Elabora-se a lista desses equivalentes objetivos ideais: primeiro o trabalho “abstrato” ou “social”, representação dos caracteres irreais do trabalho subjetivo real, como “trabalho manual”, “qualificado” ou “não qualificado”, permitindo avaliação qualitativa e depois quantitativa através da medida da duração objetiva em horas
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a valor de troca é assim a representação, num objeto tornado mercadoria, do trabalho social ou abstrato que contém, sendo o dinheiro a valor de troca em estado puro, representação de uma quantidade de trabalho social em si mesma
Dessa exposição resulta que, contrariamente ao dogma marxista e à crença do senso comum, a realidade econômica não é a realidade, nem a do indivíduo vivo nem a do universo material, sendo constituída unicamente de entidades ideais, representações irreais, não havendo, como diz
Marx, um átomo de matéria na “realidade” do valor de troca
Reciprocamente, a realidade, seja da natureza seja da subjetividade dos indivíduos vivos, é inteiramente estranha à realidade econômica, não sendo econômico em si nem o exercício dos poderes subjetivos do corpo vivo — andar, correr, sofrer, amar, pensar — nem uma pedra, uma árvore ou o mar
Importa mostrar, porém, que embora estranha à economia, a realidade dos indivíduos vivos constitui seu único fundamento, sendo a força desses indivíduos que produz sem cessar as determinações econômicas, de modo que, se essa força enfraquece ou se interrompe, todo o universo econômico vacila, atingindo-se a própria vida cotidiana em seu cerne
Todo processo de produção se desenrola em dois planos distintos, o processo real e o processo econômico, contendo o processo real a força subjetiva dos indivíduos, o trabalho vivo, único que produz, e os instrumentos e matérias-primas, elementos objetivos arrancados da natureza e transformados por essa força, não sendo esse processo real em si mesmo econômico
O processo econômico compreende o conjunto das realidades econômicas substituídas aos elementos do processo real, o trabalho social ou abstrato de um lado, os valores de troca de outro, sendo o processo econômico o duplo do processo real, o que exige mostrar, primeiro, que a produção do processo real é a própria ação do indivíduo, e, segundo, que as determinações econômicas são produzidas exclusivamente pelo trabalho vivo desse mesmo indivíduo
Retoma-se a demonstração genial de
Marx sobre o capital: sendo este um valor de troca que se autoacresce, pergunta-se se esse acréscimo provém de poder próprio do dinheiro ou apenas da ação do indivíduo vivo mobilizando sua força subjetiva de trabalho
Na circulação das mercadorias nenhum acréscimo de valor pode ocorrer, pois a troca pressupõe igualdade de valor, exigindo-se então uma mercadoria extraordinária capaz de produzir valor por si mesma: o próprio indivíduo vivo, que se vende por não ter mais nada a oferecer além de sua força, comprando o capitalista o uso dessa força com a qual produzirá valor, surgindo assim a mais-valia como o excedente de valor criado ao longo do dia de trabalho além do valor do salário
Explica-se esse fenômeno remontando ao “laboratório secreto da produção”, à subjetividade da vida onde se desdobra sua força, sendo o aumento de valor inexplicável no plano econômico e exigindo o retorno à dimensão original onde a força produz o objeto útil e, com ele, seu valor
Pergunta-se por que o valor do salário é inferior ao valor produzido pela força de trabalho, respondendo-se que representa apenas as subsistências necessárias à manutenção dessa vida por um dia, enquanto a força de trabalho é capaz, num mesmo tempo, de criar mais valores de uso do que necessita para sua própria manutenção, sendo essa capacidade de dar mais do que recebeu, de produzir mais do que consome, propriedade absoluta da vida e sua condição metafísica de poder de acréscimo
Sobre essa propriedade fundamental repousa toda sociedade, todo desenvolvimento humano e todo sistema econômico possível, tanto o capitalista quanto o socialista, importando pensar até o fim o papel determinante do indivíduo na economia
O mistério da mais-valia não se esclarece plenamente apenas com o sobretrabalho, exigindo-se ainda explicar a conservação do valor dos elementos objetivos do processo, matérias-primas e instrumentos, ilustrando-se com o exemplo de
Marx de um capitalista que investe 100 talers — 50 de algodão, 40 de salário, 10 de instrumentos —, produzindo a força de trabalho um valor total de 80 talers, questionando-se como se chega aos 140 talers finais somando-se a conservação de 50+10
Distingue-se essa conservação real do valor de troca, que pressupõe a conservação do valor de uso antes da troca, da identidade tautológica meramente ideal entre mercadorias trocadas, sendo essa conservação real, que repousa sobre a manutenção da vida útil dos objetos, o que se requer no processo real de produção
Retoma-se a intuição decisiva de
Marx: tal como sua produção, a simples conservação do valor se passa fora da esfera econômica, na esfera da vida e do trabalho vivo, revelando-se aqui a grande lei metafísica do ser segundo a qual as coisas não subsistem por si mesmas mas apenas em contato misterioso com a vida, que as retém no ser e as livra do nada
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tudo o que é visto, ouvido ou tocado é apenas o correlato de um ato de ver, ouvir ou tocar, e nada seria sem esses poderes do corpo vivo, não havendo nada no mundo senão na vida e por ela, sendo ela o alfa e o ômega
É no domínio econômico que essa verdade metafísica se reconhece mais imediatamente, não vendo os olhos no mundo senão a marca do trabalho vivo, sendo o mundo apenas o efeito da práxis, citando-se
Marx sobre Feuerbach que via em Manchester apenas fábricas e máquinas onde um século antes só havia rocas e teares, e na campanha romana pastagens e pântanos onde no tempo de Augusto havia vinhedos e vilas
Se a força da vida se desdobra no coração do ser como operação ontológica que o faz ser, o processo real de produção é apenas caso exemplar dessa operação, sendo o processo econômico, sua representação figurada, só inteligível a partir dela
Explica-se como as valores de troca dos instrumentos e matérias-primas se conservam no processo, desaparecendo estas enquanto valores de troca para só intervirem como valores de uso, sendo através da conservação, pela força de trabalho vivo, dessas valores de uso que se conserva também a quantidade de trabalho nelas incluída, isto é, seu valor de troca
Explica-se, com conceituação emprestada de
Aristóteles, como a força da vida conserva ao modificar o uso das matérias trabalhadas: cada ato do trabalho vivo imprime à matéria uma forma sem a qual ela não existiria, sendo essa forma o “trabalho objetivado”, que confere à substância material sua condição de valor de uso
O importante é que a forma impressa pelo trabalho vivo não subsiste por si mesma nem pela matéria que informa, sendo o trabalho objetivado, em si mesmo, trabalho morto, votado ao perecimento assim que a força que o sustenta se interrompe, revelando-se aqui a metafísica da vida em toda sua potência redutora
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cessando o trabalho vivo, o ser se fissura em toda parte de nada: a ferramenta se deforma, o ferro enferruja, o porto assoreia, a barcaça apodrece, os aquedutos rebentam, a água transforma campos outrora férteis em pântanos pestilentos, e mercadorias de todo tipo se corrompem e desaparecem, formando-se filas diante de vitrines vazias
Colocam-se dois casos de figura conforme a força da vida investida no trabalho se desdobre em sua máxima potência ou, descontente de si e do mundo, renuncie a seu pleno exercício, recusando o esforço até não fazer mais nada, engano gravemente quem vê nisso mera peripécia histórica local, pois quando a força metafísica que sustenta tudo enfraquece, o déficit ontológico não se circunscreve, arrastando consigo todos os valores de uso e de troca
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faltando dinheiro que valha algo e faltando o que comprar, produtos raros adquirem valor fabuloso, mítico, onírico, mera miragem situada no limite do possível
Separado do trabalho vivo, o universo dos instrumentos perde todo sentido: máquinas quebradas, oficinas paradas, canteiros fechados por anos, sendo a morte que se apoderou desse mundo do qual a vida deixou de querer, assemelhando o universo exangue do socialismo, por seu caráter fúnebre, como um irmão ao do fascismo
Anuncia-se o segundo caso de figura, o capitalismo, no qual, sem hesitar, é à vida, à força de trabalho vivo, que se recorre