Para a interpretação do pensamento bíblico sobre a morte, é o fenômeno existencial, e não o natural, que é relevante – a morte é entendida em sua significância para a existência humana, como problema para as possibilidades e projetos do homem, sobre os quais paira “a sombra da morte”.
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Nos Salmos há um “enfrentamento claro dos fatos da vida e da morte” (Oesterley, The Psalms, vol. II, p. 407) – por homens que, como Heidegger em nosso tempo, não tinham certeza de nenhuma vida por vir.
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“O homem é mandado de volta à destruição, ao pó de onde foi formado; mal floresce e já é ceifado; pode prolongar a vida por setenta ou oitenta anos, mas o melhor de seus dias é trabalho e tristeza, e o fim inevitável chega de repente” (Salmo 90, vv. 3, 6, 10).
A fuga bíblica da morte também aparece no próprio ensinamento de Jesus – o rico que planejava construir celeiros maiores para suas posses crescentes pretendia viver à vontade por muitos anos, mas a morte o surpreendeu (Lucas 12.19); absorto em suas preocupações com o mundo, ele ignorou sua possibilidade mais próxima e capital – a de sua própria morte.
O ensinamento bíblico sobre a morte não lhe concede o lugar exagerado que ocupa no pensamento de Heidegger, nem encoraja o tipo de preocupação com a morte que Heidegger preconiza; mas há acordo no chamado a encarar a morte de frente como questão que toca a existência individual, e na condenação da tendência humana de ocultar de si mesmo a possibilidade sempre presente de sua morte.
O tema da íntima conexão entre pecado e morte é central na teologia neotestamentária – no Antigo Testamento, a morte era concebida como punição pelo pecado; São Paulo também pensa assim, dizendo que os pecadores são “dignos de morte” e que a morte é “o salário do pecado” (Romanos 1.32; 6.23).
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Há, porém, outra linha de pensamento em São Paulo que representa a morte como consequência necessária do pecado – não uma punição legal acrescentada externamente, mas o fruto específico de uma vida segundo a carne.
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São Paulo afirma que “o que semeia para a carne, da carne colherá corrupção” e que “as concupiscências pecaminosas operavam em nossos membros para dar fruto para a morte” (Gálatas 6.8; Romanos 7.5).
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Bultmann considera que essas duas linhas de pensamento – morte como punição e morte como consequência inerente do pecado – ficam irreconciliadas no ensinamento paulino (Th. des NT, p. 244); mas pode-se argumentar que a segunda é apenas uma interpretação mais profunda da primeira, na qual a punição está contida no próprio pecado.
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Como Dante, em sua descrição do inferno, interpreta a punição específica de cada pecado como nada mais que a desintegração da personalidade que emerge do próprio pecado (Inferno, cantos V, XXIII).
São Paulo pode afirmar do pecado não apenas que o enganou, mas que já o matou (Romanos 7.11); a compreensão da morte como consequência presente do pecado se estende por quase todo o Novo Testamento.
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Na primeira epístola joanina lê-se que “aquele que não ama seu irmão permanece na morte” (I João 3.14).
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Na Epístola aos Efésios encontra-se possivelmente a formulação mais clara: “mortos em transgressões e pecados” (Efésios 2.1).
Existe uma relação genuína entre pecado e morte – a vida caída é a dispersão do eu na multiplicidade das preocupações mundanas, uma queda do homem de seu ser verdadeiro e, portanto, uma perda de seu ser; como
Bultmann afirma, o homem “vendido ao pecado” perdeu a si mesmo e não está mais em acordo consigo mesmo (bei sich selbst) (Th. des NT, p. 244).
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O pecado é caracterizado ontologicamente pela perda de ser; a morte, considerada como fenômeno existencial, também foi definida como perda de ser – portanto, não é mera metáfora dizer que na vida do pecado a morte já está presente como consequência – ou melhor, concomitante – do pecado.
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Com a morte física, a perda do ser do homem tal como o conhecemos neste mundo é completa; o corpo cessou de pertencer a um Dasein existente e tornou-se mera coisa – Heidegger a chama de “transição do modo de ser do homem (Existenz) para o modo de ser de uma coisa (Vorhandenheit)”.
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Essa transição notável do ser de um homem para o ser de uma coisa pode ser entendida como o cumprimento da vida do pecado – o homem que, em sua existência caída, se identificou com o mundo e projetou suas possibilidades nele, torna-se, com a morte, literalmente parte do mundo.
O cristão está sujeito à morte natural tanto quanto o homem que vive segundo a carne – mas a questão da isenção cristã da morte parece depender de uma confusão entre os conceitos natural e existencial de morte.
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Havia cristãos no tempo do Novo Testamento que acreditavam que não “provariam a morte” no sentido de estarem isentos da morte natural, e talvez o próprio São Paulo tenha sido um deles (Marcos 9.1; I Tessalonicenses 4.15).
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A primeira resposta é que o cristão nunca está livre de sua parcela de culpa enquanto existe no cosmos (kósmos), que entra na facticidade da existência para restringir as possibilidades do homem.
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A segunda resposta é que, embora o cristão não esteja isento da morte, tem a assurance de sua conquista, pois pela fé em Cristo recuperou o ser que perdera sob o pecado; assim como a morte já está presente na vida do pecado, a vida eterna já está presente na experiência da fé.
São Paulo fala paradoxalmente da vida cristã como morte em um de seus aspectos – o cristão está morto para o pecado (Romanos 6.2); o paradoxo surge do fato de que o que o cristão perdeu era em si mesmo uma perda, e aquilo para o qual morreu era em si mesmo morte.
17. A Busca pelo Sentido
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Com a análise da morte chega-se ao fim do exame da existência inautêntica, a vida do homem natural – uma forma de ser voltada para o mundo, que se equivoca e engana a si mesma, desumanizada e caída; em suma, uma vida de cuidado terminada pela morte.
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Tanto o Cristianismo quanto o existencialismo concordam que tal vida é sem sentido e sem valor – é existência inautêntica e, pior ainda, é pecado e inimizade contra Deus; qualquer valor que reivindique baseia-se na ilusão de que o homem é senhor de seu próprio destino.
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O humor da angústia irrompe para revelar ao homem que ele não está em casa no mundo e não é senhor de sua existência – mas o homem foge dessa revelação para as ilusões adicionais da autoenganação coletiva; todas as ilusões são finalmente destruídas pela morte.
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O Cristianismo e o existencialismo concordam ainda que, em tal existência, o homem perdeu a si mesmo e de algum modo falhou em seu ser verdadeiro – deve haver uma alternativa para essa existência caída, e isso implica que o homem necessita de conversão.
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Para Heidegger, é a própria morte que fornece a chave para a existência autêntica – em vez de fugir da morte, o homem deve encará-la e aceitá-la como sua possibilidade preeminente, vivendo na antecipação (Vorlaufen) de sua própria morte.
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Antecipar a morte não significa suicidar-se nem remoer a morte, mas torná-la o fator unificador da existência, relacionando todas as possibilidades a essa possibilidade capital – em outras palavras, ver e aceitar o nada da existência.
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Tal aceitação livraria o homem da preocupação com o mundo e da tirania do público, mas apenas desvalorizaria a existência mundana ao mesmo tempo em que desvaloriza toda existência – entregando não a libertação da ilusão, mas um desespero de olhos abertos.
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Brunner tem razão ao dizer que Heidegger e
Sartre nos apresentam “uma filosofia do desespero, oculta numa série de evasões mais ou menos sutis do problema do sentido” (Christianity & Civilization, Nisbet, I, p. 73).
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Com uma desvalorização tão radical dos valores, é difícil entender por que o termo “autêntico” deveria ser reservado para a alternativa de Heidegger e não dado à existência cotidiana do homem natural caído – pois a noção de autenticidade parece implicar algum tipo de juízo de valor.
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Se toda existência resulta em nada ao fim, não há nada a escolher entre um modo de ser e outro; quem não tem gosto pelo desespero heroico preferirá comer, beber e ser feliz, tornando a vida suportável pela ilusão cuidadosamente cultivada de que está em casa no mundo.
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A alternativa cristã à existência inautêntica é inteiramente diferente da de Heidegger – a divergência se manifestou na discussão do conceito de angústia: para Heidegger, a angústia revela o homem lançado num mundo em que não está em casa; na interpretação cristã, a angústia também coloca o homem em busca do fundamento de seu ser, dirigindo-o a Deus.
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O cristão crê que Deus vai ao encontro do homem em sua busca, que se revelou em Jesus Cristo, e que por Cristo se abre ao homem a possibilidade de uma existência em que não só é liberto das ilusões de uma existência mundana, mas a própria morte “é absorvida pela vitória” (I Coríntios 15.54).
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A alternativa cristã é caracterizada pela esperança, enquanto o existencialismo ateísta permanece no desespero.
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A questão de saber se a filosofia da existência ainda tem algo a oferecer à teologia – após a análise da existência inautêntica – não se resolve tão simplesmente: ainda se aborda o Novo Testamento com a questão da existência humana em mente.
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A análise precedente examinou não apenas o modo inautêntico de ser, mas também a estrutura ontológica fundamental do homem, que antecede autenticidade ou inautenticidade e torna possível ao homem ser uma ou outra.
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A essa ontologia básica pertencem, por exemplo, os conceitos de existência, compreensão, desvelamento, estado afetivo, etc.; no vocabulário neotestamentário, soma, nous e kardia são tais conceitos ontológicos; na estrutura ontológica formal, o homem é o mesmo seja cristão ou pagão, autêntico ou inautêntico.
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Embora o conteúdo do conceito heideggeriano de existência autêntica seja radicalmente diferente do entendimento cristão da vida cristã, podem existir certas afinidades estruturais formais – consciência, decisão, a unidade do eu são temas sobre os quais tanto o filósofo existencialista quanto o teólogo cristão têm algo a dizer.
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Não se foi inteiramente justo com Heidegger ao resumir brevemente seu conceito de existência autêntica, pois nada se disse sobre sua análise muito importante da temporalidade e historicidade do homem – tema de importância vital para o teólogo, especialmente para
Bultmann.
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A religião cristã repousa sobre eventos históricos – os “atos poderosos” pelos quais, crê o cristão, Deus mudou a situação do homem e tornou possível para ele a vida nova; para a compreensão teológica desses eventos, é necessária uma compreensão da existência humana em seu caráter temporal e histórico.
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Embora após a rejeição comum de uma vida fundada no mundo o Cristianismo e o existencialismo tomem caminhos diferentes em sua busca pelo sentido, há ainda uma ampla área de interação entre os dois – e em particular há pontos em que a teologia cristã pode precisar esclarecer alguns de seus pressupostos pela análise existencial.