A crise da cultura, hoje dificilmente dissimulável, recebeu explicações mais ou menos suspeitas, sendo a mais admitida aquela segundo a qual o saber, para progredir com a ciência moderna, teve de se fragmentar numa proliferação de pesquisas cada qual com suas metodologias, aparatos conceituais e objetos próprios, tornando-se impossível a qualquer indivíduo dominar todas elas, comprometendo-se assim a unidade do saber e o princípio capaz de assegurar a concordância das condutas e pensamentos em todos os domínios
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o comportamento cotidiano de recorrer ao especialista para cada problema, eficaz para uma dor de dente ou o conserto de uma máquina, não fornece nenhuma visão de conjunto sobre a existência humana e seu destino, visão sem a qual é impossível decidir o que fazer quando está em jogo a própria existência
Permanece despercebida, nessa interpretação da crise como multiplicação necessária de saberes rigorosos e objetivos, a pressuposição de que esses saberes constituiriam o único fundamento possível de um comportamento racional em todas as esferas da experiência, o que não explica por que se observa, em vez de comportamento adaptado, a mesma incerteza e o mesmo desnorteio em todas as ordens da vida sensível, afetiva e espiritual, configurando não uma crise mas uma verdadeira destruição da cultura
O hiperdesenvolvimento de um hipersaber, em ruptura completa com os conhecimentos tradicionais da humanidade, tem por efeito abater não apenas esses conhecimentos, tidos por ilusórios, mas a própria humanidade, contrastando com o passado em que saber, bem, belo e sagrado subiam e desciam juntos como a maré do oceano, apresentando-se agora, pela primeira vez, a explosão científica acompanhada da ruína do homem, nova barbárie de cuja superação não se tem mais certeza
Compreende-se plenamente por que um certo tipo de saber, surgido na época de Galileu e desde então tomado como o único saber, produz necessariamente a subversão de todos os demais valores, da cultura e da humanidade do homem, desde que se disponha de uma teoria da essência de todo saber possível e de seu fundamento último, fundamento que é também o das próprias valores, da cultura e da humanidade, e que, por ser extraordinariamente descartado pela ciência moderna, precipita sem que ela o saiba nosso mundo no abismo, restando ainda, à beira desse abismo, lançar nele os últimos clarões de uma luz estranha que acompanha a humanidade desde suas origens, capaz de revelar a ameaça, as grandes rupturas e os desmoronamentos