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Assiste-se hoje, ao menos na Europa, ao desmoronamento simultâneo dos regimes ditos socialistas, fenômeno que se estende como um maremoto e cujo caráter irresistível e universal, dominando as diversidades nacionais e históricas, exige uma explicação metafísica e não meramente empírica: uma fraqueza ou vício intrínseco do próprio socialismo
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Poder-se-ia interpretar essa estranha convergência dos movimentos revolucionários de Varsóvia, Leipzig, Budapeste, Praga e Bucareste, que atinge a própria URSS sob forma de reivindicações nacionalistas, por considerações mais precisas, notando-se a analogia entre os grandes ajuntamentos populares e a autocrítica sem precedentes dos partidos comunistas no poder, que decidem transformar-se ou suprimir-se a si mesmos
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Diz-se que o comunismo é levado por uma onda de fundo e, incapaz de controlar o movimento popular, opta por se juntar a ele, explicação que suscita dúvida, pois a vontade de se livrar do regime existia desde sua instauração, apenas reprimida pela prisão ou a morte, não coexistindo multidões e exércitos senão quando já selado, tácita ou não, um pacto
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Pergunta-se por que o exército recebeu ordem de permanecer nos quartéis ou fraternizar com a multidão, por que esta foi autorizada a manifestar-se, e por que os próprios dirigentes do partido dogmático correm a se juntar à multidão que oprimiram por meio século
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Impõe-se aqui a hipótese do Plano: especialista em planos quinquenais que não produzem pão mas miséria, o regime, tomando consciência de sua própria falência, não tem outra saída senão o apelo ao socorro de um vizinho mais próspero, tendo o grande giro da política soviética ocorrido quando os que detinham resquício de poder decidiram voltar-se para o Ocidente
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Segue-se a análise de Alain Besançon: sob o impulso de Andropov, o KGB, único corpo são e organizado da nação, abre institutos para conhecer as metodologias ocidentais, mas essa espionagem sistemática não basta, pois a corrupção interna, com o roubo cotidiano de peças e instrumentos de produção, paralisa definitivamente a economia, exigindo ajuda externa completa que muda não só o regime mas os homens
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Essa ajuda maciça tem condição política: falar a nova língua da democracia, o que explica a encenação formidável assistida pelos telespectadores ocidentais, esse retorno fulminante da verdade aos lugares onde havia perecido
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A primeira reaparição da democracia são os grandes ajuntamentos onde o “povo”, que nunca teve rosto, finalmente aparece, com números crescentes exibidos diariamente pelos meios de comunicação
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A primeira reivindicação democrática, o pluralismo e o fim do partido único, é reclamada pelo próprio partido único, reconhecendo-se sob bandeiras novas os rostos sinistros dos que pisaram a liberdade por décadas, sendo a eliminação dos chefes históricos, sob forma de aposentadoria ou processo, uma regra permanente desses regimes, uma purga estalinista
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Impõem-se algumas evidências: primeiro, que o grande chambardement “democrático” foi decidido pelo próprio partido, sem que isso negue o profundo descontentamento popular desde a instauração do regime comunista, imposto por violência política constitutiva do fascismo, devendo-se reconhecer que as democracias populares eram regimes fascistas fundados na usurpação da vontade individual e na coerção física
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Esse vasto descontentamento não teria licença de se manifestar se os dirigentes não o tivessem decidido, sendo extraordinário êxito da manobra política que o partido que instaurou o mais terrível dos regimes apareça hoje como a grande força inovadora da época
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Segundo, a mascarada democrática não é isenta de inconvenientes para o regime totalitário, arriscando perder colônias e despertar nacionalidades, sendo pois a necessidade mais dura, a falência econômica do campo socialista, que obriga a jogar a carta da abertura ao Ocidente, colocando-se então a questão central deste ensaio: qual a causa da falência econômica do socialismo?
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Essa falência tem alcance universal, afetando milhões de homens e mulheres que se levantaram não para votar a cada quatro anos mas para viver e pôr fim ao sofrimento, sendo o Ocidente, aos seus olhos, apenas a imagem de uma felicidade imediata, já batizada nas ruas de Budapeste com o nome do McDonald's
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Reconhecer o fracasso universal do comunismo implica denunciar mentiras consubstanciais a ele, a primeira sendo a negação pura e simples do fracasso, tese sustentada por meio século pela quase totalidade dos “intelectuais” franceses, com
Sartre à frente, tendo o cúmulo da infâmia sido atingido no Congresso da Mutualité de 1935, quando toda a intelligentsia parisiense, com Gide à frente, prestou solene juramento a Stalin
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Uma mentira tão descarada exige formulações mais sutis: as “dificuldades” seriam “desvios” e não o próprio regime, atribuindo-se à loucura assassina de Stalin o que na verdade são princípios explícitos do marxismo aplicados por Lênin, o próprio instaurador do gulag, e retomados por Stálin e seus sucessores até Ceaușescu
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Mais grave ainda: a razão da falência universal do comunismo não é apenas nem primeiramente de ordem econômica, devendo-se afastar a interpretação corrente segundo a qual um fracasso econômico só poderia ter causas econômicas, atribuindo-se então o fracasso ao desconhecimento das leis próprias da realidade econômica, como a relação entre salário e competência, ou as leis da oferta e da demanda
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O liberalismo hoje pregado, validado pelo colapso generalizado dos regimes socialistas, já não é o liberalismo selvagem do século XIX com seu cortejo de misérias e trabalho infantil, mas um neocapitalismo caracterizado pela ação contínua do poder político sobre os negócios econômicos a fim de assegurar sua boa marcha
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Todas essas intervenções, porém, só se entendem em relação a uma realidade que as precede, implicando o liberalismo econômico, em suas formas modernas como “liberdade de empresa” ou “economia de mercado”, a convicção de que existe uma realidade econômica autônoma com regulações próprias, agindo o economista como o médico diante do organismo do paciente, intervindo o mínimo possível
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Descobre-se aqui em toda sua amplitude o projeto socialista, cujo fracasso concerne não apenas a um regime econômico mas ao próprio homem em sua liberdade, pois o socialismo jamais considerou a realidade econômica como ultimamente independente do homem e de suas decisões
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Ilustra-se essa contradição da realidade econômica: um ano fértil arruína os camponeses pela queda dos preços, e o extraordinário surto industrial estimulado pelo progresso técnico produz não riqueza mas crise, com mercadorias em quantidade diante de quem as deseja sem poder adquiri-las, pois quem as produziu não pode comprá-las
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O socialismo foi a afirmação metafísica de que essa realidade econômica poderia ser dissolvida pelo pensamento, decomposta por análise e reconstruída de modo a fazer da economia fonte de prosperidade, tendo sido esse projeto grandioso a afirmação exemplar da liberdade humana capaz de dominar, em vez de sofrer, os processos de produção, sendo o fracasso do socialismo o fracasso do próprio pensamento em sua pretensão de organizar racionalmente a existência dos homens, colocando em causa a humanitas do homem
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A menos que se formule a questão de modo mais preciso, perguntando-se qual pensamento específico, e não o pensamento como tal, é responsável pela falência: a resposta é o marxismo, conjunto coerente de teorias que conduziu à catástrofe econômica hoje visível de Pequim a Bucareste, de Phnom Penh a Budapeste, produzindo as mesmas consequências ruinosas para tudo o que aspira ao livre desenvolvimento de si e à felicidade, para tudo o que é vivo
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Propõe-se reconhecer no marxismo, como princípio da falência econômica do comunismo, o rebaixamento do indivíduo e sua substituição por abstrações — classe, partido — incapazes por natureza de produzir qualquer ação real, condenando ao dénuement todo regime fundado nessa abstração, sendo as consequências políticas desse rebaixamento a negação dos direitos humanos, a suspeita, o arbítrio, a deportação e a morte, o que aproxima o marxismo dos piores regimes de nosso tempo, sendo apenas uma variante do fascismo
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Seria fácil então preconizar o liberalismo, que apela ao indivíduo, à sua energia e à sua liberdade, perguntando-se se a “liberdade” da empresa não reproduz a liberdade do indivíduo, retirando dele todo seu dinamismo e vitalidade
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Tal empresa inscreve-se infelizmente num universo econômico que é primeiro o da economia mercantil e depois o do capitalismo, sendo a própria economia mercantil, tal como o marxismo, obra do pensamento, um pensamento arcaico que mata a vida e suas determinações vivas para lhes substituir uma constelação de abstrações mortas — o valor, o dinheiro, o capital, o lucro, o juro —, sendo outras leis, já não as da vida, que governam o mundo
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O capitalismo conserva relação essencial com a vida por fazer fundo sobre o indivíduo e seu trabalho, o que lhe valeu seus mais brilhantes êxitos, mas ao ser apresentado hoje como único recurso diante do colapso do socialismo, esquece-se que ele próprio agoniza, pois o evento decisivo ainda mascarado de nossa época é que esse capitalismo cede lugar a um fenômeno diferente, o da técnica galileana que invade o processo real de produção, expulsando dele o trabalho vivo, a “força subjetiva de trabalho” de que falava
Marx, sendo assim, paradoxalmente, o capitalismo corroído pelo mesmo mal que levou o socialismo à sepultura: a eliminação da vida subjetiva e do indivíduo vivente
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Anuncia-se a exposição de duas figuras da morte, Leste e Oeste, começando por aquela cuja verdade a história acaba de desvelar e que já desliza para o passado, antes de se voltar à segunda, cuja hediondez de espectro já não tem nada de humano