Ser e Tempo (1985:I)

HERRMANN, Friedrich-Wilhelm von. Subjekt und Dasein: Interpretationen zu “Sein und Zeit”. Frankfurt am Main: V. Klostermann, 1985.

Diretrizes para a interpretação de Ser e tempo

I. A interpretação de Ser e tempo exige reconhecer que a renovação heideggeriana da filosofia ocidental nasce da apropriação transformadora da visão fenomenológica de Husserl, desvinculada, porém, da redução transcendental e reorientada pela questão ontológica para a explicitação do ser-aí (Dasein) como constituição de ser na qual a existência humana, em sua abertura própria (Erschlossenheit), mantém aberta a manifestação do ser em geral (Sein-überhaupt), ultrapassando assim toda determinação do homem como sujeito, consciência de si ou consciência de objetos.

II. A fórmula Ser e tempo exprime a radicalização não metafísica da questão do ser, mediante a qual o ser deve ser compreendido a partir do tempo originário, em sua diferença ontológica perante o caráter de ente (Seiendsein), ao mesmo tempo que a constituição do homem deve ser repensada a partir de sua relação existencial com a abertura temporal do ser, e não mais a partir das determinações metafísicas do sujeito, do eu ou da consciência de si.

III. A conexão essencial entre a abertura do ser em geral (Erschlossenheit von Sein-überhaupt) e a existência humana significa que a compreensão de ser pertence constitutivamente ao próprio ser e ocorre pré-ontologicamente no existir lançado e projetante do ser-aí (Dasein), razão pela qual a analítica existencial não se reduz a uma filosofia da existência nem a uma ontologia regional do homem, mas constitui o caminho necessário para a questão ontológica universal.

IV. A interpretação do ser-aí em direção à temporalidade explicita todas as estruturas existenciais como modos pelos quais a abertura própria do si-mesmo mantém aberta a abertura do ser em geral, culminando na unidade estrutural do cuidado (Sorge) e demonstrando que tanto a impropriedade quanto a propriedade e suas respectivas temporalizações pertencem a uma problemática ontológica universal, irredutível a fenômenos subjetivos da existência.

V. O tempo originário, cuja explicitação estava reservada ao terceiro segmento não publicado de Ser e tempo, constitui o sentido do ser e o horizonte transcendental mantido aberto na temporalização extática da existência, não como forma subjetiva da experiência à maneira kantiana, mas como abertura temporal universal do ser em geral, na qual o ser-aí já ultrapassou o ente em direção ao ser e a partir da qual podem ser fundamentadas todas as determinações ontológicas tradicionais.