Descartes jamais duvidou da verdade da ciência, cujo desenvolvimento admirava, mas seu gênio foi pressentir que esse saber pressupõe outro de natureza diversa, sendo o propósito da dúvida da primeira Meditação, ao barrar toda relação ao objeto, fazer aparecer o saber secreto que essa relação encobre
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a Segunda Meditação demonstra que o conhecimento da alma é mais fundamental e certo que o do corpo, e que sobre esse saber absolutamente certo da vida repousa o conhecimento do corpo, isto é, do mundo, e assim a consciência e a ciência em geral
Essa primeira demonstração distingue radicalmente a ideia do espírito, sem cogitatum, de todas as outras ideias que possuem objeto, sendo a ideia do espírito o poder originário de revelação pelo qual a cogitatio se revela a si mesma e não a uma objetividade
Que o saber da vida funde o conhecimento do corpo resulta de a ideia do espírito constituir a essência comum de toda ideia, não podendo nenhuma ideia dotada de cogitatum advir ao ser senão como ideia do espírito, prova pura e simples de si, mesmo que não houvesse homem, triângulo ou deus algum
Sendo o saber da visão seu próprio pathos, a visão do objeto nunca é simples visão mas sensibilidade, e o mundo não é puro espetáculo diante de um olhar impessoal mas um mundo sensível, um mundo-da-vida dado apenas à vida, existindo para ela e por ela, não sendo as coisas sensíveis a posteriori mas afetivas desde o nascimento, havendo um pathos de sua vinda ao ser
A abstração científica é dupla: primeiro a que define o mundo científico ao excluir as qualidades sensíveis e os predicados afetivos, abstração legítima do ponto de vista metodológico enquanto permanece consciente dos limites que ela mesma traçou; segundo, mais grave, a abstração da própria Vida, isto é, daquilo que verdadeiramente importa
O termo abstração é fraco demais, pois a ciência não tem sequer ideia do que é a vida, não se preocupando com ela, já que só há acesso à vida dentro da vida e por ela, enquanto a ciência se move inteiramente dentro da relação ao mundo, ignorando e sempre ignorará o que se experimenta e se autoafeta na imanência radical de sua afetividade
O mundo é um meio de exterioridade pura onde tudo que nele encontra a condição de seu ser se propõe apenas como exterior, uma superfície sobre a qual o olhar desliza sem jamais penetrar um interior, não havendo nada vivo, apenas “coisas”, apenas morte, exibindo-se sempre o objeto, o sempre-diante
Um saber que põe fora de jogo não só o mundo-da-vida mas a própria vida traz consequências graves: podendo-se conceber um hiperdesenvolvimento do saber científico acompanhado de atrofia da cultura, até seu aniquilamento, figura que não é abstrata mas é a do mundo em que se vive, onde surgiu um tipo novo de barbárie mais grave que todas as precedentes, da qual o homem hoje corre risco de morrer
O saber da vida, em que a vida é ao mesmo tempo o poder que conhece e o que é conhecido, chama-se práxis, caracterizado pela ausência de qualquer êxtase e de relação a um “mundo” possível, opondo-se à teoria, que pertence por princípio à relação com um objeto, distinção que se enraíza nas estruturas últimas do Ser e em seu Fundo invisível
Sendo a cultura essencialmente prática, consiste no autodesenvolvimento das potencialidades subjetivas, distinguindo-se, no exemplo da visão, o “olho grosseiro” de que fala
Marx nos Manuscritos de 44, incapaz de apreciação estética, do olho cultivado cujo exercício refinado é o prazer estético, e, quanto às potencialidades motoras, o corpo do bailarino do corpo inexperiente
Enquanto prática, a cultura reveste formas elementares ligadas à produção e consumo de bens úteis à vida — alimento, vestimenta, habitação — e ao jogo espontâneo da vida, o erotismo, a relação com a morte, exprimindo-se em ritos que conferem a cada sociedade sua fisionomia, sendo a organização social apenas a representação exterior daquilo que em si é práxis regida pelas leis da vida, não leis teóricas mas práticas, propostas sob forma de necessidades
A subjetividade é inteiramente necessidade, dando as necessidades superiores lugar às formas elaboradas da cultura — arte, ética, religião —, cuja presença em toda civilização conhecida não é dado empírico casual mas se enraíza na própria essência da vida
Da mesma forma a barbárie, regressão dos modos de cumprimento da vida, não é evento incompreensível vindo de fora atingir uma cultura floridamente, mas processo que afeta a essência do ser de onde procede toda cultura, sendo uma doença da própria vida
Organizam-se três questões sobre a proveniência histórica da barbárie a partir da cultura: primeiro, como compreender a possibilidade mesma da cultura, isto é, a essência da vida capaz de tornar necessário seu desenvolvimento
Segundo, como se cumpre tal desenvolvimento até formas ditas “superiores”, e por que tais formas revestem as modalidades concretas da arte, da ética e da religião
Terceiro, como, se a vida produz necessariamente a cultura, seu movimento de autotransformação e autoacréscimo pode inverter-se em processos de degeneração e empobrecimento, não sendo estranha a barbárie em si mesma mas sua possibilidade a partir de uma essência construída como acréscimo de si
Confunde-se a vida fenomenológica absoluta com a vida biológica, compreendendo-se ingenuamente a primeira a partir da segunda, para que os fenômenos de decomposição dos organismos vivos sejam transferidos para os edifícios sociais, tornando “natural” que as civilizações sejam mortais como os indivíduos
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mas os indivíduos de que se trata na esfera da cultura nada têm a ver com conjuntos de moléculas em desagregação objetiva, sendo modos da vida absoluta que portam sua essência de autoacréscimo, de modo que sua desaparição se revela, aos olhos de quem penetra nessa essência, uma impossibilidade apriorística, tendo sido o gênio de
Nietzsche perceber essa aporia e tentar resolvê-la em análises extraordinárias
Aqui embaixo tudo cresce e decresce, sendo essa a “sabedoria” dos historiadores, sociólogos, etnólogos e biólogos que se fiam no que veem, mas nada se sabe ainda da vida quando se “filosofa” dessa maneira, pois ela obedece a outras leis que as dos tratados de ciência positiva, opondo à teoria não veleidades mas a realidade pura que produz incessantemente casais e sociedades lançando-os adiante rumo à cultura do Desejo, um Desejo sem modelo nas coisas por ser o Desejo da Vida e assim o Desejo de Si
A questão deste livro exige compreender como é possível em geral o declínio da Vida, mas de modo mais preciso, evidenciar o caráter específico da barbárie atual, sob cuja sombra já se cambaleia como cegos, sendo insuficiente afirmar de modo geral que o desalento moderno resulta do hiperdesenvolvimento do saber científico e da técnica em rejeição ao saber da vida, exigindo-se demonstração em exemplos precisos, começando pela arte, que servirá de revelador daquilo que se chamará provisoriamente a barbárie da ciência