Que a paixão em sua efetividade fenomenológica não dependa do corpo é o que
Descartes se vê involuntariamente obrigado a reconhecer no artigo 19, ao tratar das percepções que têm por causa a alma, isto é, as volições, chamadas ações
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afirma-se que não se pode querer algo sem apercebê-lo, sendo tal apercepção, quanto à alma, uma ação, mas também uma paixão de apercebê-la
A continuação do texto revela o recuo de
Descartes diante de sua própria descoberta, ao afirmar que percepção e vontade são a mesma coisa e que por isso se prefere nomear ação, quando na verdade percepção designa a apercepção imanente original que funda toda modalidade da alma, inclusive a vontade
A dissociação fenomenológica entre videor e videre constitui o preálable teórico indispensável ao debate clássico sobre o que deve ser entendido por pensamento em
Descartes, que na Segunda Meditação a define ora pela essência, ora pela enumeração dos modos
Já na Regula I esses termos aparecem associados a outros equivalentes que designam a luz natural ou transcendental, fundamento de toda ciência, interpretação confirmada pelo contexto da Segunda Meditação, que caracteriza o espírito como poder fundamental de conhecimento, um intellectus ou inspectio
Tais considerações pertencem apenas ao final da Meditação ou às Regulae, pois a Primeira Meditação e o início da Segunda ignoram ou rejeitam a definição da mens como intellectus, já que o processo de dúvida abala justamente o fundamento comum dos saberes, essa luz transcendental que a Regula I descrevia como sempre una e idêntica a si mesma
Tal definição da pensée é secretamente tributária de outra problemática, reaparecendo ao fim da Segunda Meditação quando a mens é examinada não em si mesma mas como condição do conhecimento do corpo, análise que se dá pelo entendimento e que remete inelutavelmente ao conhecimento da alma exibido no cogito
Se a primeira definição do pensamento pela pretendida essência é inadequada ao começo, resta examinar a segunda, que enumera os modos, perguntando se a pluralidade das modalidades fundamentais do pensamento obriga a conceber sua unidade na essência do entendimento
Concretamente pergunta-se se as experiências vividas do sentir e da imaginação são homogêneas à intuição intelectual das naturezas simples, o que
Descartes parece resolver ao supor que sentido e imaginação intervêm no pensamento apenas acidentalmente, por determinação do corpo em razão da união, como confirmam as declarações da Sexta Meditação sobre poder-se pensar sem imaginar nem sentir
A problemática da Segunda Meditação, porém, desenvolve-se inteiramente dentro de uma atitude de redução que ignora o corpo, de modo que sentido e imaginação devem ser exibidos, em sua fenomenalidade própria, como pertencentes ao pensamento sem que se possa explicá-los por uma determinação corporal transcendente ao fenômeno
A segunda definição da pensée pelos modos não se opõe senão aparentemente à primeira, pois esta procede da redução, que suprime o corpo e com ele o sentir e a imaginação como faculdades psico-empíricas, ao passo que, dentro do campo puro do aparecer, esses mesmos modos são promovidos à condição de fenômenos absolutos
Interrogados em seu conteúdo fenomenológico intrínseco dentro da redução, sentido e imaginação, tomados como pensamento de sentir e pensamento de imaginar, opõem-se ao entendimento menos fortemente do que parece, na medida em que oferecem seu objeto no espaço de um ver e por meio dessa sorte de intelecção que os torna espécies de pensamentos
Como o próprio ver caiu sob o golpe da redução, não é enquanto fundados nele que sentido e imaginação podem figurar como modos absolutamente certos na segunda definição, sendo antes a semblance mais originária do videor, e não o videre, que determina sua inerência ao pensamento, como se verá no exame da vontade, citada cinco vezes na segunda definição
Todo o cartesianismo formula a diferenciação entre entendimento e vontade, mas o reconhecimento do aparecer em sua fulguração inicial se dá no cogito a partir da própria vontade, cuja dúvida hiperbólica é modalidade de uma vontade infinita capaz de querer que o verdadeiro seja falso, sem que o entendimento intervenha nesse processo
A vontade, porém, deve também se revelar a si mesma para ser algo, o que a torna, apesar de sua infinitude, um modo do pensamento, paradoxo característico do cartesianismo segundo o qual a vontade infinita é simples modo de uma essência finita, paradoxo que se resolve na consideração de que o próprio horizonte da visibilidade ekstática é finito
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a finitude do entendimento não é afirmação doutrinal mas remete ao aparecer identificado ao entendimento e residente nele
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toda a método cartesiano descreve as condições e os avatares em que se perde esse entendimento por se mover dentro de um horizonte essencialmente finito, capaz de perceber apenas uma coisa de cada vez
Todos esses expedientes metodológicos remetem a uma situação fenomenológica irredutível, na qual cada novo conteúdo de experiência só se oferece à luz do ver quando o que o precede lhe sacrifica sua própria presença, de modo que a natureza simples cartesiana, longe de ser um objeto fechado, é de infinita riqueza e nunca inteiramente clara nem distinta, como
Descartes reconhece na Regula XII ao afirmar que não se concebe distintamente o número sete sem nele encerrar confusamente o três e o quatro
É porque a vontade se recusa a entregar seu ser essencial sob a forma de um aspecto oferecido a um ver que ela só é possível e infinita como potência, experimentada apenas na prova muda de si mesma e em sua paixão, exclusão explícita do corpo que descarta qualquer explicação corporal para a afetividade dessa apercepção primordial
Surge então em plena luz aquilo que é essa paixão que permite à vontade revelar-se a si mesma de um só golpe em sua infinitude, a saber, o pensamento em sua essência mais originária, não o videre finito do entendimento mas a primeira semblance do videor, essa apercepção original que funda a inerência de todos os modos, sentido, imaginação, vontade e sentimento, a uma mesma essência
Que a regressão ao primeiro aparecer se tenha dado no cogito não a partir de um modo específico do pensamento, o entendimento, mas pela exclusão deste, mediante o ato obscuro de uma vontade infinita, deveria fazer pensar que o pensamento mais inicial entrevisto por
Descartes nada tinha a ver com aquele que viria a guiar a cultura moderna, merecendo antes o nome de alma ou de vida, ainda que o próprio cartesianismo não tenha sabido se manter nessa crista estreita das significações originárias, sendo seu declínio, e não sua origem, o que convém interrogar para compreender o mundo contemporâneo