O olhar grego é reinterpretado a partir do verbo théaô, que significaria originalmente “mostrar-se” antes que “captar com a vista”, de modo que o olhar humano responderia a um olhar anterior e prevalente do próprio ser, aproximando-se théaô de daimôn e theîon numa tripla correspondência filológica que funda a divindade do olhar original.
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O nome “planetário” designa a mundialização da errância tecnológica, já que planeta remete a percurso errante, tornando a Terra o astro errante do ponto de vista da história do ser, apagando-se as distinções que fundam um verdadeiro mundo.
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O homem planetário continua, por ora, a ser sujeito, ainda que um sujeito exacerbado que se tornou o voluntário da vontade de vontade, atingindo no imperialismo tecnológico o ponto culminante de onde entrará no nivelamento uniforme organizado.
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O homem da metafísica é fixado como besta de trabalho, constrangido a ser apenas trabalho, correspondência metafísica à essência da Técnica como vontade de produzir por produzir, dissociando-se paradoxalmente trabalho e dor, pois o homem confia cegamente no trabalho sem ressentir sua própria dor.
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A besta técnica dificilmente ainda é sujeito, pois trabalha instintivamente, identificando-se pulsão animal e ratio humana, numa monstruosidade prefigurada, segundo leitura paradoxal, pelo racionalismo secreto da Vontade de poder nietzschiana.
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O pessimismo tecnológico de Heidegger nos primeiros textos anuncia com tom apocalíptico que a humanidade só poderá sair do impasse pela autodestruição da besta de trabalho, hipótese que parece uma utopia negativa, sendo mais verossímil que o homem se transforme junto com seu trabalho do que se aniquile inteiramente.
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O homem contemporâneo, descrito já na Introdução à metafísica como “homem normalizado” e depois nas Beiträge, está dividido entre cálculo (
Berechnung) e vivido (
Erlebnis), sendo o cálculo uma lei fundamental do comportamento que só reconhece como real o previsto e planificado, enquanto a caça às experiências vividas serve de suplemento de alma a essa mesma
Machenschaft, partilhando ambos a raiz comum da representação.
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A insensibilidade às Stimmungen caracteriza o homem técnico, que se refugia na ausência de angústia e na impossibilidade de colocar verdadeiras questões, pois tudo lhe parece disponível e resolúvel, apenas uma questão de tempo, espaço e força.
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A rapidez e a massificação marcam a humanidade técnica: a rapidez como atitude de mobilidade e sede do surpreendente que rejeita a lentidão do que amadurece por si, e a massificação como mutação lógica do sujeito, embriagado no Nós, normalizado pelos meios de comunicação, subsistindo apenas como material explorável em conjuntos maiores.
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O homem planetário, instalado em todo o planeta e desligado de um lugar familiar, sofre da Heimatlosigkeit, ausência de terra familiar, que suscita paradoxalmente a conquista organizada do espaço, sendo essa ausência tanto falta de enraizamento cultural quanto perda de familiaridade do homem consigo mesmo, impossibilitado de qualquer tomada de consciência que reconduza a uma nova essência.
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O homem planetário está cada vez mais privado da relação com a natureza não tecnicamente organizada, buscando desesperadamente contato com os elementos naturais, sendo a “natureza natural” definida tanto diretamente, como estações e clima, quanto indiretamente, como o eclodir-retiro da physis grega, algo de que ele essencialmente ainda faz parte apesar de rejeitá-la.
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Certos homens, os “mortais”, seriam capazes de habitar no sentido forte, respeitando a Terra e o velamento do sagrado, permanecendo em aberto como coexistem com a humanidade planetária e se homem da errância e homem salvável podem ser o mesmo homem, dada a dupla face epocal, a “cabeça de Janus”.
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Contra a tese de um homem integralmente historial, defende-se a hipótese de uma essência não-historial, questionando-se se o mortal, alheio a qualquer tradição historial, poderia surgir apenas na época da Técnica.
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Heidegger opõe ao calculador o mortal-pensador-poeta, mas também esboça um terceiro tipo, o Amigo evocado a partir de Hebel, capaz de reinvestir o mensurável técnico no segredo da natureza redescoberta, hipótese de síntese que parece surpreendente e talvez inatingível, dada a velocidade crescente com que natureza natural e natureza técnica se afastam.
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O poeta seria o único capaz de ser esse Amigo, trazendo à linguagem o residir humano e fazendo aparecer o traço do sagrado apesar do seu retiro, sem que consiga efetivamente reconciliar as duas faces divergentes da natureza e do homem, condenando-nos a habitar essa rotura como homens alternativos, cíclicos, oscilando entre adesão e rejeição da Técnica segundo um apelo que, mesmo no domínio técnico, continua sendo apelo do ser.
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Heidegger afirma o homem totalmente historial, mas essa afirmação é problemática, pois o homem historial começa com os Gregos, num salto radical cuja historialidade anterior permanece sem explicação, questionando-se se o reino sem partilha do historial não constitui ele mesmo um esquecimento.
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O acontecimento fundador do começo grego liga-se à sentença de
Parmênides sobre ser e pensar, tornando-se o homem historial ao distinguir-se do ser, o que implica que ele não o era antes, sem que essa mudança apague inteiramente a situação preexistente.
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Nas sucessivas mutações da essência da verdade mantém-se sempre um retrato progressivo da alètheia, de modo que o não-historial não deve ser buscado numa “natureza” original mas nos limites possíveis da História no interior de cada época, sendo o rastro indireto de um pré-historial imemorial, inverso mas não contrário da própria História.
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Todo fenômeno mundano possui simultaneamente um aspecto epocal e um aspecto não-historial, como mostra o exemplo da habitação, que varia historicamente em suas formas mas persiste imemorialmente como necessidade de abrigo e de lar, ao ponto de o próprio Heidegger, comentando
Hölderlin, escrever que “o ser é o lar”.
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A dimensão não-historial não se reduz ao arcaico, manifestando-se também numa quotidianidade não pejorativa, como o gesto de servir água ou vinho com um cântaro, que escapa à mundialidade instrumental universal representada por meios como o comboio ou o avião.
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O não-historial mantém sempre um laço com a Terra, sendo vida, corpo, engendramento, sexo e linhagem nomeados por Heidegger como pertencentes essencialmente a ela, ainda que a análise heideggeriana dos órgãos dos sentidos tenda a esquecer o não-historial em favor da determinação epocal do sensível, quando as leis mais gerais da percepção, como observa
Merleau-Ponty, não variam de uma época a outra.
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Não-historial e historial estão estreitamente entrelaçados como Terra e mundo, de tal modo que seria vão descrever isoladamente uma natureza humana pura, só se podendo entrever essa dimensão indiretamente através das determinações epocais, como sugere a mudança da Stimmung fundamental do espanto grego ao pavor moderno, que supõe contudo uma continuidade trans-historial subjacente.
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A distinção entre historialidade e não-historialidade não introduz um novo dualismo, pois as duas dimensões são inseparáveis como a Terra e o mundo, cada uma repousando sobre a outra, sendo a Técnica o perigo de uma preponderância exclusiva do historial que ameaça destruir a Terra mais do que qualquer catástrofe ecológica.
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A opacidade de uma pedra, a integridade sonora de um poema e a fragilidade ou o sofrimento subjacentes aos direitos do homem revelam essa essência terrestre não-epocal que resiste à formalização, exigindo, contudo, sempre um trabalho de mostração expressa, sobretudo nos fenômenos religioso e político onde permanece mais profundamente velada.
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Distingue-se essa essência não-historial legítima do “mau não-historial”, fundado na recusa cega da historialidade e no esquecimento completo da tradição, que a época da Técnica potencializa ao converter todo acontecimento em produto desenraizado, servindo a fuga acelerada da tradição historial e a hipertrofia do jornalismo para afastar as últimas barreiras à tecnicização total do mundo e do homem.
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O chamado anti-humanismo heideggeriano constitui principalmente uma ruptura com o antropocentrismo moderno, pois o homem não se produz a si mesmo nem domina a proveniência última de suas faculdades, sendo o próprio do homem ser, ainda que o ser, inapropriável, deixe o homem privado de um “em casa” ontológico, essencialmente despossuído de si mesmo.
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Um primeiro excesso heideggeriano consiste em tentar suprimir não apenas o sujeito metafísico mas a própria ipseidade individual, havendo já contradição no Ser e Tempo entre a mesmidade como existencial originário e o indivíduo relegado ao meramente ôntico, ainda que a subjetividade como corpo auto-afetado resista a essa transparência de uma abertura neutra.
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Um segundo excesso consiste em atribuir ao ser o poder de manifestar-se espontaneamente por si mesmo, questão que se concentra na noção de Lichtung como Urphänomen absoluto, sem fundamento anterior, quando se poderia perguntar se a clareira não exige sempre um fundo obscuro, uma “espessura da floresta” que a sustenha e limite.
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Contra essa autossuficiência da Clareira, sustenta-se que ela deve ela mesma ter advindo, sendo condição da História mais do que situada nela, e que a própria Clareira necessita aparecer sobre uma Terra que a precede e sustenta, de modo que a physis imemorial seria origem do phainesthai, e não o inverso.