Heidegger aponta que a arte, especialmente a bela arte (techné), pode oferecer um caminho adiante, uma revelação mais originária que contrabalance o domínio da Ge-stell.
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A origem da obra de arte não está simplesmente no artista, mas em uma relação circular com a arte mesma, uma terceira coisa anterior a ambos.
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A obra de arte (ex.: os sapatos camponeses de Van Gogh) desvela a verdade do ente que representa, trazendo à luz seu ser e suas múltiplas referências ao mundo.
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O quadro “fala” e desvela o que o equipamento é em verdade, mostrando seu pertencimento à terra e ao mundo da camponesa (preocupações, alegrias, ameaças).
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Na obra de arte, ocorre um acontecimento da verdade: o ser do ente vem à estabilidade de seu brilho, um desvelamento onde o Ser mesmo se abre.
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A obra de arte arquitetônica (ex.: um templo grego) não representa uma coisa, mas instaura um mundo e apresenta a terra, reunindo um campo de significados destinal.
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O templo, em sua estabilidade, torna visíveis forças da natureza (a tempestade, a luz, o mar) e constitui um espaço para o sagrado, deixando o deus estar presente.
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A obra de arte estabelece uma tensão e uma necessidade mútua entre “mundo” (que ela instaura) e “terra” (que ela apresenta).
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Este “pôr” (Stellen) da arte é radicalmente diferente do “com-por” (Ge-stell) da tecnologia.
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A terra irrompe no mundo; a arte deixa as coisas serem o que realmente são, em contraste com o uso consumível da técnica.
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O conceito de “mundo” nos escritos maduros de Heidegger é muito mais rico que a concepção instrumental de
Ser e Tempo, aproximando-se de uma visão quase sacramental do universo.
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Se incorpora ou não precisamente o esquema do quádruplo é debatível; a dualidade “terra-mundo” pode ser mais flexível.
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Ambas as concepções fazem justiça à riqueza da experiência humana e ao ser do Dasein, que existe simultaneamente na verdade e na não-verdade.