HENRY, Michel. Genealogia da psicanálise. O começo perdido. Tr. Rodrigo Vieira Marques. Curitiba: Editora UFPR, 2009
Que, na auto-afetação do espírito, o que importa — mais ainda do que a afetação pelo sujeito transcendental — é a capacidade do sentido interno de receber passivamente as impressões que o primeiro provoca nele, é algo que o próprio Kant percebeu, como demonstraram seus grandes comentaristas franceses, notadamente Jean Nabert em seu admirável texto sobre “A experiência interna em Kant” (na Rev. Métaphys. et Mor., edição especial sobre “Kant”, Paris, Armand Colin, 1924) e Pierre Lachieze-Rey em sua obra monumental sobre O idealismo kantiano (Paris, Alcan, 1931). É possível observar, de fato, o desenvolvimento no kantismo — e, em especial, em Übergang — de uma problemática que coloca em primeiro plano essa questão do ser-afetado do espírito e que consiste na teoria da autoposição, segundo a qual, para poder precisamente afetar a si mesmo, ou seja, ser afetado por sua própria atividade, o espírito se coloca, em primeiro lugar, como passivo, de modo a recolher, nesse eu passivo auto-posicionado, as impressões que provêm de seus próprios atos. “É preciso admitir”, escreve Lachièze-Rey, “que o eu está, em primeiro lugar, presente a si mesmo do lado do objeto determinável e não apenas do lado do sujeito determinante e da atividade formal; o eu se torna objeto; ele se apresenta como originalmente passivo, primeiro em relação a si mesmo e, em seguida, em relação às outras coisas que, no Uebergang, também aparecerão como estabelecidas por ele, de modo que acabará sendo considerado como recebendo impressões externamente e internamente. Essa auto-posição do eu como ponto de aplicação da Setzung e como objeto determinável subsistirá ao longo de todas as transformações que a consciência transcendental possa trazer à organização dos fenômenos do sentido interno, e é por isso que eles permanecerão sempre, na realidade, fenômenos do sentido interno”. “A posição de si, diz ainda o mesmo texto, precede necessariamente a posição em si ou relativamente a si » (op. cit., p. 174-175). Mas, como a Setzung permanece extática, como “o eu se torna objeto”, o eu auto-posicionado não passa de um conteúdo transcendente incapaz de receber em si mesmo a impressão nele provocada: inserida nele, essa impressão ainda se refere apenas a um termo ideal. Na realidade, a teoria da autoposição repete involuntariamente, entre o eu determinante e o eu determinável, a situação que existia na Crítica entre o eu transcendental e o sentido interno. Isso porque a interpretação da passividade do eu continua sendo determinada — e isso apesar das declarações expressas de Lachièze-Rey — pelas preocupações de uma filosofia essencialmente orientada para o conhecimento do objeto. Isso fica bem claro quando, ao interpretar o Uebergang, Lachièze-Rey afirma que, nessa obra, o eu substitui o Universo ou o objeto em geral como correlato da atividade espiritual e que, assim, torna-se “o imperativo do conhecimento” (op. cit., p. 166). Não se trata de um eu auto-estabelecido, cuja ipseidade é, ela própria, meramente ideal, mas apenas de uma subjetividade radicalmente imanente, suscetível de ser afetada, mas, antes de tudo, de ser um eu real.