Método fenomenológico

Phénoménologie matérielle, Paris, PUF, coll. « Épiméthée », 1990

  1. A relação entre método e fenomenologia é tão estreita que a segunda parece definir-se pela primeira, sendo esta a questão que se busca elucidar sistematicamente a partir da expressão “método fenomenológico”, cuja instância diretriz só poderá ser determinada ao final da investigação.
  2. O fio condutor da investigação são as cinco Lições proferidas por Husserl em 1907 em Göttingen, momento em que a fenomenologia se volta pela primeira vez sobre si mesma para compreender-se segundo seu objeto e seus meios, autodefinindo-se explicitamente como método, conforme atesta o título A Ideia da Fenomenologia.
  3. Nesse ato autofundador tomam-se decisões e operam pressuposições visíveis desde o início, das quais a fenomenologia jamais escapará.
    • A mais decisiva é o modo como ela se apreende a si mesma como método, ponto cego cuja obscuridade acaba por gerar a confusão ruinosa entre a fenomenologia e sua metodologia.
    • A primeira tentativa de 1907 expõe esse malogro, repetido indefinidamente, cujas consequências pesam ainda sobre a fenomenologia e a filosofia contemporâneas.
  4. A pretensão da fenomenologia de constituir um começo radical ou um recomeço cartesiano vê-se comprometida pela relação instituída com a teoria do conhecimento, uma vez que o projeto de fundar o conhecimento se move em círculo, pois cada passo da fundação é já um conhecimento duvidoso.
  5. Husserl escapa desse círculo recorrendo ao argumento cartesiano da dúvida, isolando uma esfera de conhecimentos absolutos e indubitáveis, as cogitationes, entre elas cada percepção, representação ou juízo, tornadas certas ao se voltar o olhar sobre o próprio ato.
  6. Essa declaração constitui o leitmotiv do texto husserliano, reiterada em múltiplas formulações, entre elas a de que todo vivido intelectual, no instante em que se realiza, pode tornar-se objeto de uma visão pura e nela ser dado absoluto, um “isto” cuja existência é um contrassenso duvidar.
  7. Nos dois textos citados observa-se um deslocamento da cogitatio real para um olhar puro voltado sobre ela, sendo sob esse olhar, nessa visão pura, que a cogitatio se converte em dado absoluto.
  8. O dado, e portanto o dado absoluto, comporta dois sentidos — o que é dado e o caráter de ser dado, a doação propriamente dita —, de modo que o deslocamento da cogitatio real ao olhar puro desdobra o espaço em que se exerce a duplicação da Gegebenheit segundo o dado e a doação.
  9. Esse deslocamento revela um conjunto de erros, apórias e absurdos.
    • A cogitatio real só é dado absoluto na medida em que é submetida a um olhar exterior a ela, não sendo, portanto, dado absoluto por si mesma nem em si mesma, mas apenas podendo tornar-se tal sob uma visão pura que a duplica.
  10. Formula-se essa aporia em duas perguntas — o que é a cogitatio antes de vir à visão pura, e o que é essa própria visão pura senão outra cogitatio —, revelando um conceito da cogitatio ainda vago, incapaz de perceber diferenças cruciais que a fenomenologia futura não chegará sequer a questionar.
  11. O mistério se aprofunda ao notar-se que a vinda da cogitatio à condição de dado absoluto exige também que a primeira cogitatio já se tenha efetivamente realizado, condição citada de passagem, como algo evidente, mas jamais questionada por Husserl.
  12. Se a cogitatio já se realizou ou se realiza enquanto o olhar a apreende, ela é ontologicamente anterior a esse olhar e independente dele, que apenas lhe atribui o “já-aí” sem poder fundar sua existência.
    • A ausência dessa questão faz o círculo tornar-se ontológico, e não apenas metódico, pois não se pode fundar a existência da cogitatio a partir de sua doação numa visão pura que já a pressupõe existente.
  13. Depois do absurdo e da aporia surgem os erros enredados sobre os quais a fenomenologia histórica tenta se edificar, o primeiro de ordem histórica, concernente à interpretação aberrante e difundida segundo a qual o cogito cartesiano seria uma evidência primeira, quando na verdade a dúvida radical desqualifica precisamente essa visão pura da qual fala Husserl.
  14. Se a cogitatio dependesse, em sua realidade, de um olhar intermitente a ela dirigido, ela deveria ser intermitente como as evidências mesmas, contrariando a afirmação cartesiana de que a alma pensa sempre, indício da autonomia de uma essência irredutível à história e às vicissitudes de um ver duvidoso.
  15. A crítica fundamental estabelece que o deslocamento da cogitatio para sob o olhar do pensamento, longe de torná-la dado absoluto, faz com que ela se desvaneça, numa impossibilidade de princípio e não numa simples alteração psicológica.
    • Ninguém jamais viu sua própria dor, emoção ou angústia, a não ser confundindo-as com seu mero indício; a vida nunca é vista nem pode sê-lo.
  16. Ao falar da doação absoluta da cogitatio numa visão pura, Husserl comete a confusão entre o ver e seu visto, de um lado, e a cogitatio, que não tem nada a ver com eles e já se realizou antes de qualquer regard se voltar sobre ela.
  17. O primeiro erro teórico das Lições de 1907 é, pois, esse deslocamento da cogitatio para a visão pura destinada a convertê-la em dado absoluto, como se ela não o fosse já por si mesma em seu próprio sofrer-se originário, sendo esse pathos justamente o dado absoluto que Husserl busca em outro lugar e nunca encontrará.
    • Cabe perguntar o que precisa, para tornar-se fenômeno, de um tratamento fenomenológico, senão algo que de início e na maior parte das vezes não se mostra, questão que remete ao parágrafo 7 de Sein und Zeit.
  18. Não se nega que a fenomenologia se realize como trabalho de elaboração científica segundo uma temporalidade própria; contesta-se apenas a confusão pela qual esse processo do pensamento se toma pelo processo da própria realidade, e o fenômeno reduzido se toma pela essência originária da fenomenalidade, isto é, da Vida.
  19. O fenômeno “puro” ou “reduzido” resulta do movimento pelo qual a cogitatio é colocada sob o olhar do pensamento, exigindo que este se limite ao que é efetivamente visto, de modo que a redução se pressupõe constantemente a si mesma e nunca retorna aquém do próprio ver.
  20. A método fenomenológica, apoiada na redução, não é senão esse dar-a-ver dentro do próprio ver, sendo a possibilidade do conhecimento idêntica a esse ver que se autolegitima em si mesmo, conforme a proposição de que o ver não se deixa demonstrar nem deduzir.
  21. O estabelecimento dessa possibilidade constitui o problema fundamental da fenomenologia de 1907: é o próprio ver que deve legitimar e legitima efetivamente o ver, trazendo o ver para dentro do ver, isto é, conduzindo numa visão essa própria visão.
  22. Essa autofundação do ver percorre toda a doutrina, consistindo sempre no redobramento deste sobre si mesmo, marca do fechamento definitivo da fenomenalidade ao ver enquanto tal.
    • Nas Lições de 1907 essa autofundação ainda não se exerce imediatamente, dependendo antes da redução das cogitationes ao ver; Husserl interroga-se sobre a possibilidade dessa reflexão, que encontra seu objeto já pré-dado pela retenção, ela mesma um “visto” de um ver primitivo.
  23. A cogitatio só se torna dado absoluto de um fenômeno puro ao preço do tempo, do primeiro hiato ek-stático que separa o visto do ver; mas isso implica que a vida, tornando-se dado absoluto apenas ao passado, converte a presença absoluta em ausência, exigindo perguntar o que é a cogitatio antes dessa vinda ao ser ou ao nada.
  24. Quando a redução se apoia na deiscência ek-stática da temporalidade, o processo de elucidação fenomenológica se modela sobre o processo temporal da percepção, evidência por evidência, cada uma se desvanecendo no fluxo; assim a cogitatio, na visão pura, não é existência absoluta, mas bascula no abismo do desaparecimento.
  25. O devir-desaparição da cogitatio na visão pura acarreta a perversão dos conceitos fundamentais da fenomenologia, o primeiro deles sendo o de imanência, segundo o qual a cogitatio se fenomenaliza em si mesma sem sair de si, dando-se a si mesma sua própria realidade sem nenhuma duplicação.
  26. O “si-mesmo” do Selbstgegebenheit não significa, como no caso de uma coisa como o muro, uma simples designação exterior de identidade extrínseca, pois no caso do muro o “soi” reside apenas na exterioridade fenomenal, na Ek-stase do Ser.
    • O muro se mostra “em si mesmo” apenas pela extensão de sua doação constituída pela exterioridade do mundo.
  27. Tratando-se da cogitatio, o Selbst tem significação inteiramente diversa: nele nada há a considerar senão a própria doação, e essa doação consiste não na exterioridade transcendental de um mundo, mas numa intimidade radical que bane toda exterioridade concebível, sendo essa intimidade da autodoação a imanência mesma da cogitatio.
  28. No sofrer-se a si mesma da subjetividade absoluta nasce a Ipseidade originária, à qual todo “si” remete secretamente, inclusive o do muro, que só tem “si-mesmo” porque sua exterioridade se autoafeta segundo a fenomenalidade patética de uma autoafetação sem exterioridade.
  29. É à categoria fundamental da imanência, e não à banalidade do ver, que remete o conceito de Selbstgegebenheit, que Descartes já pensava sob o nome de ideia, sendo a cogitatio, como sua própria Ideia, o auto-aparecer do aparecer que lhe confere realidade e ipseidade próprias.
  30. No resumo das Lições de 1907, Husserl distingue o aparecer daquilo que aparece, opondo-os numa correlação essencial em que a significação do conceito de “fenômeno” se desdobra, sem que jamais se elucide a realidade fenomenológica dessa fenomenalidade pura enquanto tal.
  31. Husserl nunca duvidou de que a cogitatio possuísse realidade própria, denominando-a “reell”, deslocando o peso ontológico do ser para a subjetividade absoluta, à qual pertencem componentes essenciais como a impressão e a intencionalidade.
  32. A esse conceito radical de imanência as Lições de 1907 opõem um segundo conceito de imanência, estruturalmente heterogêneo, que só se compreende pela colocação fora de jogo do primeiro, ao se praticar a redução no ver e ater-se ao que é realmente visto.
    • Trata-se aqui não mais da cogitatio real, mas de um objeto de conhecimento visado pelo olhar, o que constitui uma transcendência no primeiro sentido reconhecido por Husserl, equivalente à imanência no segundo sentido.
  33. A apreensão transcendente da cogitatio recebe o nome de imanência porque o que é visto se encontra inteiramente contido no olhar, o que define para Husserl a “presença absoluta e clara, a presença em pessoa em sentido absoluto”.
  34. Ao mesmo tempo em que se perverte o conceito de imanência, perverte-se também o de “presença absoluta”, pois na transcendência do ver a cogitatio jamais está presente “em pessoa”; para justificar o uso do termo imanência aplicado à transcendência, Husserl inventa um segundo conceito de transcendência referente ao visado mas não efetivamente visto.
  35. A primeira transcendência é uma saída para fora da realidade da cogitatio, e a segunda, uma saída para fora do visto do ver, mas esta pressupõe aquela, de modo que a diferença entre os dois conceitos é apenas secundária dentro de um mesmo meio ontológico.
  36. O “inteiramente presente à vista” da primeira transcendência não tem nada em comum com a presença da cogitatio em sua imanência, que não comporta horizonte nem mundo; enquanto esta é presença infrangível, aquele é, quanto à cogitatio, uma ausência total.
    • A tentativa husserliana de dar sentido positivo à “imanência” da cogitatio na visão pura vê-se assim gravemente comprometida, revertendo-se por completo.
  37. A ameaça ontológica que pesa sobre o conteúdo “imanente” ao ver, Husserl tenta conjurá-la ao sobrepor as duas noções de imanência e declarar irrelevante a diferença entre elas, afirmando que as cogitationes formam uma esfera de dados imanentes absolutos qualquer que seja o sentido dado à imanência.
    • A continuação do texto refere-se explicitamente à segunda doação, transferindo à visão pura o caráter absoluto que pertencia à primeira doação, a da cogitatio, ocultando-a definitivamente.
  38. Reduzida a imanência à transcendência, e perdida já a questão da realidade da cogitatio, a fenomenologia se engaja numa direção prescrita pelo modo de doação a que se atém, limitação paradoxal que se explica pela obscuridade própria da realidade originária da cogitatio.
  39. Ao tematizar sob o título enganoso de “imanência” apenas a transcendência de um ver puro, a fenomenologia retém um domínio de ser que lhe convém perfeitamente, um domínio oferecido ao ver do pensamento e concebido a partir dele, sobre o qual a redução e o método fenomenológicos preparam a circunspeção exaustiva.
  40. A Terceira Lição repete que o que é visto deve sê-lo verdadeiramente, e a rejeição da transcendência no segundo sentido visa apenas estender sem partilha o reino da transcendência no primeiro sentido, o reino do ver, pois tudo o que é deve poder ser efetivamente atingido por essa transcendência.
  41. A transcendência no segundo sentido refere o vivido a um eu psíquico situado no mundo empírico; eliminá-la é recuperar o vivido reduzido a si mesmo, ao visto puro da reflexão fenomenológica, sendo assim que a fenomenologia se separa da psicologia e se define como “ciência dos fenômenos puros”.
  42. A eliminação da transcendência número 2 na redução fenomenológica revela a estreiteza de seu alcance, pois nessa epoché apenas o mundo empírico e o eu psíquico são suspensos, não o mundo mesmo, o horizonte de visibilidade onde tudo o que pode ser visto se mostra, elevando a transcendência pura à condição de categoria ontológica universal.
  43. É nesse ponto que surge o grande giro das Lições de 1907: no momento mesmo em que celebra o ver, a fenomenologia renuncia secretamente à sua pretensão ontológica mais última, a de dar o ser, sacrifício da realidade e da vida que se manifesta indiretamente através de um remanejamento completo de seus objetivos.
  44. O gênio de Husserl foi ter pressentido a necessidade desse remanejamento e ter posto suas condições desde o início, embora se engane completamente na interpretação do cogito.
    • Uma parêntese extraordinária da Terceira Lição confessa, ao mencionar Descartes e o cogito ergo sum “que não retomamos”, a consciência confusa de que é preciso escolher entre a evidência da cogitatio e sua existência.
    • Ao contrário de Husserl, para quem a fundação da conexão exige a evidência, em Descartes a cogitatio é totalmente independente da evidência duvidosa do conhecimento.
  45. A existência da cogitatio, uma vez subordinada à redução, revela-se um destino estranho: em vez de permanecer incontestável, ela desliza num fluxo sem início nem presença real, de modo que o campo dos fenômenos puros se dissolve diante dos olhos, sendo antes “um perpétuo fluxo heraclitiano de fenômenos”.
  46. Esses fenômenos puros deveriam fornecer os dados absolutos exigidos pelo conhecimento, mas dados evanescentes jamais verdadeiramente presentes não podem sustentar juízos de validade objetiva ou universal, como o próprio Husserl reconhece ao afirmar que os juízos fenomenológicos singulares pouco ensinam.
  47. O abalo ontológico que atinge os próprios dados, e não apenas a racionalidade a se edificar sobre eles, revela-se quando Husserl, analisando o campo visto da redução, constata ele mesmo a inexistência da cogitatio no fenômeno absoluto que deveria exibi-la fora de toda dúvida.
  48. Diante desse constatação desagradável, Husserl desvaloriza o conceito de existência aplicado à cogitatio por ser ela “singular”, epíteto que a desqualifica ao longo das Lições e prepara sua eliminação da problemática.
    • O conceito de singularidade remete ao principium individuationis que define a individualidade pela posição no tempo; após a redução, as cogitationes “singulares” tornam-se aparições móveis, inapreensíveis, projetadas ek-staticamente no tempo fenomenológico imanente.
  49. O conceito de singularidade é aqui deslocado de seu lugar de origem, onde designava a ipseidade transcendental que marca a cogitatio, perdendo-se assim, com a substituição da imanência real pela imanência ek-stática, todas as propriedades da cogitatio, inclusive sua singularidade transcendental própria.
  50. A redução fenomenológica consiste precisamente na passagem da imanência no primeiro sentido à imanência no segundo sentido, mas essa entrada da cogitatio na visão pura produz o efeito inverso do pretendido: o que deveria estar todo contido na visão pura transborda-a e se torna seu contrário, o transcendente.
  51. Husserl reconheceu essa desagregação do dado “imanente” ao pensar a condição da redução como retenção, momento em que a doação absoluta em pessoa revela ter sua essência no fluxo, sem nenhum fragmento estável, sendo tudo isso, segundo a Quinta Lição, “um belo maelström”.
    • A causa desse maelström é o equívoco fundador segundo o qual “o começo era a evidência da cogitatio”, cujas consequências mostram que o que parecia terreno firme e puro ser revela-se, ao contrário, constituído de transcendências, contendo objetos que se “figuram” em fenômenos que criam de certo modo os próprios objetos.
  52. O Resumo dessas Lições reconhece que as cogitationes, consideradas como dados simples, encerram na verdade toda sorte de transcendências, pois as aparições fenomenológicas imanentes são portadoras de raios através dos quais se constituem objetos e são elas mesmas constituídas no tempo fenomenológico, votadas às leis da finitude e do desaparecimento.
  53. O resultado desse colapso ontológico é o que se chama o giro temático, decisão explícita de a fenomenologia dar-se novos objetos em lugar da cogitatio que lhe escapa, pois o fenômeno cognitivo singular, aparecendo e desaparecendo no fluxo da consciência, não é objeto das afirmações fenomenológicas.
    • A primeira razão é a inseparabilidade entre o aparecer e o desaparecer da cogitatio no fluxo; a segunda, mais determinante, refere-se à pretensão científica da fenomenologia, incapaz de fundar proposições universais sobre dados factuais singulares e evanescentes como nuvens no céu, exigindo antes a essência dessas cogitationes.
  54. Cabe perguntar por que, apesar de sua legitimidade racional, essa motivação do giro temático constitui apenas sua significação aparente, ocultando que nesse giro a fenomenologia se perdeu, sendo paradoxal que a apreensão da essência da cogitatio pareça menos, e não mais, do que o simples constatar de sua aparição e desaparição.
  55. Rememorando o objeto da fenomenologia, que não são as coisas, mas o seu como, o deslocamento temático das cogitationes singulares para suas essências inverte totalmente de sentido quando se interroga não sobre as coisas, mas sobre o modo como elas são dadas, pergunta à qual a fenomenologia nascente responde erroneamente com a clara et distincta perceptio.
  56. Quanto à segunda questão — como a essência da cogitatio nos é dada —, ela o é como objeto do olhar intencional que a apreende como transcendente; o giro temático de 1907 substitui, assim, o modo de doação da imanência pelo único modo de doação que conhece, o da transcendência, deslocando a fenomenalidade em si mesma.
  57. Esse vínculo entre o deslocamento temático e a questão da fenomenalidade determina inteiramente o texto husserliano, pois todo o trabalho fenomenológico se realiza dentro da redução, e a essência só pode intervir na pesquisa a título de “fenômeno puro”, questão que toda a problemática subsequente ao giro temático se esforça por enfrentar.
  58. Se a redução é redução à visão pura e ao dado absoluto como dado dessa visão, coloca-se a questão da extensão da visão pura: até onde se estende o campo de tudo o que pode ser tomado por ela, incluindo a essência, seja da cogitatio, seja de qualquer outra coisa.
  59. Essa questão da extensão da visão pura não se coloca de maneira indeterminada, mas parte de uma limitação preliminar, a saber, a dissociação radical entre a doação e o dado, pela qual a primeira compete apenas à visão enquanto a cogitatio é rebaixada ao segundo termo.
  60. Essa dissociação anterior ao giro temático determina toda a problemática que dele decorre: como o vínculo entre visão pura e cogitatio tem apenas significação histórica, e não essencial, a visão pura pode estender-se além da esfera das cogitationes, sendo coextensiva a todo dado concebível.
    • A cogitatio deixa de ser mais que um exemplo entre outros pelo qual a visão pura comprova a excelência de seu poder, sendo dado absoluto apenas por ser vista e bem vista, indubitável.
  61. Uma vez estabelecida a libertação da visão pura em relação à cogitatio, o vínculo entre ambas torna-se contingente, e a questão de sua extensão se resolve por si mesma: onde quer que haja visão pura haverá fenômeno puro, dado absoluto, sendo esse campo potencialmente imenso o da fenomenologia.
  62. Nesse campo, um objeto retém particular atenção: a essência, o geral, que motivou a questão da extensão da visão pura, pois se a essência genérica pode substituir a cogitatio na problemática da redução, é à condição de dar-se ela mesma como um fenômeno puro.
  63. Embora na Segunda Lição as cogitationes ainda se propusessem como objetos privilegiados do voir, a Quarta Lição, após o giro temático, questiona se o geral e as essências gerais podem vir à presença no mesmo sentido que uma cogitatio.
  64. A resposta de Husserl é extraordinária: traçando linha rigorosa entre o que pertence à realidade da cogitatio e o que lhe é transcendente, ele toma partido por este segundo termo, pois o objeto geral, buscado em vão na conexão real, deve ser algo idêntico em inúmeras consciências possíveis, sendo-lhes necessariamente transcendente.
    • Vem então a afirmação desconcertante de que encontrar essa transcendência problemática não é senão um preconceito.
  65. Essa transcendência não problemática é justamente a da visão pura, que substituiu a cogitatio na obra da doação, pois se o fenômeno absoluto vale como dado absoluto não por ser um ser singular, mas por revelar-se tal numa visão pura, o objeto geral pode igualmente ser encontrado numa visão pura como tal doação em pessoa.
  66. A extensão da visão pura das cogitationes singulares às suas essências genéricas traduz não uma extensão propriamente dita, mas uma descontinuidade radical entre dois domínios separados: o do geral e do ser transcendente, para o qual a visão pura é o modo de acesso adequado, e o da cogitatio, seu domínio de incompetência.
  67. Husserl demonstra de facto a possibilidade de o geral ser dado numa visão pura tão bem quanto a cogitatio, e melhor ainda, a propósito do gênero vermelho, que, considerado em si mesmo como universal e não como cor de um objeto particular, torna-se dado puramente “imanente”, ao qual se opõe agora uma falsa imanência, a própria cogitatio.
  68. O pensamento do gênero fornece dupla prova: primeiro, a extensão da visão pura e de seu correlato, o dado absoluto em pessoa, para além da esfera das cogitationes, pois o gênero, transcendente às consciências que o visam, se mostra a elas como termo único de suas múltiplas visadas.
  69. Se o gênero é dado absoluto “imanente” no sentido da redução ainda que não pertença à imanência real da cogitatio, esse “embora” torna-se transparente: é justamente por não estar incluído na cogitatio que a essência genérica pode tornar-se dado absoluto de uma visão, entregando assim a segunda prova, a de que a extensão do dado puro implica sua libertação frente à cogitatio e sua definição como objetividade.
  70. Uma tal doação, a do gênero por exemplo, jamais é tão pura quanto quando se torna a doação de uma realidade exterior, opondo-se radicalmente à cogitatio, sendo o geral dado absolutamente sem ser imanente realmente, transcendente em sentido real.
  71. Cabe então perguntar o que se torna a redução fenomenológica se seu princípio não é mais o retorno à esfera de imanência da cogitatio, mas o conteúdo da visão pura, o que define, por princípio, o transcendente; a redução passa a significar não a limitação à esfera da cogitatio, mas à esfera dos puros dados em pessoa, agora totalmente estranha àquela.
  72. Esse reviramento do sentido da redução, de redução à imanência para redução à transcendência, foi preparado pela distinção entre os dois conceitos de imanência sobre a qual a problemática esbarrou já em suas análises liminares, manifestando o instinto genial de Husserl para detectar e ocultar as próprias dificuldades.
    • Entre esses dois conceitos de imanência, a redução deveria escolher claramente qual lhe serve de apoio; a equivocidade da método fenomenológica consiste em mascarar, sob a continuidade aparente da pesquisa, o reviramento de sentido do conceito de imanência.
  73. No texto citado, a equivocidade concerne ao termo “limitação”: embora seja verdade que a redução deve incorporar as essências transcendentes, “limitação” a uma esfera de realidade ou “extensão” a outra implica uma homogeneidade de meios e fins que carece de fundamento, homogeneidade que é justamente a pressuposição de que a método nunca retorna aquém.
    • A homogeneidade dos meios é a visão pura; a homogeneidade do ser a conhecer é o dado absoluto como visto dessa visão, o “imanente” tornado transcendente; a imanência verdadeira, a realidade da cogitatio e da vida, está perdida.
  74. O traço mais notável da constituição da essência genérica, que substitui a cogitatio singular no giro temático, é o de confessar essa perda e enfrentá-la: a tese decisiva é que a visão pura da essência da cogitatio é possível na ausência dessa cogitatio, sem que sua existência seja necessária.
  75. A resposta ao porquê de Husserl demonstrar, com extraordinária minúcia, que a visão pura da essência da cogitatio é efetiva mesmo sem a existência “em pessoa” desta reside no fato de que a subjetividade absoluta é, em si, invisível, exigindo que a método fenomenológica substitua, por instinto, a realidade que lhe escapa por sua “essência” transcendente e visível.
  76. É preciso construir a teoria da constituição da essência genérica, e primeiramente da essência genérica da cogitatio, na ausência desta e de sua realidade, o que coloca uma dificuldade, pois o gênero, mesmo visto em si, sempre se constitui a partir de dados singulares dos quais aparece como elemento idêntico.
    • A vista pura da essência genérica das cogitationes implica, assim, a vista destas em sua singularidade, o que parece reintroduzir o círculo, já que a doação da essência remete de volta à cogitatio cuja realidade se perdeu.
  77. Essa retro-referência só evita o círculo à condição de que a constituição da essência genérica seja concebível a partir de dados da cogitatio que não sejam os de sua realidade, mas simples re-presentações, como imagens, formadas livremente pela imaginação, permitindo a abstração idealizante fixar o essencial e o acidental.
    • Todo o eiditismo da fenomenologia, apoiado na livre ficção, é o paliativo genial concebido por Husserl para tornar possível uma ciência rigorosa e eidética da subjetividade absoluta, mesmo esta se subtraindo por princípio a toda apreensão desse tipo.
  78. A teoria das essências, contudo, exige que os dados singulares de base sejam também eles vistos e dados em pessoa; quando as cogitationes são substituídas por suas imagens, cabe perguntar se estas ainda são dados absolutos que dão a cogitatio em sua realidade, ou apenas re-presentações que a apresentam em sua ausência.
  79. A resposta afirmativa exige que a imagem seja ela mesma vista e se proponha como dado absoluto, o que leva Husserl, com lucidez quase sonâmbula, a estender radicalmente a validade da visão pura, abalando distinções cruciais da própria fenomenologia; se tudo o que é visto o é no mesmo título, o simplesmente visado, se visto de algum modo, também é dado, tornando a fronteira entre o dado real e o meramente visado singularmente permeável.
  80. O apagamento da distinção entre visto e simplesmente visado se manifesta quando a “doação absoluta do fenômeno” e a “quase-doação do objeto transcendente” deixam de se diferenciar, ambas sendo apenas “vistos” de um ver, pertencentes à mesma dimensão de presença e finitude.
  81. Que tudo o que é visto tenha igual direito, seja o dado imanente da redução ou o objeto transcendente sob qualquer aspecto — imaginário, visado a vazio —, é o que a Quinta Lição concede progressivamente, até deter-se diante da evidência da homogeneidade do campo do ser determinado pela transcendência.
    • No fenômeno de uma casa, é evidente que aparece justamente uma casa, esta casa determinada de tal ou tal maneira, e não apenas dados de sensação; o mesmo vale para o objeto imaginário, como São Jorge matando um dragão, que também aparece como transcendência.
    • Vale ainda para o pensamento não intuitivo e simbólico, como a proposição aritmética 2 vezes 2 são 4, e mesmo para o absurdo enquanto objeto intencional, sempre “dado” enquanto tal.
  82. Dessa validação súbita de toda forma de presença, inclusive transcendente, Husserl toma consciência repentina, reconhecendo que grandes dificuldades residem aí, sem que se pretenda que tais dados sejam dados no sentido autêntico.
  83. A validação do dado imaginário torna possível a constituição da essência genérica, notadamente a essência da cogitatio, bastando que as cogitationes de partida do processo de ideação sejam dadas mesmo em sua ausência, o que é precisamente o caso enquanto imaginárias.
  84. A demonstração é feita a propósito da cor: uma cor imaginada, ainda que não sentida, está diante dos olhos e pode ser reduzida como uma cor sentida, aparecendo “em pessoa” tal como é representada, sobre a qual se podem então formular juízos.
  85. Sobre os momentos apreendidos numa cor imaginada, os necessários e os contingentes, pode-se apreender a essência mesma da cor, tendo assim a visão pura de uma essência individual independentemente de toda consideração sobre a existência real; o mesmo vale para todas as essências, inclusive as das cogitationes, apesar da perda de sua realidade.
  86. A indiferença em relação à existência é o leitmotiv da teoria husserliana da constituição da essência genérica, afirmada categoricamente em diversas passagens da Quinta Lição, segundo as quais a posição existencial efetiva ou modificada é indiferente à apreensão da essência.
    • Que a existência da cogitatio singular se furte à visão pura de sua percepção deixa, assim, de ser obstáculo à constituição de sua essência, já que esta se opera tão bem a partir de dado imaginário quanto de dado real.
  87. Assim, a método fenomenológica e a fenomenologia em geral tornam-se de novo possíveis mesmo com sua pressuposição fundadora, a doação em pessoa da cogitatio, à deriva, graças a duas condições: o giro temático e a validade da doação em imagem como equivalente à doação da realidade, sacrificando esta última.
  88. Husserl não desconheceu a realidade da cogitatio em sua oposição radical a seu correlato noemático irreal, dando-lhe plena significação a partir do cogito cartesiano, o que desqualifica todo ser transcendente situado fora da vida transcendental, ainda que Husserl, ao contrário de seus sucessores, mantenha referência constante a essa vida como fonte de todo ser.
  89. Mesmo assim, apesar dessa referência à realidade mais profunda da cogitatio, a fenomenologia husserliana deixa se desfazer o que deveria constituir seu tema último, como já demonstra a análise da realidade da cogitatio nas Lições de 1907.
  90. Não é o deslocamento temático em si que requer crítica, já que a fenomenologia opera necessariamente como um ver, mas sim o modo como, ao tematizar a essência da cogitatio, o caráter mais essencial dessa essência, sua existência, se vê definitivamente ocultado.
  91. O que Husserl vê, na visão pura da redução, como o elemento mais decisivo comum às cogitationes singulares é o caráter pelo qual a cogitatio se relaciona a um objeto, subsistindo esse “relacionar-se-a” mesmo posto fora de jogo o objeto, estabelecendo-se assim a definição da consciência como “consciência de algo”, intencionalidade e transcendência.
  92. Ao contrário do que se supunha, é o sentido primeiro do conceito de imanência, e não o segundo, que equivale ao sentido primeiro de transcendência, se é verdade que a realidade em si imanente da cogitatio é justamente seu “relacionar-se-a”.
  93. A análise da essência da cogitatio traz assim como resultado essencial a interpretação de sua realidade como transcendência, afirmada em múltiplas passagens das Lições segundo as quais o relacionar-se ao objeto transcendente é um caráter interno do fenômeno puro.
  94. Permanece então a pergunta: como se dá o modo de aparecer do próprio “relacionar-se-a”?
  95. Não há resposta a essa pergunta na fenomenologia husserliana nem em seus desdobramentos posteriores; em seu lugar instala-se uma ilusão, pois a visão pura que vê o “relacionar-se-a” toma o lugar da revelação própria deste e se faz passar por ela, levando a dizer que a consciência é pura transcendência, nada mais.
    • Heidegger, no Seminário de Zähringen, chegará a pedir que se renuncie à própria palavra consciência, elogiando Husserl por ter “salvado o objeto” mas lamentando que o tenha feito “instalando-o na imanência à consciência”.
  96. Ao substituir pela visão pura a autodoação do “relacionar-se-a” na cogitatio originária, a fenomenologia leva sua ilusão até o fim: ver algo é relacionar-se intencionalmente com ele, de modo que, na redução, o “relacionar-se-a” está nos dois lados, fechando um círculo perfeito que oculta o que lhe falta e que ele constantemente pressupõe — a possibilidade mesma desse “relacionar-se-a”.
  97. Essa possibilidade é fenomenológica: que o “relacionar-se-a” não seja, em si, sua própria possibilidade fenomenológica significa, rigorosamente, que o ver não se vê, que o ver não é um fenômeno por si mesmo, pois um ver que fosse apenas ver nada veria.
    • Só há ver se, de modo despercebido, o ver é mais que si mesmo, agindo nele uma potência outra em que ele se autoafeta, sentindo-se vidente, como no sentimus nos videre cartesiano; essa autoafetação é a fenomenalidade originária, a doação originária como autodoação.
  98. Essa autodoação é estruturalmente heterogênea ao “relacionar-se-a”, não sendo, ela própria, um relacionar-se, mas excluindo-o insuperavelmente de si; não é transcendência, mas imanência radical, e é somente sobre esse fundo que algo como uma transcendência se torna possível.
  99. É apenas como não-ver, não se relacionando consigo mesmo num ver e portanto não se revelando por meio dele, que o ver se efetua; e esse não-ver, esse não-visto, esse invisível não é o inconsciente, negação da fenomenalidade, mas sua fenomenalização primeira, nossa própria vida em seu pathos inextático — o afeto em sua paixão, único incontestável.
  100. Se a questão da fenomenologia é a da doação, não a dos objetos mas de seu Como, apenas uma temática da imanência radical enquanto afetividade transcendental permitirá cumprir esse programa, sendo justamente esse Como radical que a fenomenologia deixa escapar no momento mesmo em que se define pela primeira vez.
  101. Falta esse Como porque a fenomenologia se pensa como método, o que a confina à fenomenalidade da própria pensée, aquela em que se move a filosofia desde sua origem grega, sem que a reflexão escape jamais ao poder coercitivo do horizonte finito do ser.
    • Essa conexão decisiva entre a método fenomenológica e a fenomenalidade grega é ilustrada de modo mais eloquente pelo célebre parágrafo 7 de Sein und Zeit.
  102. Trata-se, nesse parágrafo, de elucidar a método da investigação que tem por objeto o ser do ente, sendo “as coisas mesmas” que devem decidir o modo de tratá-las; essa maneira é a fenomenologia, cujo conceito é dividido em três partes: “fenômeno”, “logos” e “fenomenologia”.
  103. As duas primeiras partes se constroem de modo semelhante, definindo um sentido fundamental ao qual todos os demais sentidos derivados se referem, sentido fundamental este que, apesar de conciso, revela-se decisivo, mas que, a rigor, corresponde antes a um exame filológico do que a uma análise conceitual fenomenológica, sobre o significado grego das palavras fenômeno e logos.
  104. A análise filológica do termo grego fenômeno divide-se em dois tempos: primeiro, o vocábulo deriva de φαίνεσθαι, mostrar-se, de modo que o fenômeno é o que se mostra, tendo aqui significação puramente formal e a fenomenalidade permanecendo indeterminada.
  105. Essa fase formal logo é submergida por uma interpretação material que confere à fenomenalidade pura um conteúdo específico, através de dois movimentos: primeiro, o deslizamento da consideração do que aparece para o próprio ato de aparecer.
    • O segundo movimento, decisivo, confere ao aparecer puro uma determinação material radical, ligando-o não ao aparecer em geral, mas a um modo específico ligado à luz e à claridade, restringindo desde o início o alcance da fenomenologia e da ontologia.
  106. O termo grego φαίνεσθαι não visa o aparecer puro anterior a qualquer pressuposição, mas precisamente esse aparecer entendido como trazer à luz, cuja raiz remete à claridade em que algo se torna visível em si mesmo, restringindo o aparecer à condição de horizonte de visibilidade.
  107. Dessa interpretação particular, ainda que emprestada do senso comum grego, decorre a duplicação entre o aparecer e o que aparece, análoga à do modelo husserliano entre doação e dado, de modo que o que aparece só o faz graças à obra do aparecer, tal como o iluminado difere da luz.
    • O fenômeno, assim entendido como o que “brilha na luz”, é para Heidegger o que os gregos chamam de ente, e o aparecer que lhe permite mostrar-se é o ser, em sua diferença do ente.
  108. Após mostrar que todas as demais acepções do conceito de fenômeno remetem ao sentido fundamental de vir a se tornar visível na luz, a primeira parte conclui que, enquanto o ente designado permanecer indeterminado, obtém-se apenas o conceito formal de fenômeno, embora a determinação como o que se mostra na luz esteja longe de ser formal.
  109. Se a questão crucial da fenomenologia e da ontologia fosse a da vida, e se o modo pelo qual esta se essencifica fenomenologicamente excluísse por princípio toda apresentação na luz de um mundo, essa caracterização supostamente formal do conceito de fenômeno já teria colocado a investigação fora do essencial, situação ainda mais agravada do que a encontrada por Husserl.
  110. A banalidade da pressuposição mundana do conceito de fenômeno conduz à questão, formulada primeiro por Husserl e retomada no parágrafo 7, da especificidade do fenômeno “no sentido da fenomenologia”, questão que, sem a redução husserliana, recebe resposta emprestada do tematismo kantiano — a fenomenologia tematiza as modalidades puras do aparecer.
    • Esse projeto grandioso perde seu poder revolucionário assim que o aparecer visado permanece apenas o do fenômeno vulgar e mundano, o que a segunda parte, dedicada ao conceito de logos, tornará ainda mais evidente.
  111. Atendo-se ao sentido fundamental de logos como palavra — entendida como δηλοῦν, tornar manifesto aquilo de que se fala —, o logos “faz ver algo” a quem fala e a quem se fala, colocando no cerne de sua essência o fato de “tornar manifesto no sentido de um fazer-ver mostrando”.
    • Por ser um fazer-ver, o logos pode ser verdadeiro, remetendo à verdade originária da percepção sensível, aísthesis; ainda assim, ao dizer sobre o ente, o logos implica esse recolhimento do ente na percepção e, portanto, a verdade em seu sentido originário.
  112. Basta então comparar as significações fundamentais de fenômeno e logos para estabelecer o que é a fenomenologia, comparação que revela uma relação íntima entre os dois termos, na verdade uma identidade de essência: a fenomenalidade do mundo determina tanto o objeto da fenomenologia quanto seu modo de tratamento.
    • Ainda que haja dissimetria entre os termos — o fenômeno designando o objeto, o logos o modo de tratá-lo —, o logos, mesmo entendido restritivamente como método ou originariamente como palavra, só se realiza sobre o fundo desse fazer-ver, isto é, da fenomenalidade pura, sendo esta a mesma em ambos os casos, o que revela a presuposição cega do idealismo.
  113. O segundo parágrafo de C retoma a definição da fenomenologia negativamente, isto é, enquanto logos: “fenomenologia” não nomeia o objeto de suas investigações, mas informa apenas sobre o como da mostração, definindo a “ciência dos fenômenos” como aquela cujo tratamento deve dar-se por mostração e elucidação diretas.
    • Essa retomada da presuposição metodológica husserliana do recurso à fonte acompanha-se da observação de que a expressão “fenomenologia descritiva” é, no fundo, tautológica.
  114. A expressão só é tautológica sob duas condições: primeiro, que o conceito de fenomenologia se tome em sentido puramente metodológico; segundo, e mais fundamentalmente, que a essência da fenomenalidade implicada em “logos” e em “fenômeno” seja a mesma, presuposição tanto mais coercitiva quanto permanece impensada.
  115. Ainda assim, o texto não evita a contradição: depois de negar que “fenomenologia” designe um objeto, o segundo parágrafo afirma que o caráter da descrição só pode fixar-se a partir da “natureza” da própria coisa a descrever, trazendo-a a se apresentar como fenômeno.
    • Cabe perguntar então qual o aparecer que dita à fenomenologia sua método, respondendo-se que é justamente aquele que habita o logos, o aparecer do ente intramundano da percepção ordinária, o conceito mais trivial de fenômeno, permitindo chamar de fenomenologia toda mostração do ente tal como ele se mostra em si mesmo.
  116. Torna-se então evidente a identidade de essência entre o fenômeno e a descrição que pretende descobri-lo, a ponto de não haver mais razão para distingui-los, esvaziando-se assim toda utilidade concebível para a palavra “fenomenologia”, que passa a designar qualquer mostração de qualquer ente.
    • O parágrafo pergunta então pela terceira vez o que distingue o conceito fenomenológico do conceito corrente de fenômeno, e o que a fenomenologia tem a fazer ver.
  117. Trata-se, em última instância, do próprio fazer-ver: mesmo que Heidegger sistematize a tematização do aparecer de modo mais deliberado que Husserl, colocando o velamento no coração da verdade, isso não abala a pressuposição comum da identidade de essência entre fenômeno e logos sobre o fundo grego, e portanto a identidade entre objeto e método da fenomenologia.
  118. Essa identidade entre objeto e método parece evidente por si mesma: se o objeto da fenomenologia é o aparecer, o método adequado é aquele que se funda sobre ele e a ele se confia integralmente, sendo a fenomenalidade do fenômeno, ao mesmo tempo, o acesso ao fenômeno e a via para alcançá-lo, isto é, o próprio método.
  119. Essa identidade perde sua evidência, contudo, assim que a fenomenologia se torna material e busca dizer rigorosamente em que consiste fenomenologicamente a fenomenalidade da fenomenalidade pura, como já revelou a crítica ao parágrafo 7: o conceito heideggeriano de fenômeno é construído sobre a pressuposição material de que fenômeno é o que se mostra na luz.
  120. Se, ao contrário, a vida — o aparecer originário na imediação patética de seu autoaparecer — escapa por princípio ao domínio do visível, e se ela define de fato o objeto da fenomenologia, então a identidade entre esse objeto e a método se rompe bruscamente, cedendo lugar a uma heterogeneidade que se apresenta primeiro como um Abismo.
  121. Nessa hipótese, a método recupera um sentido próprio, e a fenomenologia enquanto método readquire seu direito: ela deixa de ser tautologia inútil e passa a se opor, fenomenologicamente, ao seu objeto, como duas essências irreconciliáveis — a revelação inextática e patética da vida de um lado, o fazer-ver interior ao logos do outro.
    • Essa oposição é tão forte que a própria condição de relacionar os dois termos se torna problemática, pois falar da vida mostrando-a no fazer-ver da palavra torna-se impossível quando a vida lhe é estranha por princípio; assim se coloca a questão de como é possível uma filosofia da afetividade.
  122. A método fenomenológica é construída inteiramente sobre essa aporia, e sua primeira elaboração nas Lições de 1907 mostra o extraordinário trabalho de Husserl para restabelecer uma conexão entre o modo de tratamento fenomenológico e aquilo de que ele trata, a fenomenalidade pura e originária da vida.
    • Seguem-se sete etapas dessa substituição: a dissolução da cogitatio sob a visão pura da redução; o giro temático substituindo a realidade perdida da cogitatio por sua essência genérica; a substituição da imanência pela transcendência; a promoção fenomenológica e ontológica desta como lei do ser; a teorização da constituição da essência transcendente em identidade com o logos do método; a validação ontológica do imaginário como suporte dessa constituição; e a tentativa de reduzir a própria realidade da cogitatio à transcendência, como “relacionar-se a”.
  123. Essa fundação da método fenomenológica a partir de sua inadequação de princípio ao que ela deveria exibir é, em Husserl, inconsciente, em oposição completa à pressuposição explícita da doutrina, como mostra sua referência à clara et distincta perceptio cartesiana.
    • É justamente porque, em vez de se dar a ela, a cogitatio se furta à evidência, que Husserl se vê obrigado a remanejar sua problemática desde os primeiros passos, substituindo a suposta “doação em pessoa” da vida transcendental por uma longa lista de equivalentes objetivos.
  124. Cabe perguntar se a fenomenologia material não teria outra tarefa senão tornar presente a motivação oculta que guiou a démarche da fenomenologia histórica, tornando temático o que esta fez espontaneamente por uma espécie de divinação.
  125. A presente crítica não busca apenas o porquê da modificação temática, mas visa circunscrever a dimensão originária de fenomenalidade que a fenomenologia histórica jamais percebe, lacuna já visível na afirmação de que todo vivido, no momento em que se realiza, pode tornar-se objeto de visão pura.
  126. Seria ilusório supor que, subtraindo-se a vida transcendental absoluta a todo olhar e a todo saber possível, o único meio de conhecê-la consistiria em colocar diante do regard um substituto, seu representante objetivo — a essência noemática, que é justamente essa “re-presentação” da vida absoluta.
  127. Tal re-presentação é, num sentido, também uma apresentação, pois a essência da vida é de fato vista na visão pura da intuição eidética; mas essa realidade da essência transcendente não é a realidade da própria vida, submetendo cada caráter a uma modificação decisiva ao ser exposto ao regard.
  128. Na re-presentação da essência noemática, o “pathos” torna-se dado transcendente sobre o qual se pode refletir, contudo, em seu vivo efetivo, ele não é nada disso, revestindo a aparência do visível apenas ao preço de depositar sua realidade própria, permanecendo mera significação vazia.
  129. Duas apórias se colocam aqui: por que chamar de pathos um conteúdo noemático morto, incapaz de se sentir a si mesmo, quando o pathos é precisamente essa capacidade; e como o caráter essencial da vida pode se propor, ao mesmo tempo, como essência transcendente e caráter noemático.
  130. O problema da re-presentação em geral, identificado com o da re-presentação da vida, constitui a aporia central, ligando duas presuposições: a de que a apresentação se dá como vinda ao Dehors, própria da fenomenalidade grega, e a de que o conteúdo apresentado o é pela segunda vez, tendo já existido alhures, agora sob forma irreal.
    • É o traço mais notável da fenomenologia husserliana designar o correlato da intencionalidade, o noema, como uma irrealidade, atestando, em sua inconsequência teórica, a força invencível de uma intuição da vida.
  131. Se o correlato noemático é irreal por estar posto fora da vida, faz refluir para esta o Todo do Real, afirmação de imensa envergadura filosófica, segundo a qual toda realidade possível — da Natureza, do Outro, do Absoluto — só recebe efetividade por estar situada na Vida.
  132. A aporia da representação subsiste: a irrealidade noemática despoja de realidade o ser apresentado, mas resta perguntar onde reside então essa realidade, como se fenomenaliza sua “primeira apresentação”, e como reconhecer a realidade representada quando a representação nunca a apresenta em si mesma.
    • Todas essas questões, que perseguem a filosofia desde seu início, resumem-se a uma só: como se adquire uma visão pura da cogitatio, e como é possível a método fenomenológica?
  133. A solução impensada apresentada por Husserl apenas desloca a dificuldade: se nenhuma propriedade real da cogitatio se lê no que se oferece à visão pura como significação ideal, não seria necessário partir do vivo patético para inverter a ordem da método, já que nunca se teria noção da vida se o saber primitivo do que ela é não estivesse já incluído no olhar que a busca.
  134. Esse saber primitivo do vivo é o próprio vivo que o traz consigo, na efetuação fenomenológica de sua autorrevelação patética, sendo sobre o fundo desse saber, e pressupondo-o, que um olhar pode nascer e projetar diante de si o conteúdo desse saber como caracteres irreais da essência noemática.
    • Assim, “enquanto se realiza” designa a autorrevelação originária do que pode, depois, ser colocado diante do regard e reconhecido por ele, sendo a revelação imanente da vida na cogitatio, e não a visão pura, que dá ao ver tudo o que ele pode saber dela.
  135. A método fenomenológica é a autoexplicitação da vida transcendental sob a forma de sua autoobjetivação, conceito que deve ser entendido em sentido oposto ao da pensée moderna, pois não é a vinda à visibilidade de um Fora que funda a fenomenalidade da vida, mas o inverso.
    • Posso representar-me minha vida, possibilidade incluída na própria vida; mas essa possibilidade deve ela mesma ser possível, residindo não na representação, mas na Arqui-revelação da vida em que todo vivido “se realiza”.
  136. O giro temático desorienta: embora abra caminho de acesso à vida sob a forma de um “conhecimento”, a essência transcendente da cogitatio não toma simplesmente o lugar desta, que deve “ser” na Arqui-revelação de seu pathos invisível, mesmo que se ofereça, sob forma de essência, à visão; nem tudo o que é visto vem do vivido, mas também o próprio ver é apenas modalidade da vida.
  137. O empréstimo do visto ao vivido na re-presentação da subjetividade absoluta não é da mesma ordem que o vivido do próprio ver: enquanto este é atualidade efetiva da vida do fenomenólogo, o vivido sobre o qual se funda a essência noemática da cogitatio pode ser apenas imaginário, como Husserl estabeleceu, mas mesmo o imaginado é “emprestado” da vida, que lhe confere sua estrutura fenomenológica e ontológica.
  138. Há sem dúvida um fazer-ver inerente a toda método, e à primeira vista ela não é senão isso; mas crer que esse logos é o fenômeno originário, ou ao menos da mesma ordem que ele, é a ilusão à qual a fenomenologia histórica sucumbiu, retomando sem sabê-lo o preconceito mais habitual da filosofia ocidental, cujo logos repousa sobre a fenomenalidade do mundo.
  139. Diante dessa filosofia que comanda nossas maneiras de pensar, deve-se acrescentar que a confusão do logos com a fenomenalidade ek-stática é ruinosa por reduzir a essência da fenomenalidade a esta, mascarando sua fenomenalização originária na vida; e que a essência do próprio logos se vê pervertida, já que o fazer-ver que ele pressupõe implica, em seu ver, a Arqui-revelação da vida.
  140. O que vale para o logos da método vale para todo logos possível, da linguagem cotidiana à da ciência, exigindo que toda a filosofia da linguagem seja reescrita, na medida em que a palavra jamais se esgota no fazer-ver, mas, ao contrário, exclui todo fazer-ver, sendo imanência, e não transcendência.
  141. Toda Palavra é palavra da vida: o que mostra nessa Palavra é a própria vida, a autorrevelação patética da subjetividade absoluta que é o Dizer, dizendo a si mesma a partir de si mesma, o que significa, para a Palavra da Vida, fazer ver mostrando na própria carne patética.
    • É assim que a dor, “clara” a si mesma enquanto “obscura”, é revelada a si mesma em sua afetividade e por ela; a linguagem é a linguagem da vida real.
  142. É nesse sentido primeiro que o logos pode ser verdadeiro, e o é sempre, não porque suponha a descoberta ek-stática do ente na percepção, mas porque a essência originária da Verdade é a Vida, e o logos não é senão ela; o Verbo que vem ao mundo não é o logos grego, mas a própria vida oculta.
    • A compreensão grega do logos, fundada na verdade da percepção, atravessa a Idade Média e determina toda a pensée ocidental, inclusive a interpretação da Sabedoria divina por Jacob Boehme, cujas intuições comandam o idealismo alemão e a filosofia moderna, inclusive a filosofia da linguagem.
  143. Se a essência do logos reside na vida, a linguagem não pode ser assimilada a um assassinato da realidade suprimida sob a forma ideal da palavra, segundo a concepção hegeliana transmitida por Kojève; antes, o dizer originário é a plenitude fenomenológica da vida em sua positividade infrangível.
  144. Cabe então perguntar se, sendo a essência do logos a vida, o objeto e o método da fenomenologia não seriam idênticos, contrariamente à dissociação radical sustentada ao longo da investigação, e por que todo o processo do giro temático e da substituição noemática ocorreria senão porque a cogitatio, em sua fenomenalização imanente, é irredutível ao logos que faz ver.
  145. A cogitatio escapa ao logos grego que faz ver, mas não ao logos originário da vida, que é ela mesma; em sua teor originária, o logos é idêntico à fenomenalidade pura, sendo o aparecer, em seu ato de aparecer, ele próprio a Via, todo aparecer sendo um autoaparecer em sentido radical.
    • Só uma fenomenologia material pode reconhecer, na materialidade fenomenológica da fenomenalidade pura, o modo como ela revela e a natureza de seu Dizer, penetrando na natureza interna dessa essência comum.
  146. A redução do logos ao fenômeno, mesmo dentro da pressuposição grega, ilude-se ao supor autonomia própria a essa fenomenalização concreta, pois a reciprocidade entre logos e fenômeno vela constantemente aquilo que lhes serve de fundamento último, a saber, o fracasso radical do princípio dos princípios, o fazer-ver na evidência da visão pura, incapaz de fazer ver o que havia a ver.
    • Esse fracasso é radical porque concerne primeiramente ao próprio princípio, o ver que nunca é visto; longe de se ajustar ao fenômeno originário, o logos lhe é agora estranho, opondo-se fundamentalmente objeto e método da fenomenologia.
  147. Método, enfim, comporta dois sentidos, ambos remetendo ao aparecer: um como fazer-ver na visão pura e mostração direta, husserliano; outro como Via — mas o enraizamento do logos no φαινόμενον não oferece paralelo à Palavra da Vida, sendo esta que funda e torna possível aquele.
    • Não há ver senão vivo, sobre o fundo desse não-ver essencial chamado pathos; por isso o velamento que habita toda verdade não é negação formal nem inconsciente, mas a Arqui-revelação da Vida em sua positividade irredutível — o Objeto da fenomenologia.
  148. Que o ver da método, do conhecimento, da ciência ou do logos grego, porte sempre em si, como sua anti-essência fundadora, a plenitude patética da vida, não impede que jamais a veja, obrigando-o a substituir a cogitatio invisível por um equivalente objetivo, sua essência noemática, cuja constituição a método produz laboriosamente como condição de sua própria possibilidade.
    • Estabelecida essa condição de substituição, cabe perguntar se o desvio seguido por instinto por Husserl deve apenas suscitar suspeita quanto à capacidade da fenomenologia de proceder por “mostração direta”.
  149. Cabe perguntar, enfim, se o destino de jamais atingir a realidade “em pessoa” não é o de todo regard, e se os desvios, o giro temático e a re-presentação não lhe são prescritos pela própria natureza das coisas, na medida em que essas coisas são as da vida.
  150. Quando pela primeira vez homens se aproximaram lentamente uns dos outros carregando peles secas, sacos de grão ou de sal, tiveram de ver o que nunca se vê: o trabalho incluído nessas mercadorias, o trabalho vivo, e por isso substituíram essa peine invisível por seus equivalentes imaginados, tantas horas de trabalho, a essência noemática do trabalho.
    • A realidade econômica inteira, a realidade do mundo em que se vive, é assim apenas o conjunto dos equivalentes objetivos, ideais e irreais que os homens desde sempre substituíram à sua vida, a fim de poderem avaliá-la e dela manter uma contabilidade; a método fenomenológica não é retorno impossível a si mesmo, votado a perceber apenas sombras, mas a inteligência interior de sua démarche é a inteligência do mundo.