A relação do desejo com o Desejado configura generosidade e bondade como positividade que não suprime a distância, mas se alimenta do afastamento e da separação, sendo o afastamento radical quando o desejo não antecipa o desejável nem o pensa previamente e se dirige ao acaso para uma alteridade absoluta como encontro com a morte, de tal modo que o desejo é absoluto quando o ser desejante é mortal e o Desejado é invisível, e a invisibilidade implica relações com o não dado e sem ideia, enquanto a visão é adequação que compreende englobando, e a inadequação do desejo indica a desmedida do Desejo fora do regime do conhecimento, de modo que o Desejo sem satisfação entende afastamento, alteridade e exterioridade, reconhece a alteridade como alteridade de Outrem e do Altíssimo, abre a dimensão da altura pelo desejo metafísico, eleva a altura ao identificá-la com o Invisível, define a metafísica como morrer pelo invisível sem dispensar actos, mas com actos que não são consumo, carícia nem liturgia, como formula
Platão em República 529 b.
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Generosidade e bondade como relação que preserva distância e separação.
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Afastamento radical como ausência de antecipação e de pré-compreensão do desejável.
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Morte como figura do encontro com alteridade absoluta não antecipável.
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Desejo absoluto como correlação entre mortalidade do desejante e invisibilidade do Desejado.
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Invisibilidade como relação com o não dado e sem ideia, não como ausência de relação.
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Visão como adequação e compreensão englobante.
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Inadequação como desmedida do Desejo fora do conhecimento mensurador.
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Desejo sem satisfação como reconhecimento da exterioridade do Outro.
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Outrem e Altíssimo como sentidos da alteridade para o Desejo.
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Altura aberta pelo desejo metafísico e nobilitada como Invisível.
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Platão, República, 529 b como referência ao olhar da alma para o alto e ao invisível.
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Actos requeridos como não redutíveis a consumo, carícia ou liturgia.
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A aspiração ao invisível aparece como loucura diante de uma experiência pungente do século XX em que necessidades conduzem pensamentos e explicam sociedade e história e em que fome e medo vencem resistência e liberdade, sem que isso autorize duvidar da miséria humana nem do domínio das coisas, dos maus e da animalidade, pois ser homem consiste em saber que é assim, e a liberdade consiste em saber que a liberdade está em perigo, sendo essa consciência um ter tempo para evitar a inumanidade como adiamento perpétuo da hora da traição, diferença ínfima entre homem e não-homem que supõe o desinteresse da bondade, o desejo do absolutamente Outro, a nobreza e a dimensão da metafísica.
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Século XX como cenário em que necessidades orientam pensamento e explicam sociedade e história.
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Fome e medo como forças capazes de vencer resistência humana e liberdade.
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Miséria humana e animalidade como dados reconhecidos.
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Ser homem como saber da própria vulnerabilidade ao domínio das coisas e dos maus.
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Liberdade como saber do perigo que ameaça a liberdade.
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Consciência como tempo para evitar e prevenir a inumanidade.
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Adiamento da traição como diferença mínima entre homem e não-homem.
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Desinteresse da bondade e desejo do absolutamente Outro como condição dessa diferença.
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Nobreza e metafísica como dimensão implicada nesse adiamento.