O que se entende como chamado concerne ao reviramento da intencionalidade, que caracteriza talvez essencialmente a própria intencionalidade
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Assim, Lévinas opôs exemplarmente à intencionalidade, que surge do Eu para visar e pôr um objeto, “… uma 'inversão' da intencionalidade…”, um “… contrário da intencionalidade…”, em suma “… uma consciência a contracorrente, revertendo a consciência”, tematizada sob o título de contra-intencionalidade
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Trata-se certamente, em seu trabalho, primeiro de “… a responsabilidade por Outrem — a contrapelo da intencionalidade…”
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Com efeito, o rosto de outrem beneficia-se de uma redoutável propriedade: se posso visá-lo intencionalmente e inscrevê-lo como qualquer outro objeto em um horizonte comum, do qual permaneço o centro (assim os retratos por Cézanne e Picasso fecham as faces de homens ao reconduzi-las à mineralidade ou à animalidade), devo também e sobretudo sofrer a contra-visada que ele me endereça silenciosamente, mas mais claramente que um grito
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Pois, a título de rosto, envisaga-me, impõe-me de envisagá-lo como aquele de quem tenho que responder
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Mas, se tenho que dele responder, tenho também que lhe responder, recebi então (e sofri) um chamado
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O rosto exerce um chamado, provoca-me então como doado
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Mas, chegados a este ponto, não se pode mais esquivar uma questão: o chamado que Lévinas reconhece a outrem não se esgota nele mais que o chamado que Heidegger atribui ao ser nele se confina?
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Aliás
Husserl não havia ele mesmo já descrito contra-intencionalidades, portanto esboços do chamado a propósito de fenômenos contudo nem éticos, nem ontológicos?
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Não conviria então desconectar enfim de uma vez por todas a figura do chamado (portanto do atributário e do adoado) de seus empregos sucessivos?