalidade fundamental da poesia e os quatro nós do enigma do ser, encerrando-se a trajetória na imagem de Heidegger seguindo Hölderlin como Dante seguiu Virgílio, até avançar sozinho na noite, sob o olhar cintilante de uma estrela.

Nota

32. Parte considerável deste texto originou-se de um seminário de doutorado na Faculdade de Filosofia da Universidade Laval, em Quebec, no primeiro trimestre do ano letivo de 1997-1998, tornado possível pela hospitalidade do decano Jean-Marc Narbonne e da professora Marie-André Ricard.

33. Os agradecimentos dirigem-se aos participantes do seminário, nomeadamente listados, por sua participação ativa e amizade, bem como ao decano Thomas De Koninck, responsável pelo convite como professor visitante daquela universidade.