Para elaborar o conceito existencial de dívida, Heidegger opera uma fusão entre dois traços distintos do ser-em-dívida: de um lado, a falta, o não; de outro, a responsabilidade, o fato de ser causa, e, assim, estar em dívida significa ser responsável por um não, por uma negatividade, e Heidegger retraduz o conceito moral de responsabilidade no conceito ontológico de
Grund, ou seja, de “causa”, “fundamento”, de tal modo que estar em dívida é ser o fundamento de um não, e, sobretudo, é ser um fundamento afetado por um não, por uma negatividade intrínseca.
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Nesse ponto, a análise se inverte completamente, pois o não, ou a falta, não revela uma carência que se situaria no âmbito do ente subsistente ou no domínio da existência de outrem, mas uma falta que se situa no coração do próprio Dasein, e a falta originária do Dasein é aquela que resulta do seu ser-lançado, ou seja, do fato de que ele deve assumir o papel de causa, de princípio e de fundamento, embora ele próprio não se dê e não tenha se dado esse fundamento, de modo que ele não é fundamento, mas apenas o ser-fundamento, isto é, aquele que assume o ser-fundamento, sem jamais poder se tornar senhor dele.
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O si-mesmo que, enquanto tal, deve pôr o fundamento de si mesmo, jamais pode se tornar senhor desse fundamento, e, no entanto, deve, existindo, assumir sobre si o ser-fundamento, daí derivando o sentimento de peso e a tonalidade de abatimento que o Dasein por vezes experimenta em sua existência fática.
Heidegger, a partir dessa formalização, não considera mais a dívida como o resultado de uma falta que sobreveio no outro por causa do Dasein, mas reconduz o ser-em-dívida ao seu princípio, qual seja, a própria constituição do si-mesmo do Dasein, de sorte que o ser-em-dívida não resulta de um endividamento factual, mas de um ser-em-dívida originário, de modo que a “intersubjetividade” da dívida, entendida como relação com outrem, se desvanece, e o não que o Dasein introduz no mundo e nos outros deve ser previamente encontrado nele mesmo.
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A dívida originária do Dasein para consigo mesmo se articula de uma dupla maneira: primeiramente, o Dasein deve se determinar como poder-ser originário, como “fundamento”, embora receba este fundamento como fundamento “lançado”, afetado pela negatividade, de modo que a primeira dívida do Dasein é ter recebido e, portanto, de certo modo sempre já usurpado o ser-fundamento, devendo ao seu abandono, à sua facticidade, a própria possibilidade de se projetar livremente.
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Em segundo lugar, o ser-lançado não é um princípio abstrato, mas o fato de já se encontrar situado em determinadas possibilidades, e disso decorre que o Dasein, que deve escolher entre essas possibilidades, está “em dívida” não apenas em relação a essas possibilidades, mas no próprio ato de escolher, pois ele só é livre se escolhe, mas, ao escolher, expõe-se à revanche do não escolhido, tendo que arcar tanto com as consequências de suas escolhas quanto com as de suas não escolhas, e o não do qual resulta a dívida é duplo: o não ter escolhido suas possibilidades “próprias” e ter que carregar as outras, aquelas que ele não pode escolher ou que não pode mais escolher.
Assim ontologizada e formalizada ao extremo, a análise heideggeriana da dívida, da qual depende uma grande parte da questão ética, desemboca, na verdade, num desendividamento radical, num desligamento em relação a toda dívida factual e a toda lei ou dever determinado, pois a “ideia de dívida” deve ser desvinculada de toda relação com um dever e uma lei, em face dos quais alguém que se coloca em falta se carrega de uma culpabilidade, e Heidegger, após ter relativizado a dívida e a falta ao sublinhar seu caráter ôntico, rejeita a abordagem da dívida pelas noções de bem e de mal, afirmando que o “bem”, assim como sua privação, pertencem a uma ontologia do ente subsistente, ao passo que o ser em dívida enquanto falta pertence a um modo de existência.
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Para Heidegger, a moralidade, em todos os seus aspectos, pressupõe o ser-em-dívida originário, isto é, a facticidade irretratável das possibilidades e a “negatidade” do fundamento, mas permanece obscura a ligação entre “ser o fundamento de uma falta no Dasein de um outro” e “ser ele mesmo um fundamento-lançado”, pois o fato de que se está sempre de certa forma falho em relação às próprias possibilidades não é suficiente para explicar como isso pode “tornar possível” o bem ou o mal que se pode fazer a outrem, e a análise não explicita esse vínculo, embora afirme que o ser-em-dívida essencial ou originário é a condição existencial de possibilidade do bem e do mal “morais”, ou seja, da moralidade em geral.
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A ameaça de um “solipsismo existencial” pesa sobre a ética heideggeriana, pois a consciência não apela para nada além do si-mesmo mais próprio, e “ouvir o apelo” significa apenas compreender a necessidade existencial da escolha, submetida ao único imperativo de ter que “se escolher a si mesmo” de qualquer modo, de tal sorte que o que Heidegger denomina “querer-ter-consciência” não implica qualquer “responsabilidade” que não seja a de estar pronto para “querer ouvir” o apelo para ser si mesmo, sendo, antes, uma passagem do ser em dívida em relação aos outros para o ser em dívida em relação a si mesmo, e essa “vontade” se exerce como uma força de autopossibilitação.
O mesmo formalismo e a mesma tautologia se reproduzem, pois querer-ter-consciência é querer ser propriamente si-mesmo, mas coloca-se a questão de como o si-mesmo puro, irrelativo, poderia aceitar uma moralidade qualquer, isto é, uma relação de reciprocidade, uma vez que ele é Mitsein, “ser-com-o-outro” ou “ser-com-os-outros”, mesmo quando está só, na medida em que está no mundo, mas não está com nenhum outro determinado, e a “compreensão da voz do amigo que todo Dasein carrega em si” não pode designar a voz de um amigo determinado, ôntico, mas apenas a própria e estranha voz do Dasein.
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Uma última hipoteca termina de comprometer a ética heideggeriana, a saber, que Heidegger não compreende a ação como obediência à voz da consciência, pois “toda ação é de fato necessariamente 'sem consciência'”, e toda ação é “culpada”, é uma dívida que se torna efetiva e que suspende o apelo, porque a ação dá o salto e esquece a exigência “absoluta” e a pureza do chamado.
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Em “Ser e Tempo”, a consciência se situa anteriormente à boa e à má consciência, e a principal objeção que a análise refuta concerne ao conceito de má consciência, pois se pensa que a voz da consciência aparece como um remorso após o ato, mas a resposta de Heidegger é que nem o ato, nem sobretudo a falta e a voz da consciência são meros fatos, pois eles têm o modo de ser do cuidado, pertencendo a um ser-adiante-de-si que retorna ao seu ter-sido, de modo que a voz recorda uma dívida mais antiga do que o ato faltoso, e a má consciência apela para assumir a própria dívida, portanto, para um futuro.
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Da mesma forma, a boa consciência não se reduz à afirmação “sou bom”, mas apela para uma certa ausência de consciência, com base num “não tenho nada a me reprovar”, e, enquanto fuga diante da consciência como tal, a boa consciência remete ao modo de ser do impessoal, configurando uma possibilidade existencial cooriginária com a da consciência autêntica, uma vez que o autêntico e o inautêntico são cooriginários.
Das interpretações heideggerianas emana uma forte impressão de tautologia, de rigidez formal e de rarefação do conteúdo ético, e a crítica fundamental reside em questionar por que a consciência não pode dar nenhuma injunção determinada, uma vez que seu “apelo” não aparece “em geral”, mas sempre numa situação bem precisa, e a análise parece apenas revelar que o Dasein está radicalmente isolado e abandonado, o que levanta a suspeita de que se trata mais de um pressuposto do que de uma evidência fenomenológica.
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Coloca-se a objeção de que, se o Dasein é “essencialmente em si mesmo ser-com” e se “o ser-com é uma determinação do Dasein próprio”, não poderia surgir em nós, precisamente quando lhe somos devedores, o apelo do ser-com-o-outro, e pergunta-se se, para além da “solicitude antecipadora-libertadora”, que ajuda o outro a se tornar transparente em seu cuidado e a se tornar livre para si, não se deveria reconhecer também uma dívida “autêntica” pela qual se retribuiria ao outro aquilo que, justa ou injustamente, se lhe deve.
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A questão final que se coloca é a de saber se, mesmo que não se possa retribuir ao outro “alguma coisa”, um bem ôntico, poder-se-ia ao menos agradecer-lhe na sintonia de reconhecimento, e interroga-se se Heidegger julga essa tonalidade muito elevada para que vá de homem a homem, ou se ela se dirige apenas, como se verá posteriormente, do homem ao ser.