Marx rejeitara antecipadamente com violência inaudita essas teses, negando toda realidade à sociedade como entidade substancial autônoma e extraindo dessa negação sua consequência decisiva: se a realidade da sociedade se resolve inteiramente na subjetividade vivente dos indivíduos, as leis dessa sociedade só podem ser as leis dessas subjetividades vivas
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na polêmica contra Proudhon,
Marx rejeita como absurda a ideia de que a sociedade siga leis diferentes das que têm origem no indivíduo: “O Sr. Proudhon personifica a sociedade, faz dela uma sociedade-pessoa… que tem suas leis à parte, nada tendo em comum com as pessoas de que se compõe a sociedade”, acrescentando que “a vida dessa sociedade segue leis opostas às leis que fazem agir o homem como indivíduo”
Consideram-se os efeitos práticos dessa ilusão sociológico-marxista, consistindo num duplo movimento de elevação da sociedade e rebaixamento do indivíduo, ao termo do qual os indivíduos deixam de ser membros da totalidade social para se tornarem seus produtos, sendo a sociedade a realidade verdadeira, efetiva e eficaz, e os indivíduos meras rolhas flutuando na superfície do mar
Nessa ideologia prática, toda ação para modificar um estado de coisas deve incidir sobre a Sociedade, a causa verdadeira, seguindo-se naturalmente a modificação do comportamento individual, sendo os males dos indivíduos atribuídos à corrupção da sociedade
Um acaso benevolente permitiu a
Marx ridicularizar essa tese ao ironizar os “verdadeiros socialistas”: “aprendemos que a sociedade é depravada e que por essa razão os indivíduos que formam essa sociedade sofrem toda sorte de males”, consistindo o absurdo dessa tese em hipostasiar a sociedade como realidade superior aos indivíduos: “A sociedade… separa-se desses indivíduos, autonomiza-se, deprava-se por conta própria, e é só em consequência dessa depravação que os indivíduos sofrem”
Essa teoria sociológico-marxista do primado da sociedade conduziu os regimes nela fundados a agir sempre sobre a totalidade abstrata, jamais sobre os indivíduos vivos que definem o único lugar e princípio de toda ação efetiva possível, gerando nos habitantes dos países socialistas atitude passiva de esperar tudo dessa sociedade tida como única realidade e único princípio de realização efetiva
Refletir sobre essa ideologia difusa permite cercar mais de perto o princípio do fracasso econômico do socialismo: se toda realidade reside na vida dos indivíduos e toda ação em seu esforço subjetivo e corporal, a “Sociedade”, diferente e exterior a eles, é incapaz por princípio de qualquer ação, não fazendo e não tendo jamais feito nada — quem já viu a sociedade cavar um buraco ou consertar uma torneira?
Todo regime em que a sociedade é reconhecida como única realidade e única potência eficaz está por princípio votado à paralisia e à penúria, agravando-se esta à medida que essa crença se reforça no espírito de quem define as opções políticas, econômicas e educacionais
A penúria não é lei no sentido objetivo que o marxismo e a ciência dão a essa palavra, sendo o objetivismo, ao pôr como objeto exterior ao indivíduo o que só tem realidade nele, a própria ação, uma visão totalmente errônea, não sendo as pretensas leis objetivas da sociedade senão representações das ações que a vida realiza e que só são possíveis como atualização de seus próprios poderes
É ilusão absoluta crer que normas comuns às ações tornam estas realidades de tipo objetivo, ou que leis objetivas possam suscitar por si mesmas a passagem ao ato de qualquer atividade, funcionando como causa das ações individuais, pois causas e efeitos situam-se apenas no plano da realidade, e dizer que a práxis social é subjetiva é confiar unicamente aos indivíduos a produção da riqueza de uma sociedade, e dizer que onde essa atividade cessa começa a penúria
Por só ter aparência de lei objetiva, a penúria enraíza-se na ação ou inação dos indivíduos, exercendo aí seus efeitos: falta e necessidade, fome, frio, ausência de produtos, medicamentos, livros, ideal, culminando na eliminação da esperança, caracterizando o desespero ligado à miséria material a situação imposta em todos os países socialistas
Hipostasiar a sociedade como objeto de pensamento e ciência, discutir infinitamente sobre sua estrutura dialética, não impede reencontrar os indivíduos vivos no princípio de todas essas construções, com suas necessidades intactas e urgentes, restando-lhes, quando a necessidade não encontra satisfação dentro da vida, satisfazer-se fora das normas sociais: pela violência, pelo saque
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pilhar é apropriar-se de um bem de consumo sem tê-lo produzido, revelando o saque um estado social em que a produção é confiada à “sociedade”, tendendo a produção real a zero, sendo a “sociedade” obrigada a se apropriar do produto do trabalho dos indivíduos, que por sua vez se apropriam do que a sociedade lhes tomou, erguendo-se dois setores, público e privado, que só podem viver do saque mútuo, retornando assim a vida, eliminada em proveito das abstrações da sociedade, do povo, da história, sob forma selvagem
O marxismo, contudo, não se detém nessa abstração simples da sociedade, empreendendo análise mais fina de seus constituintes reais, os verdadeiros agentes: as classes sociais, tocando-se aqui em seu aspecto mais inquietante, o que propriamente o aproxima de uma teoria fascista