A revalorização do político requer três condições: primeiro, o rebaixamento ou nulidade do indivíduo entregue a si mesmo e a seus interesses egoístas; segundo, a existência de uma realidade social mais alta à qual ele deve se ultrapassar, seja o determinismo econômico, seja a História investida de categorias existenciais tomadas do hegelianismo, da teosofia de Jacob Boehme e do próprio cristianismo
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expõe-se esquematicamente, visível no Arquétipo de Cristo, a ideia de que só se vai à salvação pela morte, à felicidade pelo sofrimento, repetindo o proletariado a história de Cristo ao se afundar em miséria crescente e conduzir a humanidade inteira à sua salvação, explicando essa concepção messiânica do Desejo ferido e finalmente triunfante o poder de fascinação exercido pelo marxismo durante mais de um século
A terceira condição, a mais grave, não concerne apenas ao marxismo mas também à democracia que se pretende opô-lo, reconduzindo-nos a repensar a oposição indivíduo/sociedade, singular/universal, sobre a qual toda teoria política jamais deixou de repousar
O político é a visada do universal, considerando as atividades múltiplas dos indivíduos como assunto geral, mas essa visada mesma se destaca sobre a visão prévia do mundo, sendo sua luz emprestada do próprio mundo, desse horizonte de visibilidade onde tudo se mostra, opondo-se essa luz aos interesses particulares e egoísmos divergentes considerados forças cegas
Essa hierarquia ético-política que eleva o político rebaixando o indivíduo remete a uma hierarquia fenomenológica prévia entre dois modos de aparecer, o da vida que se experimenta a si mesma em seu pathos mudo, e o do mundo, horizonte onde se cumpre a visada política
A vida em nós, em sua subjetividade pura, é simplesmente ignorada pelo pensamento político, que por isso assimila a atividade individual a uma ação “cega” incapaz de resultado positivo por si só, exigindo o concurso de várias ações a luz superior do universal, “a luz do Estado”, como ironizava
Marx contra
Hegel
A forma histórica concreta em que o político se identifica à fenomenalidade do mundo é a Cidade antiga, espaço de luz onde as ações humanas se harmonizam, recebendo aí o assunto geral sua determinação mais própria, a publicidade, sendo a publicidade do assunto geral o que funda sua generalidade, fundando o fenômeno do mundo o próprio político
Essa significação fenomenológica do político funda sua hipóstase, considerá-lo realidade autônoma da qual os indivíduos apenas participariam, exprimindo essa valorização a grande carência fenomenológica do pensamento ocidental, a crença de que só existe a fenomenalidade do mundo
Nessa objetivação que transforma vidas em indivíduos empíricos vistos de fora produz-se outra ilusão: os indivíduos nunca estão isolados, sendo a força da vida que os lança um em direção ao outro o fundamento de toda comunidade concebível, comunidade pulsional manifesta na simpatia, piedade, amor ou ódio, e primeiro no ser-com mudo que une a criança à mãe
O pensamento político se apropria desse ser-em-comum originário, invertendo tudo mais uma vez ao supor que é a visada da afaire geral que reúne os indivíduos, quando na verdade a experiência efetiva do outro só ocorre por ser experimentada em mim, sendo a comunidade da vida anterior a qualquer projeto político, sua causa e condição
A hipóstase do político e o rebaixamento correlativo da vida e do indivíduo têm por consequência o totalitarismo, que não designa um regime entre outros mas ameaça todo regime concebível assim que o político passa a ser tomado por essencial
Quando o político ocupa o proscênio, anuncia-se tempo perigoso, o da revolução, do terror e dos mortos, pois se o assunto público é o único que importa, colocado acima de cada indivíduo, ele pode também suprimi-lo, ele que só existe nela, por ela e para ela
Esse assassinato costuma cumprir-se simbolicamente sob forma de teoria política partilhada pelo maior número, mas às vezes as coisas se tornam sérias, abrindo-se então a era propriamente política em que a realidade se torna realmente política ao se cumprir no assassinato político, o assassinato do indivíduo em nome da essência política
O totalitarismo contém latentes esses pressupostos que se atualizam no tempo da revolução, escamoteando-se a subjetividade dos indivíduos vivos sob o conceito querido da política, o conceito de povo, no qual transparece a inquietante parentesco entre totalitarismo e democracia
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o povo, que se quer coextensivo à totalidade dos indivíduos, na verdade não é ninguém, sendo nele abolido sub-repticiamente o traço mais decisivo da vida, o fato de ser sempre vida individual, devendo receber seu verdadeiro nome: a negação de toda vida possível, a morte
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o conceito de povo é o equivalente político dos conceitos de classe ou sociedade já criticados, apresentando a mesma vacuidade ontológica, jamais tendo sido o povo surpreendido a lavrar ou operar cirurgicamente, sendo necessários homens para isso, como dizia
Marx
Essa vacuidade ontológica do conceito de povo atinge o coração do conceito de democracia, pois numa democracia é o povo que governa, mas o povo não existe, não podendo governar mais do que lavrar um campo, sendo o conceito de democracia o maior engodo já inventado pelos homens, hoje agitado diante do olhar aturdido das nações que constroem juntas a Europa
Se, tal como sociedade ou classe, o povo não existe senão como conceito referido às múltiplas subjetividades dos “indivíduos vivos”, sua significação política se anula, cabendo governar não ao povo mas a esses indivíduos, sendo essa a única aporia que dá origem à invenção política, análoga à impossibilidade de medir o trabalho vivo que originou a invenção econômica
Como todos não podem efetivamente governar, fazem-no por intermédio de representantes eleitos que decidem em seu nome, remetendo assim a representação política o assunto geral a seu fundamento não-político apenas para colocar em seu lugar não todos os indivíduos vivos mas apenas seus delegados, tornando-se o assunto de todos politicamente o assunto de poucos, a “classe política”
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quando a democracia substitui uma ditadura totalitária, uma nomenclatura substitui outra, ou às vezes é a mesma, sendo a hipocrisia própria de todo regime político por princípio, tanto da ditadura comunista quanto da democracia que lhe sucede no Leste
A essa perversão soma-se outra mais grave, afetando o próprio conteúdo do assunto geral: sendo este sempre um assunto particular fundado na vida — irrigação, urbanismo, programa de ensino —, sua competência pertence a indivíduos determinados, urbanistas, agrônomos, universitários, e tornar-se político significa passar das mãos de quem tinha qualificação para tratá-lo às mãos de quem, escolhido por outras razões, carece dessa aptidão, como na escolha de um monumento decidida por um conselho político em vez de artistas
A incompetência do político culmina na administração, que substitui em toda parte, sob pretexto de defender o interesse geral, os problemas e finalidades vivas das iniciativas individuais por sua própria finalidade burocrática, comportando-se como força de morte, não se diferenciando os regimes ditos burocráticos, totalitários ou democráticos, no fato de o princípio político pretender reger todo o domínio da vida econômica, social ou cultural
O prejuízo que o político inflige à vida é sempre o mesmo em seu princípio, consistindo, de um lado, na pretensão de tornar público o que só se desdobra na subjetividade invisível da vida, e, de outro, na substituição dos assuntos dos indivíduos vivos por um pretenso assunto geral substancialmente diferente, reunindo-se assim a perversão política à perversão mais geral já denunciada, a da substituição como tal, que ao colocar em lugar da vida algo que não é ela, faz pesar sobre ela uma ameaça mortal