Capítulo “Ciência” resumido em alguns de seus tópicos essenciais do livro “Os desafios da racionalidade”. Trabalho desenvolvido por solicitação da UNESCO em 1977 e publicado pela Ed. Vozes
Dinâmica interna da ciência como processo evolutivo não cumulativo e relançável
A caracterização operatória permite explicar o caráter evolutivo do saber científico
Reconhece-se que a ciência interage com a vida social, mas a análise se limita aos fatores internos
A evolução não é cumulativa porque comporta reorganizações quando hipóteses de base são modificadas
O processo é organizado para ser incessantemente relançado
Esquema elementar do crescimento
Formula-se um problema a partir de informações disponíveis e concepções admissíveis
Formulam-se uma ou várias hipóteses e seleciona-se por comprovação
A aceitação ou rejeição acrescenta elemento novo e pode levar a reinterpretar a situação inicial
Um novo problema se coloca e o ciclo recomeça
Em cada etapa, a teoria desempenha papel prioritário
Ela sugere o problema, fornece o quadro para planejar experiências e retorna como instância de interpretação dos resultados
Problema central da dinâmica interna: transformação das teorias e princípios metateóricos de otimização
Transformar uma teoria consiste em modificar as hipóteses que a fundam
A rejeição experimental força modificações mais ou menos profundas
A introdução de novas hipóteses é guiada por princípios metateóricos que governam elaboração e transformação
Esses princípios funcionam como critério de otimização
Um conjunto teórico de uma disciplina é assimilado a sistema abstrato submetido a coerções internas e acoplado a meio ambiente experimental
Coerções internas incluem não contradição, simplicidade máxima e invariância a certas transformações
A acoplagem exige condições de adequação: compatibilidade com resultados, capacidade explicativa e função de guia exploratório
Quando a adequação falha, o sistema deve ser remanejado respeitando coerções internas do modo mais econômico possível
A economia é medida por meios conceituais e algorítmicos
Para além da otimização: aumento de generalidade, retroações e auto-organização
A otimização explica equilíbrios provisórios, mas a ciência tende a elaborar sistemas de generalidade crescente que controlam domínios experimentais mais amplos
Um sistema científico existe como funcionamento, não como estrutura inerte
Desenvolvimentos teóricos sugerem novas experiências
Resultados experimentais e dificuldades internas levantam novos problemas teóricos
Retroações entre teoria e experiência e no interior da teoria conduzem a extensões e unificações
O devir da ciência é aproximado do esquema geral da auto-organização
Por meio de desequilíbrios, formam-se sistemas mais complexos e mais organizados
Integração crescente entre disciplinas e hipótese de sistema global da ciência
A evolução tende a produzir sistemas mais complexos e mais integrados, com interdependência crescente de constituintes
Diferentes sistemas científicos influenciam-se mutuamente
Há retroações entre ciências formais e empíricas
Ciências empíricas entram em contato por empréstimos de esquemas e por problemas dependentes de teorias gerais aplicáveis em múltiplos campos
Não se afirma unificação no sentido de corpo teórico único nem unificação sintática como no neopositivismo inicial
Afirma-se, porém, integração crescente dentro dos sistemas e do domínio formado por seu conjunto
Propõe-se hipótese de auto-organização em nível superior
A ciência considerada em conjunto tenderia a constituir-se em vasto sistema composto de subsistemas em interação, evoluindo para formas mais complexas, integradas e relativamente autônomas
Autonomia relativa, autocontrole reflexivo e imprevisibilidade do devir científico
A autonomia do domínio científico é definida como autonomia de funcionamento e não como isolamento
O funcionamento depende de integração com outros sistemas, incluindo indivíduos e sistemas socioculturais
O crescimento de autonomia significa possuir recursos para assegurar funcionamento, interações e crescimento
O desenvolvimento torna-se menos dependente de circunstâncias exteriores e mais ligado a fatores internos controláveis e avaliáveis, embora não totalmente isentos de aleatório
O desenvolvimento da ciência é descrito como cada vez mais consciente, refletido e concertado, segundo esquema progressivamente racional
A importância crescente de considerações epistemológicas aparece como regulações internas exigidas pela lógica das démarches, e não como intervenções externas de inspiração filosófica
Distingue-se controle reflexivo de previsibilidade
A complexidade das interações impede estabelecer previsões
Auto-finalização não equivale a determinismo, e o autocontrole não se confunde com aplicação de esquema previsional