O homem é incansavelmente mantido por eleição paradoxal do ser, mas na época da Técnica o ser e o homem deslizam da angústia para a ausência de angústia, ameaçando de desertificação o lugar que o abriga.
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Resta ao homem apenas uma participação negativa, já que não pensa nem age por iniciativa própria, cabendo perguntar se poderia, como em
Hölderlin, encontrar socorro na errância e na angústia.
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Apenas o homem erra, cedendo ao esquecimento do próprio esquecimento e deixando-se seduzir pelo ente, sendo ele mesmo o primeiro ente que o seduz.
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Para reduzir todo ente à sua medida, o homem estabelece-se como sub-jectum, uma base real de referência, e no Ser e Tempo o Dasein oculta sua dimensão extática ao conduzir suas possibilidades a propriedades de um ente subsistente, degenerando a ek-sistência em insistência, a autoposição do homem como medida de toda realidade.
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A errância em geral não é infortúnio evitável, pois pertence ao próprio descobrimento da verdade que, para fazer época, deve esquecer que é apenas uma época entre outras, tornando-se mal apenas quando a correspondência com o retiro do ser deixa de ser acessível ao pensamento.
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É aqui que o homem reencontra espaço para iniciativa própria, podendo não insistir e não se deixar desviar pelas formações ônticas de sua época, fazendo experiência da errância como tal, o que não a suprime mas conduz à
Gelassenheit, atitude de desprendimento ativo diante da Técnica.
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Essa liberdade, limitada porque o ser detém e distribui todas as cartas, consiste em não sermos cegamente submetidos à época, podendo dizer sim e também não aos objetos técnicos sem regular por eles nosso pensamento, questão que remete à possibilidade de uma interioridade não subjetiva capaz de ganhar distância da realidade estabelecida.
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Permanece em aberto se ultrapassar a subjetividade implica necessariamente renunciar à individualização.
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Ainda assim, a participação livre do homem não poderia residir num foro interior, pois nenhuma distância é possível sem a base de uma disposição afetiva, a
Stimmung, tonalidade fundamental e universal de toda presença.
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Seja qual for a participação da individualidade, ela nunca é desprovida de Stimmung, e é talvez aí que se situa uma estreita margem de liberdade, pois o homem pode acolher ou fechar-se às disposições, podendo abrir-se à angústia essencial mediante coragem e sangue-frio.
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Essas qualidades morais do pensamento enraízam-se na liberdade de sacrifício, adeus ao ente que preserva o favor do ser, implicando despojamento de todo cálculo e de todo projeto humano, ilustrado pela exigência schellinguiana de abandonar até Deus como ente.
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Essa estranha liberdade nasce do quase desaparecimento do homem enquanto ente, deixando em aberto se pode haver pensamento sem pensador e se o ser teria sentido fora de sua relação com o ente.
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A participação do homem subtrai-se ao extremo, pois as Stimmungen fundamentais mais analisadas — espanto, angústia, pavor — são as que desencadeiam o pensamento, sugerindo que apenas pensadores e poetas seriam plenamente humanos, consequência perigosa ligada não à recusa da antropologia mas à recusa da individualidade, já que o homem vulgar, embora não nomeie o ser nem cante o sagrado, define-se por uma palavra única, ligada a uma finitude própria, a morte, questão silenciada pelo último Heidegger.
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Depois da Viragem, o retorno a si é mantido em sentido radicalmente não subjetivo, permanecendo em aberto como conceber uma ipseidade que não seja consciência representativa nem eu individual, e ainda assim preserve o traço de reflexão como essência do homem.
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A infelicidade da reflexão não estaria na recurvação como tal, mas naquilo para onde a essência do homem se inclina, havendo um pendor nefasto ao egocentrismo, ao passo que a reflexão verdadeira seria antes con-versação e re-torno ao ser, sendo a auto-posição do sujeito apenas uma degenerescência dessa reflexão original.
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O fundo mais íntimo do homem seria o próprio ser, e não o eu, de modo que a verdadeira reflexão intraverte para melhor extraverter e desprender do eu, substituindo-se a autenticidade formal pela pertença não individual ao ser, sacrifício livre do ego.
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Resta em aberto quem realiza esse sacrifício, pois o percurso de desindividualização só teria o nome de reflexão se permanecesse específico de uma individualidade capaz de dizer eu, mesmo que para compreender sua própria não coincidência consigo mesma.