Quando
Freud declara que o sonho tem um sentido, quer dizer outra coisa: que um conteúdo onírico é produzido por uma tendência inconsciente, não havendo aí significação nem consciência significante, nenhum sentido no sentido linguístico, sendo a relação entre esse conteúdo e a tendência que o produz uma relação de indício, não de significação intencional
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cita-se
Freud tratando dos fenômenos psíquicos como índices de um jogo de forças que se cumpre na alma
O renversement das posições clássicas está consumado: o fenômeno é ainda conteúdo representativo, mas o poder que o produz já não é o poder da representação nem da consciência, abrindo a afirmação de que tudo tem um sentido, ao contrário do que geralmente se supõe, o domínio onde já não há intencionalidade nem sentido linguístico algum
A inflexão do conceito freudiano de inconsciente rumo ao domínio invisível da vida se vê na Nota de 1912, onde a prova da latência cede lugar a outra consideração: a eficiência das ideias inconscientes durante seu próprio estado de inconsciência, atestada pelos sintomas neuróticos que, embora não se mostrem eles mesmos, são manifestação imediata de uma atividade inconsciente
Deficiências normais e sintomas neuróticos revelam fenômeno absolutamente geral: a determinação principial de tudo o que vem à condição de ser-representado por um poder que nunca advém a essa condição, correspondendo o caráter dinâmico do inconsciente eficiente ao reporte deliberado da força e da potência para fora do campo da representabilidade
A mutação do inconsciente freudiano, deixando de designar a negação vazia da qualidade consciente para tomar a cargo o dinamismo da psique, o sistema ics, não marca tanto a queda de seu conceito no ôntico quanto revela, sob sua facticidade aparente, o que inconsciência significa quando visa a própria possibilidade da ação, a essência originária do ser enquanto vida
A dificuldade de o pensamento escapar ao poder da representidade se vê no artigo sobre O inconsciente de 1915, onde a pulsão, mal reconhecida como o outro absoluto da representação, é reintegrada ao campo desta por meio de seu representante psíquico, ele mesmo compreendido à imagem da própria representação
A pulsão só adquire existência psíquica enquanto esse representante, revestindo o modo de ser de apresentar algo diferente de si, a própria representação enquanto tal, notando os comentadores a ambiguidade do conceito de pulsão que designa tanto o que é apresentado quanto quem realiza essa apresentação
Há razão para essa equivocidade que toda problemática radical deve desvendar: a impotência do pensamento de captar em si mesma atividade, potência e força, substituindo-lhes sua essência própria a da representação assim que devem ser consideradas como psíquicas, nascendo o conceito aberrante de representação inconsciente
Nesse conceito se juntam dois erros maiores do freudismo: primeiro imaginar que há representações inconscientes porque há lembranças em que não pensamos atualmente ou representações recalcadas, como se essas representações existissem independentemente do ato que as forma, de sua realidade formal
Segundo, a pulsão que significa primeiramente a não-representabilidade — nunca podendo se tornar objeto da consciência — só existe psiquicamente através de seu representante, que é uma representação, existindo portanto a não-representabilidade apenas sob a forma da representabilidade, contradição contida no texto-chave freudiano segundo o qual mesmo no inconsciente a pulsão só pode ser representada pela representação
Freud queria preservar a especificidade do psíquico contra toda redução físico-biológica, mas essa é sua maior ilusão, pois sendo a pulsão psiquicamente apenas o representante de processos somáticos e energias físicas, seu ser psíquico não passa de representante de outra coisa, tendo o psíquico apenas pseudo-autonomia
Na medida em que esse ser psíquico é compreendido como representante segundo o modelo da representação, adquire secreta afinidade com a consciência representativa, podendo assim se transformar nela, escapando
Freud ao biológico apenas ao reduzir o psíquico ao extático, fundando sua metodo na semelhança dos processos inconscientes com os conscientes
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cita-se a afirmação de
Freud de que os estados latentes só se distinguem dos conscientes por lhes faltar precisamente a consciência
A essência originária da Psique é assim falhada duas vezes, reduzida primeiro à realidade física e depois à consciência representativa, sendo essa segunda redução que governa toda a análise, repousando a ponte lançada pelo representante entre processos materiais e consciência sobre a identidade secreta de que o ser desses processos materiais não é senão o ser-representado, isto é, a própria consciência
A afinidade entre ser material e consciência acarreta múltiplas consequências: primeiro que o devir-consciente recebe o sentido de uma realização, definindo-se assim força, energia e atividade, cuja possibilidade interior residia na imanência radical do inconsciente freudiano primitivo, ao contrário conforme a tradição, por um processo de exteriorização
Aprofundando o conceito de inconsciente,
Freud falava de pensamentos inconscientes eficientes que o determinam em seu fundo como Energia, tendendo tais pensamentos, enquanto eficientes, à sua realização, sendo esse processo de exteriorização como tal que constitui a eficiência mesma
A intuição enterrada no cerne do freudismo de que toda vida é infelicidade se explica pela ideia de que o aquém-do-mundo, o inconsciente como tal, está separado da realidade e é assim desejo sem fim, reencontrando
Freud, para além de
Nietzsche,
Schopenhauer
A redução dos modos fundamentais do agir eficaz ao processo de exteriorização da representação leva a uma teoria representativa e no limite fantasmática do desejo, cujo equívoco importa denunciar: embora o desejo se acompanhe de cortejo de representações, sua essência não é a delas
Assim o desejo, que não é senão a própria necessidade despertando e se cumprindo como movimento do corpo original, na esfera de imanência da subjetividade absoluta, vê seu ser e sua história modificados fundamentalmente, tornando-se história de representações, o retorno de uma lembrança
Com esse deslocamento pelo qual a pulsão de um desejo, movimento real, se transforma em movimento de representações, reconstrói-se a situação historial já denunciada em
Leibniz, produzindo-se em
Freud consequência específica: o hiperdesenvolvimento do imaginário e do universo fantasmático
Resta o essencial do pensamento de
Freud: o representante da pulsão não é apenas a representação, é também o afeto, sendo nesse encontro com o fundo do inconsciente e da vida que a psicanálise nos revela seu segredo, vacilando aqui a primeira de suas pressuposições, a dissociação entre Psique e fenomenalidade
O afeto não é apenas representante da pulsão ao lado da representação, constitui na verdade seu fundamento, estabelecendo as grandes análises da doutrina — recalque, destino das pulsões, histeria, a própria cura psicanalítica — esse primado, implicando que só o destino do afeto importa verdadeiramente
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cita-se a afirmação categórica de que é da essência de um sentimento ser percebido, ser conhecido pela consciência, e que uma representação pode existir mesmo sem ser percebida, ao passo que o sentimento consiste na própria percepção
O embaraço que envolve tais afirmações numa filosofia do inconsciente se manifesta nas passagens sobre sentimentos inconscientes de culpa ou angústia, vendo
Freud nessas expressões mera impropriedade de linguagem, sendo a representação associada ao sentimento, e não este, que é ou pode ser inconsciente
No processo de recalque o sentimento nunca deixou de ser conhecido, tendo apenas seu sentido, a representação a que estava ligado, sido desconhecido, ligando-se então a outra representação e sendo tomado pela consciência como manifestação desta última
Diante da questão-limite de saber se o próprio afeto pode ser recalcado e tornar-se inconsciente,
Freud responde citando processo distinto daquele pelo qual o consciente se torna inconsciente, descrevendo antes o processo da própria afetividade que, não cessando de se auto-afetar, se transforma segundo as modalidades prescritas por sua essência
O aporte decisivo de
Freud consiste em pôr em primeiro plano a angústia: quando a representação ligada ao afeto é recalcada, este não é suprimido mas modificado qualitativamente, e quando essas tonalidades por sua vez são recalcadas, é em angústia que se transformam
Que a angústia seja assim como a moeda corrente da vida, o lugar comum de passagem de todos os afetos, é o que a análise das psiconeuroses declara explicitamente, sendo preciso porém afastar uma objeção antes de aprofundar esse fenômeno crucial
Sendo o afeto também mero representante da pulsão, não seria ele, como a representação, algo de segundo, transcrição de algo que permanece em si estranho a toda manifestação? A pulsão, por sua vez, é representante das múltiplas excitações que assaltam a Psique, retomando aqui o esquema do Projeto de 1895, nunca abandonado
Tal esquema marca o ponto extremo da alienação do pensamento da existência ao impor a interpretação desta a partir do modelo físico de um sistema energético regido pela entropia, mas na medida em que esse modelo pretensamente científico é tradução inconsciente da própria vida fenomenológica absoluta, ele a ilumina em vez de determiná-la
O sistema nervoso ou organismo se determina em seu ser pela capacidade de receber duas espécies de excitações, exteriores e endógenas, sendo essa dupla capacidade a inscrição orgânica de dupla receptividade ontológica: a receptividade transcendental ao mundo, na ek-stase, e a autorreceptividade da subjetividade absoluta enquanto vivente
Os traços psico-biológicos atribuídos pelo Projeto aos sistemas φ e Ψ são tradução grosseiramente realista, na linguagem da ciência, das estruturas que determinam a possibilidade da experiência em geral, sendo o ponto essencial que a excitação pulsional, vinda do interior do próprio organismo, é constante e inescapável
Essa constância da excitação, isto é, da afeição, a impossibilidade de lhe escapar ou de tomar distância a seu respeito, qualifica nada menos que a subjetividade absoluta, sendo essa afeição imanente de si por si a essência da ipseidade e, portanto, o eu
Pulsão designa em
Freud o fato de se auto-impressionar a si mesmo sem jamais poder escapar de si, sendo essa auto-impressão efetiva o peso e a carga de si mesmo, sendo a necessidade o que se encontra nessa condição de não poder se desfazer de si
Segundo o Projeto, o sistema de neurônios investido de energia tende a se livrar dessas quantidades para voltar ao estado zero, princípio de inércia realizável para excitações exógenas mas não para as endógenas, constantes e impossíveis de afastar, existindo assim um eu perpetuamente investido em que a auto-afeição nunca cessa
O princípio de inércia se transforma em princípio de constância porque há uma energia inalienável que o sistema não pode eliminar totalmente, camuflando a linguagem mítica da ciência de 1895 a estrutura da subjetividade absoluta, sendo o sistema Ψ a imagem da essência originária da Psique
Segundo o esquema explicativo, são as quantidades de energia que determinam as tonalidades afetivas via princípio de constância, mas nada sabemos dessas quantidades supostas, partindo-se sempre, na realidade, do prazer e do movimento em direção a ele, sendo o princípio de prazer fenomenológico e sua explicação pelo princípio de constância mera hipótese acrescentada
Do mesmo modo o recalque não é dirigido por fuga diante do aumento de excitação mas diante do desprazer atualmente experimentado, propondo-se assim como processo imanente à vida fenomenológica e idêntico a ela
A interferência entre discurso científico e discurso fenomenológico se exprime na denominação estranha da afetividade sob o título de quantum de afeto, quantidade que não visa senão um trop, uma carga demasiado pesada, o próprio afeto enquanto carregado de si e não podendo escapar de si, sendo a descarga neuronal transposição imaginária dessa essência da vida em sua passividade insuperável a respeito de si
Há leitura superficial do freudismo que reduz a angústia a mera reprodução do traumatismo do nascimento, mas essa angústia infantil constitui na verdade o modelo ou protótipo da angústia verdadeira, sua essência, não sendo angústia diante de perigo exterior real mas diante da pulsão, excitação endógena, a própria vida
A angústia diante da pulsão não é angústia diante de algo que se possa fugir, sendo antes fuga diante de si mesma, na qual não há devant algum mas a impossibilidade principial de desdobrar qualquer distância, sendo a angústia o sentimento de não poder escapar a si daquilo que se constitui em sua essência por essa impossibilidade
A angústia é o sentimento do ser enquanto vida, o sentimento do Si: em termos freudianos a vida é a pulsão, a libido, e a angústia é o sentimento da libido, a prova que ela faz de si mesma acossada a si, incapaz de romper o vínculo que a liga a si mesma
Não é a libido mas mais precisamente a libido não empregada que provoca a angústia, sendo a angústia infantil semelhante à angústia neurótica dos adultos por ambas nascerem de uma libido não empregada, o menor perigo exterior substituindo as exigências dessa libido
Uma libido recalcada não fica fora de jogo mas tem sua prova de si levada ao extremo, até se tornar insuportável, sendo a angústia, nessa sofrimento crescente, o sentimento mesmo de não poder escapar a si
Na medida em que uma libido acumulada e não empregada se dá a sentir em todas as partes de seu ser a ponto de não poder mais se suportar, ela não é senão a vida, sendo assim o cumprimento da libido, buscado na liquidação das energias investidas rumo ao estado zero, apenas a liquidação da própria vida
O freudismo é o último marco dessa história que, contestando a definição do homem pelo pensamento, descobre em seu mais profundo a vida, mas não a tomou em conta senão para liquidá-la, revelando-se aqui a significação da entropia do esquema especulativo inicial do Projeto
Enquanto representante de um sistema energético que tende à abolição das quantidades que o constituem, a vida não é senão o movimento dessa autodestruição, o esforço rumo à própria morte, traindo esse movimento as determinações afetivas mais profundas da vida fenomenológica
Além do princípio de prazer introduziu pulsão mais profunda, a pulsão de morte, tendência inerente a todo organismo vivo de restabelecer estado anterior, sendo esse rodeio pela compulsão de repetição desnecessário se a pulsão de morte apenas reafirma os pressupostos que sempre guiaram a doutrina, dando as mãos Além do princípio de prazer e o Projeto de 1895
Contra a morte resta Eros, cuja função é preservar a coesão de tudo que vive, mantendo a vida por meio do aumento das energias investidas, numa espécie de revolta contra a própria lei entrópica, opondo-se assim Eros ao prazer cúmplice da morte
Dessas contradições enormes
Freud não se dá conta, articulando sem transição a celebração de Eros com a repetição obsessiva do princípio entrópico, associando a renovação da vida por afluxo de novas excitações à hipótese de que o processo vital tende internamente à morte
Além dessas contradições e oscilações, o que se mantém e desenvolve sua essência não é senão a vida, capaz mesmo em sua penúria de fazer mais fortemente a prova de seu ser, embriagar-se e gozar de si, sendo o prazer de morrer contradição nos termos por ser forma da vida e a ela pertencer
Freud apreendeu da vida apenas seu fundo obscuro, o lugar das primeiras angústias onde, acossada a si, ela só pensa em fugir, seguindo-a até o fim nesse caminho de liquidação de si sem reconhecer nela senão o rosto atroz da pulsão de morte, já presente no Projeto de 95
Não viu o sentido desses começos difíceis: que a dor pertence à edificação interior do ser e o constitui, que esse nascimento é transcendental, que o insuportável é indissociável da embriaguez e a ela conduz
Resumindo: o inconsciente não existe, se descontarmos que quase todo representado se encontra excluído da representação, sem por isso subsistir sob forma de representações inconscientes, entidades para as quais o freudismo imaginou destinos fantásticos
Quanto ao inconsciente que designa a vida, não se pode reduzi-lo à negação vazia do conceito formal de fenomenalidade, sendo antes o parvir inicial em si do ser sob forma de afeto, seu próprio acréscimo de si, sendo as quantidades de excitação apenas expressão imagética energética do pathos fundamental dessa vida
Uma das intuições decisivas de
Freud, que o situa na linha de
Schopenhauer e
Nietzsche, é que esse pathos da vida determina sua representação e por consequência o recalque e o retorno do recalcado, aflorando esse primado da afetividade nos melhores textos sobre lembranças tenazes e sobre o afeto que renasce antes de seu conteúdo representativo
A própria cura não mostra que a representação, pelo analisado, de sua situação não serve de nada enquanto a condição dessa consciência, uma modificação da vida, não sobreveio? Que o inconsciente seja o lugar do primeiro aparecer como vida e afetividade, é o que
Freud reconhece sem querer ao explicar as concepções mitológicas e religiosas como projeção da realidade psíquica que supõe uma consciência obscura do que projeta
Essa percepção endopsíquica, esse conhecimento obscuro do inconsciente e sua afetividade fazem desmoronar todo o aparato dogmático do freudismo, designando-o como pensamento da vida incapaz de se igualar a seu próprio projeto
Uma determinação radicalmente fenomenológica da realidade psíquica, contudo, não deixa em suspenso dificuldades últimas?