Significativa é a circularidade pela qual quase todos os textos que afirmam a pertença da ek-sistência à verdade do ser lhe atribuem também a finalidade de tornar possível esse mesmo destino, como se a clareira do ser só se iluminasse na medida em que o homem nela ek-siste, jogado pelo ser para a guarda de sua verdade
Interroga-se então fenomenologicamente em que consiste a clareira do ser e o ek-sistir nela, sabendo-se já que a fenomenalidade do ek-sistir é idêntica à da clareira, sendo o ek-sistir um manter-se fora, na exterioridade que é a própria dimensão extática do ser, distinta do espaço comum
Se o ek-sistir se apoia na exterioridade da dimensão extática do ser, cabe perguntar como essa exterioridade mesma advém, pois ela não está simplesmente dada como a pedra ou a árvore, mas se exterioriza a si mesma no processo transcendental que a lança diante de si, naturante-naturada
Toda fenomenalidade efetiva abre a via de acesso a si mesma, o Aberto realizando a abertura pela qual conduz até si, e é nessa medida que o homem, conduzido pelo Aberto, ek-siste nele, como no exemplo do ser-no-mundo que nomeia a essência da ek-sistência a partir da dimensão clareada
O Aberto, porém, pressupõe sua Abertura prévia, não a que ele mesmo realiza ao se abrir ao homem, mas a que o torna possível, o processo transcendental que lança o próprio Aberto, a Exteriorização originária que desdobra a exterioridade como Dimensional extático do ser em que o homem poderá ek-sistir
A exterioridade em que se exterioriza a Exteriorização só se mantém como lugar da fenomenalidade extática enquanto o processo que a produz continua a se exteriorizar, retendo o que se afasta, sendo a receptividade do horizonte extático a condição sem a qual este não poderia ser visto nem se propor como horizonte de visibilidade
Que o homem pertença ao ser heideggeriano, jogado por ele na verdade do ser para vigiar essa verdade como o pastor do ser, significa que a verdade do ser não se ilumina nem subsiste por si mesma, mas precisa ser recebida e mantida no ato originário de sua exteriorização, sendo essa receptividade a própria condição transcendental de possibilidade dessa verdade
O homem realiza a guarda do ser não enquanto homem, enquanto ente, mas por sua essência enquanto ek-sistir, sendo um único Ek-sistir, o da Ek-stase mesma, que se lança no extático e nele chega ao se lançar, de modo que o homem não ek-siste senão sobre o fundo nele do processo do ser
Pergunta-se então como o próprio processo transcendental que lança o Aberto chega primeiro a si mesmo, no Ek-sistir, para ser o que é e fazer o que faz, questão que não pode ser respondida pelo homem enquanto ente, mas apenas pela auto-afeição, identidade do afetante e do afetado, essência da ipseidade e, como tal, do próprio homem
O homem diz Je não porque pode falar, mas fala porque diz Je sobre o fundo da essência da ipseidade nele, tomando naissance no ser à medida que este advém, pois o ser se determina cada vez como um ego ao se auto-afetar originariamente em seu auto-aparecer
Oferecem-se então à meditação as intuições cruciais do cartesianismo do começo, que, ignorando tudo do homem e não tendo em sua noite senão o aparecer-a-si do aparecer idêntico ao ser, formula ego cogito, ego sum, identidade em que o ser, realizando-se como pensamento, realiza-se também como ipseidade
É de meditar também que dessa conexão originária entre pensée e egoidade
Descartes tenha apenas declarado que nada há de mais evidente a partir do que possa ser explicada, pois tal conexão se estabelece num tempo anterior ao próprio nascimento da evidência, no seio do processo transcendental de exteriorização onde se produz a exterioridade
Esse inconsciente originário, que
Schelling designaria como tal, deve ser cuidadosamente distinguido daquele que pertence ao horizonte da ek-stase, sendo tal apenas aos olhos de uma filosofia que reduz a fenomenalidade ao mundo e à sua conhecimento e que, sendo naturante-naturada toda exterioridade, se contradiz ao ignorar que ela só se fenomenaliza se seu naturante for efetivo
Somente uma fenomenologia material, que interroga a substancialidade fenomenológica concreta a que os conceitos formais remetem, pode realizar a remontagem à dimensão inicial do começo, sendo a amphibologia dos conceitos-chave cartesianos a prova desse afastamento inicial da imanência radical do videor
A essa amphibologia se opõe a monotonia dos conceitos fundamentais da fenomenalidade heideggeriana, em que um único Fenômeno constitui a essência da dupla guarda entre ser e homem e assegura sua reversibilidade, sendo o ser ele mesmo esse rapport que porta a ek-sistência a si e a reconduz a si
Porque a essência fenomenológica do homem é a exterioridade, a mesma do ser, unívocos são os conceitos que a formulam, quaisquer que sejam as raízes etimológicas sobre as quais se constroem — abrigo, jointura, pertença, proveniência, vinda, destino, luz, olhar, abertura, visão, ser-e-aí, posição, verdade e guarda, reinado, mundo, jato, essência, relação, morada — remetendo todas a uma mesma referência fenomenológica
Tal monotonia possibilita a método dos deslizamentos insensíveis de sentido, já denunciada por
Marx contra Stirner, pela qual conceitos como ética e ontologia, ἦθος e νόμος, acabam por se confundir numa mesma injunção fundamental
Equívoca se revela, porém, a univocidade desse discurso, pois o aparecer a que ele se refere se divide estruturalmente segundo a materialidade fenomenológica de sua efetuação em dois modos heterogêneos, de modo que a abertura na clareira do ser não pode designar indistintamente o ek-sistir e a Unidade mais originária em que ele chega a si mesmo, essa dimensão sem luz onde nada ek-siste
A questão da inserção do ego cogito na história da metafísica ocidental só pode ser colocada em função dessa dicotomia essencial, pois reduzido a um je me représente o cogito se insere naturalmente nessa história ao dar ao homem a iniciativa que antes cabia ao Gegen grego, sendo a mesma, em ambos os casos, a luz da ek-stase
Heidegger esforçou-se por opor radicalmente a verdade cartesiana e a verdade grega através da distinção entre
Gegenstand e Gegenüber, entre objeto lançado pelo sujeito e presença que sobrevém ao homem que percebe, atitude que difere da escuta grega diante do que não emana mais do próprio homem
Mais decisiva que a atitude dos gregos ou dos modernos é a estrutura mesma dessa vinda, a essência da verdade do ser, pois enquanto pensada por meio de um Gegen que determina tanto o Gegenüber quanto o Gegenstand, a diferença entre eles permanece secundária, ambos portando em si o Mesmo
Reduzido ao je me représente, o cogito não apenas se insere na história da metafísica ocidental como lhe é homogêneo desde a φύσις, sendo o mesmo ser e a mesma verdade que se destinam a nós como φύσις, como ἰδέα e como cogito, fundando essa identidade de essência a afinidade secreta entre as diversas épocas do ser
Nos Tempos modernos, inaugurados pelo cogito, a obnubilação da verdade do ser atinge seu ponto extremo quando o homem, tornando-se Sujeito, se toma pelo ser, engano que procede não do homem mas do próprio ser, sendo essa a maneira como ele se destina nessa época
O homem é apenas um pretexto para a condição transcendental do ser interpretado a partir do Gegen, intervindo na história do ser, já na Grécia, não apenas como receptividade da ek-stase mas, mais ultimamente, como o ego — não o ego que se representa, mas a ipseidade pressuposta em toda representação e que a exclui insuperavelmente de si
Esse ego, porém, não se insere ele mesmo na história da metafísica ocidental nem na do ser, não advindo na época de
Descartes nem sendo declinação da ek-stase, mas estando presente antes dela, antes da Diferença, sendo o Começo que começa desde o começo e não cessa de começar, o aparecer inicial a si do aparecer, o vir invisível em si da vida