Explica-se essa representação estranha pela qual tais caracteres, extraindo sua realidade da vida subjetiva individual, parecem determiná-la do exterior: é a própria representação a fonte dessa ilusão, pois ao tentar compreender as múltiplas subjetividades entrelaçadas na práxis social, o pensamento as representa isolando traços que se oferecem como conteúdos objetivos, os “caracteres sociais”, tomando-se então essas leis objetivas pela causa das leis subjetivas quando não passam de sua imagem irreal
-
não é porque lavra e semeia que o camponês francês do século XIX pertence à classe camponesa, mas porque pertence a essa classe que pisa na lama no inverno e colhe no verão, exclamando
Marx diante dessa gênese invertida: “Mais uma vez, tudo é posto de pernas para o ar”
Marx forneceu ele mesmo a teoria dessa ilusão, afirmando que as “condições pessoais” constituem a realidade das condições sociais — “na classe burguesa como em qualquer outra classe as condições pessoais tornaram-se simplesmente as condições comuns e gerais” — explicando o desdobramento pelo qual essas condições se separam da vida e aparecem como condições objetivas: “as relações sociais e pessoais assim dadas deviam, na medida em que eram expressas em pensamentos, tomar a forma de condições ideais e de relações necessárias”
Quando essas condições, esquecida sua referência à vida, passam a ser tratadas como realidade objetiva autônoma cujas estruturas determinam a existência dos indivíduos em vez de figurá-la, nasce dessa inversão teórica absurda uma situação perigosa, tornando-se objeto da ciência social apenas essa realidade objetiva, que ganha assim acréscimo de evidência
Todo projeto socialista “científico” deve apoiar-se nessa ciência das classes, entendidas como substância da sociedade e da história, tornando-se possível a “análise de situação” ocupada com as relações de força entre classes
Essas relações de classe apresentam nos tempos modernos simplificação notável, reduzindo-se à oposição única entre os que possuem os meios de produção e os que só têm sua força nua, explorando os primeiros os segundos através da mais-valia acumulada, revestindo a luta de classes a forma de confronto entre capital (a burguesia) e proletariado
Essa luta, apesar do caráter científico da análise, carrega significação ética oculta, encarnando uma classe o Mal e outra o Bem, de modo que reduzir a realidade dos indivíduos à das classes que os definem torna a necessidade de suprimir o capitalismo idêntica à necessidade de suprimir todos os burgueses, pois se o ser de um indivíduo se esgota em sua determinação social, suprimir esta implica suprimir aquele
A liquidação de camadas inteiras da população nas revoluções comunistas não é acidente mas consequência da teoria, devendo receber seu verdadeiro nome, genocídio, havendo genocídio onde uma população é aniquilada em seu conjunto por ser má em seu conjunto, encontrando-se caracteres desse gênero, capazes de definir profundamente cada indivíduo, precisamente na classe social tal como a entende o marxismo, o que torna o genocídio inevitável e explica por que essas liquidações massivas foram mais implacáveis sob o marxismo que sob qualquer outro regime, por serem teoricamente legitimadas
Os burgueses propriamente ditos, donos dos meios de produção, são relativamente poucos e cada vez menos numerosos, mas os que têm interesse nessa liquidação, iludidos pela ideologia da propriedade e dos direitos humanos, não o compreendem, sendo os pequeno-burgueses, infinitamente numerosos, que partilham os ideais da grande burguesia em troca de vantagens mínimas, opondo-se à grande clarificação exigida pela História e devendo por isso ser igualmente aniquilados como “cães de guarda” do capital
A instrução e a cultura, exigidas pelo capitalismo por necessidade de qualificação técnica, revelam-se nos pequeno-burgueses caracteres de classe a serviço do capital, podendo qualquer indivíduo capaz de ler e escrever ser condenado à morte assim que seu saber for reconhecido como sinal indelével de seu ser verdadeiro, sendo poupados apenas os que praticam autocrítica ou conseguem ocultar sua condição social, como a professora cambojana que salvou a vida disfarçando-se de vendedora de flores
Esse aspecto mais temível do marxismo, pelo qual se assemelha como um irmão ao próprio fascismo que denunciou ao longo de sua história, exige esclarecimentos suplementares, só se podendo compreender como o marxismo é ele mesmo uma forma de fascismo se o princípio deste for posto a nu