Como
cisão entre o ser e o ente, a diferença ontológica é, portanto, a diferença ôntico-ontológica, análoga, por exemplo, à diferença platônica entre as coisas belas e o Belo, à leibniziana entre o extenso e a extensão, ou à husserliana entre o aparecente e o aparecer desse aparecente em sua aparição.
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Ela separa o plano do ente daquele do ser, embora seja mais preciso falar, quanto ao ser, da planaridade daquilo que se situa no plano do ente.
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Na medida em que considera o ente em seu ser, o advento da filosofia confunde-se com o reconhecimento e o aprofundamento da diferença ontológica, proeza que consiste na dissociação do indissociável ser-ente, expresso em grego pelo particípio presente substantivado do verbo ser, to on, na conjunção do verbal e do nominal.
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O ente só é ele mesmo, enquanto ente, graças a uma luz vinda de outro lugar, mas que brilha nele por sua ausência – a do ser.
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A língua francesa chama
être tanto o ser quanto o ente, ambiguidade que pode ser vista como maravilhosa em vez de defeito.
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O termo étant desapareceu, como substantivo, do francês moderno, mas encontra-se ainda no final do século XVI em Montaigne e no início do século XVII em Scipion Dupleix.
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O inglês diz a human being, literalmente um ente humano, onde o francês diz um ser humano, exigindo-se reaprender a ouvir esse particípio presente substantivado – o ente – tal como se diz o estudante, o vivente ou o passante.
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Os tradutores franceses de Heidegger recorreram a esse neologismo, que é na verdade um arcaísmo, para fazer jus à diferença ontológica entre das Sein e das Seiende, que permaneceria de outro modo inaudível.
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Detenção no termo alemão
Differenz, retido por Heidegger meses após a publicação de
Ser e Tempo, revela nuance importante em relação ao francês
différence.
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Differenz tem comumente em alemão o sentido de divergência, marcando mais fortemente um desvio, uma disparidade, não apenas o fato de serem diferentes, mas de se portarem para lados opostos.
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Esse sentido remonta ao latim differri, que significa ser dilacerado, atormentado, e à formação ciceroniana differentia sobre o modelo grego diaphora.
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O termo
Differenz é, portanto, tudo menos indiferente, tanto mais que, como escreveu Jean Beaufret, a
diferença é um conceito grego que nunca foi enunciado como tal – exceto em
Heráclito, onde ainda se chama
harmonia.
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A partícula di- indica uma abertura de um entre-dois, um desvio que porta afastando uma da outra duas naturezas inicialmente indistintas, sem que esse desvio seja uma dislocação, pois antes reporta um ao outro os dois lados que separa.
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Se a filosofia é portadora, desde sua origem, da diferença ontológica, ou por ela portada, está longe de tê-la tomado em vista ou expressamente tematizado como tal: falta-lhe precisamente o pensamento de Heidegger.
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A diferença ontológica é, portanto, a distinção entre o ser e o ente, não apenas pressuposta implicitamente como elemento no qual se move o pensamento filosófico, mas expressamente visada e tematizada como tal.
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Embora Ser e Tempo evoque, em seus parágrafos 12 e 63, uma distinção ontológica entre ser-como existencial e a interioridade categorial de um ente, e entre existência e realidade, essas distinções, por essenciais que sejam, não visam a diferença entre ser e ente e não portam o nome de Differenz.
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Nota de Heidegger na edição de 1929 de Vom Wesen des Grundes, chamada pela expressão ontologische Differenz, remete ao curso de 1927, e o prefácio à terceira edição (1949) afirma que é nesse texto que a diferença ontológica se encontra nomeada.
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Sustentar que Heidegger utiliza a fórmula desde
Ser e Tempo, como faz J.-L.
Marion, ignora a literalidade dos textos e confunde
Unterschied,
Unterscheidung e
Differenz, sendo correta a tradução de F.
Vezin por
distinção ontológica onde a diferença ontológica ainda não está nomeada.
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A
diferença ontológica não é um estandarte nem uma
marca registrada, mas o índice de um problema encontrado, caminhando, por um pensamento vivo.
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Perfuração decisiva em direção à questão do ser, pode também aparecer como obstáculo no caminho que visa acessar essa questão – pelo menos à questão do ser entendida como questão da verdade do ser – na medida em que o ser pensado a partir da diferença ontológica não cessa de ser referido ao ente.
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Os Contributos à Filosofia destacarão que, ao contato dessa distinção ontológica aparentemente tão indigente e inofensiva, é a riqueza nativa do ser-homem que não pode deixar de tornar-se visível, não menos que o perigo dos perigos aos quais ele está exposto.
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Como seu nome indica, a
diferença ontológica permanece presa na perspectiva da ontologia e, em certa medida, da metafísica, na medida em que pensa o ser a partir do ente e não a partir de si mesmo.
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Por isso, ela demanda ser retomada de modo totalmente outro na perspectiva da história do ser e mesmo abandonada, como sugerem anotações de textos tardios: não mais diferença ontológica, lê-se, por exemplo, a propósito do Quadrípio em Construir, Habitar, Pensar ou em manuscrito de 1973-1975.
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A diferença ontológica nem sempre esteve presente, sob essa designação, no pensamento de Heidegger, e mesmo uma vez nomeada pouco depois de
Ser e Tempo, permanece etapa transitória.
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Essa
Zwiefalt, que parece ser o nome dado à
diferença ontológica na perspectiva da história do ser, forma uma unidade dual que poderia ser aproximada da estrutura gramatical do dual destacada por G. de
Humboldt.
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Sem lhe ser etimologicamente aparentado, a palavra
Zwiefalt pode evocar em alemão
Falter, termo um tanto arcaico para borboleta.
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Essa maravilha que constitui a diferença ontológica foi ilustrada por Jean Beaufret, entomólogo de lepidópteros, em O Sentido da Filosofia Grega, comparando-a a uma borboleta cujas asas, quando pousada, estão reunidas como uma só, e que, ao levantar voo, se desdobram em duas, mostrando como, na unidade aparente do ente, produz-se o desdobramento – Zwiefalt – ser-ente, cada um remetendo ao outro sem jamais se confundir com ele.