Três notas de rodapé evocam Kierkegaard:
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A primeira trata da angústia (Angst) e remete a O Conceito de Angústia (1844).
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A segunda trata da problemática existencial, remetendo aos Discursos Edificantes e ao Conceito de Angústia.
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A terceira trata do conceito de instante (Augenblick) e da concepção de temporalidade [Zeitlichkeit] que esse conceito pressupõe.
É plausível que os impulsos kierkegaardianos também concernam a análise do cuidado [Sorge], do ser-culpável [Schuldigsein] e do ser-para-a-morte [Sein-zum-Tode], que implicam a leitura de A Doença para a Morte (1849).
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Análise da angústia e do papel precursor de Kierkegaard.
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Na longa nota ao §40 de Ser e Tempo, Heidegger destaca a importância dada ao problema antropológico do ser do ser humano sobre os fenômenos da angústia e do medo (cuidadosamente distinguidos), bem como da fé, do pecado, do amor e do remorso, ontologicamente no círculo de visão da teologia cristã.
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Cita Santo
Agostinho, Lutero e Kierkegaard, ressaltando que foi este último
que avançou mais longe na análise do fenômeno da angústia, e isso novamente no contexto teológico de uma exposição 'psicológica' do problema do pecado original, referindo-se a
O Conceito de Angústia.
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Crítica à falta de problemática existencial e submissão a
Hegel.
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A nota ao §45 de Ser e Tempo articula o reconhecimento do papel pioneiro de Kierkegaard na apreensão existencial do problema da existência com uma dupla reserva que Heidegger manterá posteriormente.
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Heidegger afirma: No século XIX, S. Kierkegaard se apoderou expressamente do problema da existência como problema existencial [existenziell] e o pensou com penetração. Mas a problemática existencial [existenziale] lhe é tão estranha que ele continua a se manter, em relação à ontologia, sob o império de Hegel e das visões de Hegel sobre a filosofia antiga. Nele, filosoficamente há mais a aprender de seus escritos 'edificantes' do que de seus escritos teóricos – com exceção do tratado sobre o conceito de angústia.
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Esta dupla reserva (ausência de acesso à problemática existencial e submissão à tradição metafísica hegeliana) parece limitar o aporte de Kierkegaard a uma apreensão puramente existencial [existenziell] da finitude da existência.
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Crítica à compreensão do
instante e da
temporalidade.
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A nota ao §68 de Ser e Tempo (sobre a temporalidade da abertura do ser-o-aí) repete o reconhecimento com nuances: S. Kierkegaard viu sim, e da maneira mais penetrante, o fenômeno existencial do instante [Augenblick]; o que não quer dizer, porém, que também tenha chegado à interpretação existencial [existenziale] que lhe corresponde. Ele permanece no conceito ordinário de tempo e determina o instante com a ajuda do agora e da eternidade. Quando fala de 'temporalidade' [Zeitlichkeit], pensa no 'estar-no-tempo' do homem. O tempo como intra-temporalidade [als Innerzeitigkeit] só conhece o agora, e nunca o instante [Augenblick]. Se este vem a ser experimentado existencialmente [existenziell], então uma temporalidade mais originária é pressuposta, mas existencialmente [existenziale] não explicitada.
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Se Kierkegaard suspeitou algo dessa temporalidade mais originária, foi à mercê de um estreitamento do conceito de existência pela cristandade, portanto como escritor religioso mais do que como pensador original.
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Estatuto de
escritor religioso versus
pensador.
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Heidegger reconhece o impacto de Kierkegaard no existencialismo moderno, atribuído a uma certa forma de renovação de pensamentos kierkegaardianos.
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Porém, este estatuto híbrido de escritor religioso não basta para fazer Kierkegaard escapar nem ao império metafísico de Hegel e do idealismo alemão, nem ao império onto-teológico da teologia cristã.
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Heidegger chega a apresentar
Marx e Kierkegaard como
os maiores dos hegelianos, ainda que
contra sua vontade.
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No entanto, reconhece a
Nietzsche o estatuto de
pensador, à altura de Aristóteles, estatuto que não pode reconhecer a Kierkegaard.
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O comum aproximação entre Nietzsche e Kierkegaard lhe parece desconhecer uma desconhecimento do aître mesmo do pensar: Nietzsche é um pensador metafísico que se move na proximidade de Aristóteles, enquanto Kierkegaard lhe permanece essencialmente afastado.
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Heidegger conclui: Kierkegaard não é um pensador, mas um escritor religioso; não, porém, um escritor religioso entre outros, mas o único que está à medida do destino de sua época. Nisso reside sua grandeza.
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Julgamento final sobre a relação com a questão do Ser.
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Se Kierkegaard, pela mediação da própria metafísica de Hegel (que combate), permanece filosoficamente preso a uma tradição aristotélica dogmática e à subjetividade do idealismo alemão, é preciso fazer-lhe justiça: não se pode querer negar, de maneira unilateral, os impulsos que partiram de Kierkegaard em relação ao renovo da consideração concedida ao 'existencial'.
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Mas é importante não perder de vista que Kierkegaard não sustenta a mínima relação com a questão decisiva que indaga do aître do Ser.