Delimitação do problema da relação entre Heidegger e Rosenzweig no horizonte da filosofia contemporânea
A questão central estabelece-se a partir do fato de que El ser y el tiempo representa o esforço mais radical de fundamentação ontológica da existência finita, ao passo que La estrella de la redención se configura como uma recusa explícita da totalização filosófica, orientando-se pela revelação, pela criação e pela redenção como dimensões irredutíveis à ontologia.
A relação entre ambos não se apresenta como influência direta, mas como convergência problemática, na qual a mesma crise da metafísica conduz a respostas estruturalmente divergentes quanto ao sentido último do ser e do tempo.
O agregado de Rosenzweig deve ser compreendido como intervenção crítica indireta, situada no mesmo campo histórico-existencial, mas orientada por pressupostos incompatíveis.
O contexto intelectual da crise do idealismo e da metafísica sistemática
O pano de fundo comum é a dissolução do idealismo alemão, especialmente em sua forma neokantiana, que ainda buscava assegurar a totalidade do real por meio da razão sistemática.
A Primeira Guerra Mundial atua como ruptura histórica decisiva, expondo a insuficiência das construções abstratas diante da facticidade da existência humana concreta.
Tanto Heidegger quanto Rosenzweig partem do colapso da confiança na mediação racional universal, mas divergem quanto ao que deve ocupar o lugar deixado vago pela metafísica.
A crítica rosenzweiguiana ao idealismo e à totalidade filosófica
Rosenzweig rejeita o idealismo por seu caráter totalizante, que subordina a singularidade do existente humano a um sistema conceitual fechado.
A filosofia idealista é interpretada como incapaz de acolher o acontecimento real da vida, da morte e da revelação, pois reduz tudo à necessidade lógica.
Contra isso, afirma-se a prioridade do acontecimento sobre o conceito, do fato sobre a dedução, e da existência vivida sobre a totalidade sistemática.
A crítica heideggeriana à metafísica da presença
Heidegger rejeita a metafísica tradicional por compreender o ser a partir da presença constante, da substância e da permanência.
Essa crítica conduz à destruição da ontologia clássica e à necessidade de repensar o ser a partir da temporalidade.
O ser não é mais compreendido como ente supremo ou fundamento eterno, mas como aquilo que se dá na abertura temporal do Dasein.
A convergência inicial na facticidade da existência
Ambos partem da facticidade como ponto de ruptura com a abstração filosófica.
A existência humana não é derivada de princípios universais, mas constitui-se como situação concreta, histórica e finita.
Essa convergência, porém, permanece apenas inicial, pois o estatuto último dessa facticidade será interpretado de modo radicalmente distinto.
O conceito de tempo em Heidegger
O tempo é a estrutura ontológica fundamental do ser do Dasein.
A temporalidade não é um atributo entre outros, mas o horizonte no qual o ser pode ser compreendido.
O ser é pensado exclusivamente a partir da finitude temporal, sem referência a qualquer eternidade transcendente.