MARTINEAU, Emmanuel. La provenance des espèces: cinq méditations sur la libération de la liberté. Paris: Presses universitaires de France, 1982.
A “esfera” e a tarefa de uma filosofia fenomenológica decidida
1. A questão propriamente filosófica do presente exige mostrar concretamente a possibilidade de uma decisão capaz de assumir o hoje como centro de uma destinação vindoura, e o signo poético dessa decisão pode ser encontrado em Hölderlin, para quem a liberdade singular somente se determina no interior da lei do todo, não como submissão ao destino, mas como exigência de decidir a maneira própria de nele estar.
2. Essa exigência hölderliniana pode parecer uma antecipação da injunção de uma decisão futura, mas sua determinação não se deixa reduzir a uma simples atribuição imperativa, pois a decisão (Austrag), tal como posteriormente formulada em Ser e tempo, torna-se resolução que se transmite ou se entrega a uma tradição, vinculando o decidir à historicidade da existência e àquilo que nela é transmitido.
3. A relação entre destinação, decisão e liberdade permanece problemática quando se pretende fazer de Hölderlin apenas um precursor poeticamente mediado por Heidegger, pois a libertação em relação aos ídolos que cada época constrói não consiste nem numa submissão a um imperativo categórico nem numa transformação da poesia em legislação da finitude, mas exige compreender a destinação como acontecimento apropriador (Ereignis), no qual o destino metafísico-historial do Ocidente se cumpre como decisão ou discriminação (Austrag), sem que tal decisão possa ser reduzida à consciência existencial de um destino previamente atribuído.
4. A verdadeira questão decisiva consiste, portanto, em determinar o que a própria vigência (Wesen) pode ensinar para além da mera atribuição ou destinação que atravessa a existência, uma vez que o problema já não é somente saber a que se está destinado, mas compreender o próprio modo segundo o qual o ser se desdobra.
5. A resposta deve partir do estatuto concreto da filosofia enquanto pensamento inteiramente exposto à dimensão e aos perigos do atual, sem se orientar por uma exegese de Heidegger, mas procurando esclarecer de que maneira a filosofia pode apreender aquilo que no presente solicita uma decisão.
6. A fenomenologia, considerada primeiramente como possibilidade, constitui a herdeira privilegiada da metafísica porque é capaz de reconduzi-la às experiências originárias da doação do ser do ente e, ao mesmo tempo, de destruí-la a partir dessas experiências, embora a própria fenomenologia tenha frequentemente se afastado delas enquanto continuava a conservá-las como princípio diretor e garantia de validade.
7. A fenomenologia, considerada agora de uma segunda maneira, deve ser interrogada quanto à sua própria decisão: importa saber se ela realmente se situa na oposição harmônica correspondente ao seu domínio, se constitui efetivamente uma esfera no sentido sugerido por Hölderlin e se, enquanto pensamento moderno, pode ser chamada de absolutamente moderna.
8. A resposta somente pode ser afirmativa se a fenomenologia for compreendida como um pensamento incumbido, por decisão, de interpretar o ser como desdobramento, pois justamente essa interpretação deixa ainda obscuro o caráter próprio do desdobramento e sua possível significação plena para todas as demais essências fundamentais (Grundwesen), tornando necessário pensar aquilo que pode ser chamado de especificidade do desdobramento.
9. A especificidade do desdobramento não significa que o desdobramento seja uma espécie eminente da presença tomada como gênero, mas que a própria presença de um desdobramento, o advento da essência (Wesen) como presença (Anwesen) e, mais radicalmente, como acontecimento apropriador (Ereignis), implica necessariamente uma pluralidade de espécies.
10. O plural das espécies não equivale simplesmente a uma multiplicidade, pois a questão intrinsecamente específica da natureza (physis), já presente em Aristóteles na pluralidade dos sentidos do ser, permanece marcada por uma extraordinária indeterminação: a doutrina aristotélica da analogia não chega a constituir uma teoria do desdobramento e, ao procurar ordenar a multiplicidade dos sentidos do ser, deixa esquecida a questão mais originária do uno e do múltiplo, expressa no enigma do «um-tudo» ou, mais precisamente, do «um e tudo».
11. Pensar «um-e-tudo», e não simplesmente «um-muitos», exige evitar tanto a redução do múltiplo a uma totalidade heraclítica quanto sua substituição contemporânea por repetições, multiplicidades, distribuições, pluralidades ou disseminações, sendo necessário, em vez disso, aprofundar a fenomenologia mediante a exploração sistemática de experiências originárias nas quais a essência (Wesen) não se desdobre apenas segundo uma variedade modal ou uma pluriperspectividade de adumbramentos (Abschattungen), mas segundo o sentido rigoroso de uma expansão ou desdobramento (Entfaltung) capaz de produzir uma profusão radiante.
12. Entre as experiências capazes de tornar pensável essa profusão encontra-se primeiramente o imaginário, não entendido como reprodução nem como produção arquissintética do múltiplo, mas como imitação do desdobramento elementar (Entfaltung) em sua dimensão pânica ou totalizante, ao lado de uma experiência que, inspirada em Malevitch, pode ser chamada de economicidade, pela qual uma fenomenologia econômica procuraria pensar, no destino ou envio (Geschick), não apenas uma destinação neutra (Schickung), mas também uma ordenação ou dispensação (Beschickung) pela qual o ser dispõe seu próprio domínio.
13. Uma fenomenologia econômica permitiria aproximar-se do ente autêntico sem retornar às antigas divisões positivistas ou neokantianas do trabalho, reconhecendo que as ciências, embora já não sejam filosofia, conservam o segredo de uma especificidade que não pode ser simplesmente anulada, enquanto a filosofia deve evitar instalar-se acima delas e limitar-se a celebrar abstratamente o mundo, seu ritmo ou sua harmonia.
14. O atual, mesmo profanando esse mistério, não deixa de celebrá-lo sem o saber, e a decisão talvez constitua a chave da libertação obscuramente procurada no presente, cuja aspiração última não seria outra coisa senão a alegria; por isso, torna-se significativo que Hölderlin, antes de pronunciar essa palavra, tenha procurado estudar a natureza e perscrutar o enigma da proveniência das espécies, isto é, o sagrado.