Essa interrogação atinge a própria intencionalidade, pois remeter sua autorrevelação a uma segunda intencionalidade envolveria regressão ao infinito, havendo textos raros e lacônicos de
Husserl segundo os quais a própria consciência intencional seria em si mesma uma impressão, uma consciência impressional, autoimpressionando-se de modo a revelar-se a si mesma
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cita-se
Husserl: “A consciência que julga um estado de coisa matemática é impressão”, e “A crença é crença atual, é impressão”, devendo-se distinguir a crença em si mesma da crença apreendida objetivamente como “meu estado, meu juízo”
Tais indicações, capazes de pôr em causa o primado do phainomenon grego, permanecem sem contexto, produzindo-se rápido deslocamento: a hylé, matéria da consciência, deixa de ser compreendida como fenomenológica em si mesma, superpondo-se o esquema segundo o qual uma matéria só é matéria para uma forma que a in-forma e lhe dá o aparecer, sendo essa forma, para
Husserl, a intencionalidade
Fecha-se assim o círculo do qual a fenomenologia husserliana não sairá: quanto à questão de como a intencionalidade se revela a si mesma, algumas passagens apelam à impressão, mas é à intencionalidade, atravessando-a com seu olhar, que a impressão deve agora poder mostrar-se
Cita-se
Husserl sobre o vivido incluir tanto os momentos hiléticos quanto as apreensões que os animam, constituindo juntos “o aparecer da cor”, decompondo-se imediatamente essa totalidade em elemento que detém o poder de aparecer e elemento dele desprovido, repousando secretamente a oposição clássica forma/matéria sobre o conceito grego de phainomenon
Quando o poder de aparecer passa da impressão à intencionalidade, ocorre outro deslocamento decisivo: a impressão já não se revela em si mesma mas é arrancada de seu lugar original e lançada sobre o objeto, mostrando-se como uma de suas qualidades, “uma qualidade sensível do objeto”
Nasce assim a grande ilusão dupla do “mundo sensível”: primeiro, crer que a verdade impressional se encontra efetivamente no mundo como qualidade objetiva do objeto; segundo, atribuir ao aparecer do mundo a revelação original da impressão, sendo este investido sub-repticiamente de poder que não tem, enquanto se oculta a revelação própria da impressão, tendendo a apagar-se a distinção husserliana entre Empfindungsfarbe e noematische Farbe
Pergunta-se, contudo, como conceber uma cor exibida sobre o objeto sem impressão de cor original, ou sonoridades de instrumentos que não fossem antes puras “sonoridades interiores”, sendo o objeto do mundo, incapaz de sentir a si mesmo, incapaz para sempre de portar tais impressões, exemplificando-se com a parede bege ou cinza que não é mais bege ou cinza do que poderia ser “quente” ou “dolorosa”, não podendo pedir água ao ser tomada de “onda de calor”
Coloca-se o princípio do absurdo a investigar radicalmente: entregue ao aparecer do mundo como qualidade do objeto, a impressão não é apenas arrancada de seu lugar original mas simplesmente destruída, pois não há impressão possível sem que ela se toque a si em cada ponto de seu ser, autoimpressionando-se, não advindo no fora de si do aparecer do mundo, em sua exterioridade pura, nenhuma impressionalidade desse gênero, nem, por conseguinte, nenhuma impressão