A partir de Was ist Metaphysik? em 1929, a angústia vai aparecer como um evento do próprio ser e como atestado deste poder mais elementar no homem, sendo denominada constantemente como “angústia originária” e, mais tarde, no Posfácio de 1934, como “angústia essencial”, ou seja, quanto ao ser, tendo um quinhão mais ligado ao nada, através das diversas formas do comportamento nadiicante do Dasein em geral, do que com o próprio a cada Dasein particular.
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A angústia tem um quinhão ligado ao estranho poder da negação que o homem transporta em si, e a origem não humana do nadiicar, traço poderoso do ser lançado, substitui a assunção da autopossibilitação pela morte, e todos os sinais desta inversão marcam o texto, onde ao laço entre a angústia e a possibilitação individual extrema se substitui o laço entre a angústia e a automanifestação do ser.
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A partir do momento em que é no ser do ente que advém o nadiicar do nada, os pensamentos e os atos de negação, assim como a transcendência do Dasein fora do ente em totalidade, enraízam-se na força do nadiicar e não mais na tensão do ser-resoluto, e a angústia originária apenas revela a possibilitação pelo nada como vindo do ser, não contribuindo mais para o caminho de uma autopossibilitação autêntica.
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O movimento para o reforço das faculdades transcendentais do Dasein encontra-se brutalmente parado, pois o nada é a possibilitação da manifestatividade do ente como tal para o Dasein humano, e o homem encontrado é mais limitado e mais despojado do que o Dasein, tendo perdido toda a aspiração a uma ipsidade própria e estando reduzido à figura quase esquelética do “lugar-tenente do nada”.
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A angústia originária aparece como o ponto de condensação e o ponto de revelação de todas as condutas nadiicantes, e a impregnação do Dasein pelo comportamento nadiicante atesta a manifestatividade constante e, por certo, obscurecida do nada, que apenas a angústia desvela originariamente, sendo a angústia como a plenitude da autorevelação do nada que se manifesta no homem através de diversas formas do seu pensamento e da sua ação.
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A atividade do homem como a sua passividade são trespassadas por uma negatividade que não vem dele e que é mais radical do que o agir e o padecer, e em todas estas condutas, mas na realidade em toda a transcendência, a angústia está aí, quer durma, quer seja tida como guia, sendo a angústia originária a mais frequentemente reprimida no Dasein.
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Enquanto tonalidade de fundo, textura mesmo de fundo, a angústia não é mais específica do audacioso, não estando ausente de uma atividade normal e pacífica, encontrando-se subjacente por todo o lado, não estando especificamente ligada a uma crise, a uma escolha entre o autêntico e o inautêntico, mantendo-se aquém de semelhantes oposições numa aliança secreta com a serenidade e a doçura da aspiração criadora.
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Apesar da sua omnipresença, a angústia não poderá ser banalizada, pois está sempre aquém, sempre secreta, e se a habita por excelência o ato de criar é porque este desafia sempre o que está estabelecido, habitual e normal, e ninguém pode criar sem ter encontrado o nada, pois o criador antecipa o que não está dito e faz irromper o que não está pensado.
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O Dasein não tira originalmente os seus poderes e as suas criações de si-próprio, mas do trabalho de nadiicar e da angústia que possui, e deste modo não possui o seu poder por negar a sua faculdade de julgar, mas a negação é baseada no “não”, o qual tem a sua origem no nadiicar do nada, e o mesmo se passa com a liberdade.
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A antecipação permitia aproximar-se dela voluntariamente e tentar apropriar-se da possibilidade da impossibilidade radical, mas é melhor que ele se mantenha na proximidade do nada e que possua dele o lugar aberto, mas não pode, diferentemente da consciência sartriana que se identifica com a nadiicação, fazer da sua coabitação extática com o nada um poder próprio de que poderia dispor à sua vontade.
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O nada despoja o Dasein do livre uso das suas faculdades transcendentais, proibindo-o de prever e de calcular a irrupção da sua liberdade, e sem o nada não há transcendência, não há liberdade no sentido do descomprometimento face ao ente, mas o homem não pode nada sobre o nada, que apenas liberta as suas capacidades, não podendo prever a ocasião do seu surgimento, sempre inesperado, nem convocá-lo para se tornar livre, nem decidir da extensão dos seus efeitos.
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A finitude não se deve compreender como um limite seguro, exterior ao ente, onde por vezes se reencontraria por acaso o nada, mas como um movimento interno-externo de finitização abissal, e tal é o abismo que cava no Dasein a finitização, o da finitude mais própria e mais profunda se recusar à liberdade, e esta finitização aquém da finitude assumida que caracterizava o Dasein autêntico abre uma dimensão nova que é ainda denominada “a nossa liberdade”, mas que é já a liberdade do ser em nós, correspondendo a um desabamento do próprio cavado, minado pelo nada.
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A possibilidade do questionamento metafísico como tal está suspensa nesta escavação, mais angustiante do que a angústia pelo próprio, escavação na qual o Dasein deixa de ter pé no solo assegurado da mesmidade, e é apenas porque o nada é manifesto no fundo do Dasein, no fato da angústia originária, que a plena estranheza do ente nos pode acontecer.
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O espanto donde resulta o “porquê?” e a própria metafísica aparecem como derivados da angústia originária face a esta plena estranheza do ente, e a angústia originária parece assim mais constante que a diversidade das sintonias especificamente epocais, como precisamente o espanto, que Heidegger atribuirá mais tarde apenas à época grega.
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A sintonia de base não será ela já aqui trans-historial, antes mesmo da elaboração da história do ser, e é de qualquer modo que se torna agora o futuro fundamental do Dasein, sendo que o essencial já não é o vir a si, a historialidade do próprio, e a metafísica é o acontecimento fundamental no Dasein, sendo o Dasein ele mesmo, o que significa o fim do primado do ser-resoluto e a Viragem antes do tempo, onde a questão do ser do ente eclipsa a questão da autenticidade.
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O Posfácio de 1943 sublinha e rejeita o erro de interpretação que separaria a angústia da relação do nadiicar do ser, tratando-a psicologicamente como um sentimento entre outros, sendo a angústia denominada essencial porque vem do próprio ser, porque manifesta o ser no sentido verbal, na sua pura diferença com o ente, e o ser destina o nada na angústia essencial.
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Trata-se de entender através da tonalidade da angústia a súplica ou a reivindicação que chama a si o homem da decadência ou da sua errância ao pé do ente, e o sentido da angústia é o de operar instantaneamente a separação do ente, tão difícil para o pensamento, sendo que o próprio ser envia a angústia com o fim de que o homem aprenda a pensá-lo depois de ter sido reclamado por ele.
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Esta intenção do ser não tem nada de místico, mas o que desconcerta é a formulação não antropocêntrica, totalmente despiscologizada, do próprio sentido da sintonia, e pergunta-se por que será preciso recorrer a fórmulas antropomórficas para exprimir o contrário de um antropomorfismo, e a “voz” do ser, como capacidade de dispor o homem pela angústia a pensá-lo, significa a incapacidade do homem para se transportar a si-mesmo para a abertura radical.
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O dom do pensamento é daqui para o futuro denominado um “favor” do ser, e esta metáfora frisa ainda mais uma vez a ideia de uma “alta eleição”, onde apenas aqueles que foram escolhidos recebem um favor, e a “resposta” humana apropriada a este angustiante favor assemelha-se de muito perto ao ser-resoluto, embora a resposta à angústia como resposta ao ser passe a definir, daqui em diante, o próprio pensamento e não mais a decisão.
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Heidegger recusa a distinção entre contemplação e ação, afirmando que o pensamento essencial é também um agir, não apenas por receber o dom do pensamento, mas porque é preciso que sustenha e assuma ativamente a angústia essencial, e as qualidades do pensamento aberto a esta experiência serão a disponibilidade para a angústia, a coragem e a liberdade para o sacrifício.
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O “sacrifício” definido como a “separação do ente” não é um ato concreto, mas um ato pensado, sendo de uma radicalidade e abstração derrotantes, já que não concerne a tal ou tal categoria de entes, mas ao ente como tal, e o pensamento do ser não procura no ente nenhum apoio, e pergunta-se que sentido pode ter o sacrifício do todo o ente se o ente nunca é sem o ser, e por que introduzir por meio da palavra “sacrifício” uma conotação religiosa.
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Ainda que seja esse o caso, o pensamento “oferece” o ente ao ser no momento em que o deixa, e mais do que coragem, é-lhe necessário bravura para encarar o pavor e o horror perante o “abismo do ser”, e a sintonia do pavor constitui a própria angústia na época da Técnica, bem depois do fim do reinado dos grandes príncipes metafísicos.
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Experimentam o pavor os raros contemporâneos capazes de compreender que hoje o que domina é a insensibilidade face ao abismo sob a forma da “aflição pela ausência de aflição”, mas Heidegger não explica aqui, deixando pairar sobre o Posfácio um clima quase iniciático, purificado e rareficado ao extremo, onde o homem já não tem de todo identidade, senão a de ser aquele que acolhe a vinda do ser com angústia e com coragem.
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A essência do homem oscila entre o fascínio e o horror, e habitado pelo horror do abismo, ele aproxima-se do “Indestrutível” e espera o “Inelutável”, termos misteriosos e elípticos que parecem indicar uma nova certeza e um novo fundamento, permanecendo não elucidados, e o pensamento que guia a angústia entra num quase mutismo, onde se acentua a dimensão de espera e de preparação.
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A Introdução de 1949, “O regresso ao fundamento da metafísica”, reafirma a vocação fundamental da angústia para revelar o ser e para pôr em condição de o pensar apesar do esquecimento imperante na época, e a angústia e o pavor não somente tornam manifesto o esquecimento do ser, mas também a urgência e a miséria da situação contemporânea em que o homem se mantém quase abandonado do ser e em que esse abandono é ele próprio velado.
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A angústia traduz também a impotência do pensamento para mudar no que quer que seja o desenvolvimento da História do Ser, que se cumpre irresistivelmente, e o pensamento só se limita a sustentar com a angústia o destino do ser, a fim de remeter em primeiro lugar o pensamento na presença do esquecimento do ser, e levanta-se ainda uma dúvida quanto a saber se o homem será ainda capaz de angústia ontológica ou se a angústia não será cada vez mais desviada para a subjetividade apenas, como se a principal dificuldade da angústia fosse a de que ela concerne ainda sobretudo à ipsidade.
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Uma dezena de anos depois de Sein und Tempo, desde 1936, a angústia é identificada com o próprio pensamento tomado na sua fonte, como testemunha uma breve nota de Holwege a propósito do verdadeiro niilismo, que é “angústia perante o pensamento”, mas esta é apenas “a angústia perante a angústia”, e fugir da angústia e fugir do pensamento referem-se a uma só e mesma fuga perante o ser.
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Do mesmo modo, desde 1936, na Origem da obra de arte, o ser resoluto é reinterpretado segundo o seu sentido etimológico como “des-cerramento”, abertura ao dom do ser, e o ser-resoluto pensado em Sein und Tempo não é ação decidida de um sujeito, mas o Dasein abrindo-se fora do cativeiro do ente em direção à abertura do ser.
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A auto-interpretação endurece as tonalidades com o auxílio de meias-verdades, pois o ser-resoluto nunca foi “acção decidida de um sujeito”, visto que era a possibilidade de uma escolha da ipsidade própria do ser-no-mundo, mas a auto-apropriação do Dasein não era ainda “abandono extático do homem existente à não-latência do ser”, ou seja, transapropriação pelo ser, ao qual o homem consente em confiar-se radicalmente.
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O ser-resoluto era bem a procura da pura forma do Si na temporalidade mais própria, como a angústia era bem uma antecipação não voluntária da possibilidade da morte, mas a violência hermenêutica da auto-interpretação mantém-se fiel a uma verdade fundamental: é a angústia que torna possível o ser-para-a-morte, o que quer dizer que é a própria angústia que, enquanto sintonia fundamental, abre o Dasein para a sua possibilidade mais extrema e para a sua finitude radical, sendo este o legado último da analítica existencial para a compreensão do ser.