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O cristianismo se concentra na relação da vida com o vivente, tanto em Deus quanto no homem, fornecendo a elucidação dessa vida, interpretada como Verdade, o antecedente indispensável à compreensão de seu ensinamento, que sem isso se reduz a proposições enigmáticas audíveis apenas para os “crentes”
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Segundo o cristianismo, não existe senão uma só Vida, essência agente e não imóvel, fonte de potência e engendramento imanente a tudo que vive, citando-se o Apóstolo: “Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, por meio de todos e em todos” (
Efésios 4:6)
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Distingue-se esse Deus único, não pensado pelo espírito, dos monoteísmos racionais que o concebem como o Ser infinito de Santo Anselmo ou o primeiro motor de
Aristóteles, sendo toda representação ou prova racional de sua existência absurda por princípio, pois provar é “fazer ver” no horizonte do mundo, onde a vida nunca se mostra
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Sendo Deus Vida, ausente do mundo e do campo mundano da biologia, coloca-se a questão de onde e como se tem acesso a ela, respondendo a fenomenologia da vida: na vida e pela Vida, sendo a própria Vida que chega a si, autorrevelação em que ela mesma realiza e é revelada
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O que chega à Vida é o vivente, apoiando-se sobre o próprio chegar da Vida a si, identificando-se com ele, sendo essa a autorrevelação da Vida idêntica à Revelação de Deus
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Deve-se afastar o conceito de ser da análise da vida, não empregando-se a palavra “ser” a seu respeito senão na linguagem dos homens, que é a do mundo: a vida não “é”, ela advém e não cessa de advir, seu eterno chegar a si sendo processo sem fim
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Nesse cumprimento eterno, a vida se lança em si, esmaga-se contra si, experimenta-se e frui de si, produzindo constantemente sua essência, engendrando-se continuamente a si mesma nessa autogeração sem fim
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Dessa vinda a si ao “experimentar-se a si mesmo” segue-se que essa fruição de si é a primeira forma de toda fenomenalidade concebível, revelando-se nela apenas ela mesma, sendo essa identidade entre experimentador e experimentado a essência original da Ipseidade
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Esse processo de autogeração é fenomenológico, impelindo-se a vida à fenomenalidade em forma de autorrevelação, sendo o pathos dessa fruição a fenomenalidade concreta segundo a qual o processo de autogeração se torna processo de autorrevelação, requerendo essa Ipseidade original
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Sendo esse processo efetivo, a Ipseidade que ele engendra é igualmente efetiva e singular, um Si que se estreita a si mesmo, não podendo a vida revelar-se senão gerando em si esse Si, sendo esse Si singular o Primeiro Vivente, engendrando o Pai eternamente em si o Filho como o modo mesmo de seu autocumprimento
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Sendo o Filho tão antigo quanto o Pai, chama-se a esse Filho Arqui-Filho, não o primeiro numa sequência mas Aquele que habita a Origem, sendo o modo segundo o qual essa autorrevelação se fenomenaliza a própria revelação de Deus, seu Logos — não o Logos grego mas o Logos da Vida, seu estreitamento patético
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Esse processo de autorrevelação engendrando o Primeiro Vivente enquanto Arqui-Filho constitui o conceito de Arquinascimento, nascimento contemporâneo do surgimento da própria vida, qualificado de “transcendental” para dissociá-lo de todo processo natural
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Explica-se que “nascer”, em sentido corrente, significa vir ao ser, transcrito fenomenologicamente como vir ao mundo, mas o cristianismo rompe totalmente com essa concepção: no mundo nenhum nascimento é possível, apenas aparecimentos e desaparecimentos metafóricos, sendo vir ao mundo estranho ao viver da vida, propondo-se um vivente reduzido ao que nele se exibe como um cadáver, corpo reduzido à sua exterioridade pura
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Nascer não é vir ao mundo, é vir à vida, o que significa vir dela e a partir dela, sendo a vida não o ponto de chegada mas o ponto de partida do nascimento, respondendo a teoria da geração do Primeiro Vivente à questão de como a vida engendra em si o vivente: a Vida absoluta se experimenta numa Ipseidade que é um Si singular, sendo o Vivente o Único e o Primeiro, “Aquele”, como diz João
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Retornando ao “conteúdo” do cristianismo, observa-se que ele não se reduz à existência mundana de Cristo, história extraordinária mas quase sem menção nos historiadores da época, contradição entre seu caráter estupefaciente e os poucos vestígios deixados na verdade do mundo
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Estranho à história, o conteúdo do cristianismo consiste numa rede de relações transcendentais e invisíveis: entre a Vida absoluta e o Primeiro Vivente (Pai e Filho), entre a Vida absoluta e todos os viventes (Pai e filhos), entre o Filho e os filhos, e entre os filhos entre si (intersubjetividade), apresentando todas o traço comum de serem não intencionais, pondo a Vida em jogo
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Distingue-se essa relação fundada na Vida de uma relação no sentido corrente, cuja possibilidade última é o “fora de si” espacial, temporal ou ideal, ao passo que uma fruição que se experimenta a si mesma não aparece em nenhum mundo, sendo a vida um processo que gera em si todos os seus próprios “termos”
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Trata-se agora precisamente da geração do Primeiro Vivente, relação Pai/Filho, cerne mais essencial do cristianismo e objeto do discurso constante de Cristo sobre si mesmo, consistindo a salvação em “crer” nesse discurso, tornando-se consubstancial a ele na Verdade da Vida
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Coloca-se a questão de quem faz esse discurso e com que direito, citando-se o interrogatório dos sacerdotes a Cristo sobre sua autoridade (
Marcos 11:27-33), a esquiva de Cristo, e as perguntas recorrentes “Quem pretendes ser?” (
João 8:53) e “De onde és tu?” (
João 19:9)
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Do ponto de vista do mundo, a condenação de Cristo é compreensível e legítima, pois suas afirmações sobre si mesmo — ter nascido antes de Abraão, perdoar pecados, nunca morrer, identificar-se com Deus — desafiam as próprias estruturas fenomenológicas do mundo, sua temporalidade e irreversibilidade
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Respondendo quem é aquele cujas palavras permanecem inconcebíveis sob a luz do mundo, afirma-se que apenas sua condição de Arqui-Filho transcendental legitima tais asserções, sendo sua autodesignação como Filho de Deus mera transcrição de sua condição
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Elencam-se as tautologias fundamentais como implicações decisivas: “Nasci” (
João 18:37), situando o Aparecimento original na verdade da vida; “Saí de Deus e dele venho” (
João 8:42), afirmação reiterada com afinco
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Cita-se a polêmica com os fariseus sobre o cego de nascença curado — “Se esse homem não viesse de Deus, nada poderia fazer” (
João 9:29-30) —, e o leitmotiv da oração final sobre ter sido enviado pelo Pai (
João 17:21-25)
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Coloca-se a questão central do testemunho: quem testemunha a favor de Cristo, já que ele mesmo declara não depender de testemunho humano (
João 5:34), invocando-se o testemunho de João Batista (
João 1:32-34) e a acusação de dar testemunho de si mesmo
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A resposta de Cristo é dupla: primeiro reconhece que seu próprio testemunho não seria válido (
João 5:31), remetendo ao testemunho do Pai (
João 5:37); mas como reconhecer esse testemunho sem conhecer a Deus, acusa Cristo seus contraditores de jamais terem ouvido sua voz (
João 5:37-38)
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Conclui-se que só Cristo pode testemunhar sobre si mesmo, não enquanto homem mas enquanto sabe de onde veio, sendo seu testemunho válido “porque sei de onde venho e para onde vou” (
João 8:14), estruturando-se esse testemunho de modo triplo: provindo do Arqui-Filho, dado sobre o Arqui-Filho, possível por essa condição
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“Testemunho” no contexto joanino equivale a “verdade”, sendo dar testemunho da verdade a própria Verdade que testemunha de si mesma enquanto Vida e autorrevelação, citando-se: “Nasci… para dar testemunho da verdade” (
João 18:37)
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Sendo a geração do Primeiro Vivente idêntica à autogeração da própria Vida absoluta, a relação Pai/Filho define-se com rigor absoluto como relação de interioridade recíproca, não se revelando o Filho senão na autorrevelação do Pai e vice-versa, sendo o monoteísmo abstrato uma religião ingênua do entendimento diante dessa unidade inconcebível da Vida
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Sendo essa interioridade recíproca fenomenológica, pode dizer-se em termos de “conhecimento”: “Não conheceis nem a mim nem a meu Pai; se me conhecêsseis, conheceríeis também meu Pai” (
João 8:19), citando-se ainda passagens sobre só se poder ir ao Filho pelo Pai e por sua vontade (
João 6:37.44.65)
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Não sendo essas declarações ocasionais, uma razão apodictica prescreve que o caminho até Cristo só pode ser a repetição de seu Arquinascimento transcendental no seio do Pai, encerrando-se com a pergunta a ser respondida por uma fenomenologia de Cristo: mas não veio ele realmente a este mundo para salvá-lo, fazendo-o conhecer a Deus?