A terceira Crítica de
Kant introduz de imediato, de maneira indireta, um divórcio entre estética e filosofia da arte, já que a estética só pode preocupar-se com o sujeito, e não com a natureza do objeto representado, sendo o juízo estético um juízo reflexionante e não determinante, que encontra um elo necessário entre uma representação e um sentimento de prazer, relação que, embora universalizável em certas condições, permanece puramente subjetiva, afirmando
Kant que a beleza em si não é nada (§ 9º)
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A relação estética não designa nada no objeto, a não ser talvez a simples forma da finalidade (§ 11), harmonização interior que a representação de um objeto suscita, remetendo o sentimento do belo aparentemente a uma finalidade sem que o objetivo seja o conhecimento ou o próprio prazer, provindo este somente da harmonia interna entre imaginação e entendimento, o que torna o conteúdo da obra indiferente e define o belo como espécie de auto-estima subjetiva
Kant mostra que a beleza natural proporciona um prazer estético mais puro e mais intenso que a beleza artística, pois a pura forma da finalidade é mais independente de toda representação de um fim quando se encontra na natureza do que quando se encontra em uma obra de arte (§ 42)
1. A natureza e a arte: o gênio segundo Kant
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Kant dissocia duplamente e por princípio o artístico do estético, pois embora a arte produza o prazer estético, puro prazer de reflexão, a natureza produz muito mais este puro prazer, aplicando-se mal as três primeiras definições do belo dadas pela Crítica da faculdade do juízo à obra de arte
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Para que uma coisa dê lugar a um juízo de gosto universalmente comunicável, sua representação deve vir acompanhada de um tríplice sem: sem interesse, desprovida de qualquer função ou uso; sem conceito, não derivando de algum conceito de belo; e sem que represente um fim, não comportando utilidade nem conformidade a uma norma ou ideal, exigência tríplice à qual uma simples flor corresponde melhor que um quadro que represente flores
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Na arte a Ideia estética precede a obra, enquanto na bela natureza basta uma simples reflexão a partir de uma intuição não preconcebida para despertar uma ideia, sendo a arte a expressão de Ideias estéticas, representações da imaginação que oferecem perspectivas ilimitadas de unificação dos atributos estéticos dos objetos (§ 49)
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A ideia estética supera o poder unificador do conceito, permitindo à imaginação pensar um indizível situado além do entendimento, devendo o artista possuir, mesmo obscuramente, tais Ideias, que ele próprio só descobre depois, enquanto a natureza apenas sugere livremente essas Ideias, das quais parece ser a expressão, sendo somente ela capaz de possibilitar um juízo estético puro, não referenciado a uma intenção prévia
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A superioridade da natureza sobre a arte evidencia-se também no próprio campo da arte, pelo fato de a arte precisar do modelo da natureza para ser ela mesma, perdendo a aparência de arte caso sua finalidade seja excessiva e manifestamente intencional
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A natureza serve assim de modelo para a arte, mas, enquanto Ideia estética, este modelo não pode ser conceitualizado, sendo aquele através de quem a natureza se exprime diretamente, sob forma de dons naturais, chamado por
Kant de o gênio, disposição inata do espírito pela qual a natureza dá regras à arte (§ 46)
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Só os maus artistas conhecem de antemão seu produto, tendo o gênio algo em comum com a espontaneidade da natureza por ser incapaz de dizer de onde lhe vêm suas ideias, repetindo
Kant nos §§ 46 e 47 que ele mesmo não sabe, devendo o produto da arte, tal como o da natureza, poder ser pensado como uma finalidade que não decorre de um conceito prévio, sendo os artistas inconscientes na medida em que não podem conceber a regra pela qual devem realizar seu produto
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Há uma dimensão inexprimivelmente natural na produção artística, na atividade criadora do sujeito, na qual
Schelling verá o ponto de identidade metafísica entre a liberdade e a natureza, sendo por intermédio do gênio, chamado de um favorito da natureza (§ 49), que a arte é um produto da natureza, embora
Kant não seja um romântico, pois precisa tratar-se da natureza do sujeito, a livre disposição de suas faculdades, o jogo harmonioso da imaginação e do entendimento
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O classicismo de
Kant aparece igualmente no fato de que, para ele, o gênio deve estar submetido à norma do gosto, a natureza excepcional à natureza universal
2. A classificação kantiana das artes
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Kant classifica as belas-artes em três espécies, segundo as três formas de expressão de que os homens se servem para comunicar não só seus conceitos, mas também suas sensações: a palavra, o gesto e o tom, originando a arte da palavra, que enquadra a poesia e a eloquência, a arte figurativa, que compreende as artes plásticas — escultura e arquitetura — e a arte da aparência sensível — pintura e arte dos jardins —, e a arte do belo jogo de sensações, que compreende a música e a arte das cores
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As páginas dedicadas a esta classificação não citam obra alguma, escola, movimento artístico ou nome de artista, pois são as próprias definições, mais que o material das obras, que fazem intervir as faculdades do sujeito, definindo-se a poesia como a arte de conduzir o livre jogo da imaginação como uma atividade do entendimento, definição que poderia caber igualmente a uma narrativa em prosa e que nada diz do uso especificamente poético da língua, em que as palavras são tratadas antes de mais nada como sons, e não principalmente como signos
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Quanto à pintura,
Kant contenta-se em indicar que ela dá apenas a aparência da extensão corporal, preferindo-lhe, ao que parece, a arte dos jardins, que ornamenta o solo de maneira concreta e não ilusória, fazendo muito seriamente o elogio dos canteiros de flores como aptos a manter a imaginação em um livre jogo com as ideias