A relação entre hermenêutica e fenomenologia caracteriza-se por uma tensão histórica onde, apesar da hostilidade inicial de Edmund
Husserl ao historicismo, a própria análise da intencionalidade acaba sendo descrita por ele como uma hermenêutica da vida da consciência [2].
-
Tensão latente descrita por Paul Ricœur como subversão.
-
Conferência de 1931 sobre Fenomenologia e Antropologia.
-
Equivalência entre hermenêutica e elucidação da intencionalidade ou Deutung.
-
Corolação entre intenção e dado.
A metodologia fenomenológica em Ser e Tempo exige a complementação hermenêutica para superar a trivialidade da descrição superficial e realizar a destruição crítica das conceptualidades que encobrem o ser e a essência do Dasein [3].
-
Caráter ingênuo e trivial do retorno às coisas mesmas sem crítica.
-
Necessidade de desobstrução do essencial encoberto.
-
Lógica do evitamento da questão do tempo.
-
Indissociabilidade entre os olhares fenomenológico e hermenêutico.
A indissociabilidade entre os campos revela que o ser não pode ser dito sem a mediação hermenêutica da linguagem, mantendo-se a pesquisa heideggeriana tardia como uma explicação com a história da metafísica em busca de uma nova fenomenologia do ser [4].
-
Necessidade de apontar o fenômeno dos fenômenos.
-
Caráter poético do pensamento sobre a linguagem.
-
Título A caminho da linguagem como resumo da condição humana.
A obra de Paul Ricœur e Hans-Georg Gadamer inscreve-se no contexto da virada hermenêutica da fenomenologia, partindo do pressuposto comum da interdependência impraticável entre as duas disciplinas, ainda que descrita de modos distintos [5].
A abordagem de Paul Ricœur postula a impossibilidade da descrição direta dos fenômenos sem o recurso ao desvio hermenêutico, concepção desenvolvida de forma autônoma e prévia ao diálogo com as obras de Hans-Georg Gadamer ou Martin Heidegger [6].
-
Independência da gênese do pensamento ricœuriano.
-
Ausência de referências iniciais a Verdade e Método.
-
Primazia do conceito de desvio pelas interpretações.
A entrada de Paul Ricœur na hermenêutica decorre da investigação sobre a simbólica do mal, onde a perversão da vontade se mostra refratária à tematização direta e exige a mediação interpretativa dos símbolos [7].
-
Origem da reflexão na década de 1950.
-
Impossibilidade de acesso imediato ao problema do mal.
-
Necessidade de hermenêutica dos símbolos.
O desenvolvimento da hermenêutica dos símbolos propiciou o diálogo com a exegese bíblica e manteve a filiação ao paradigma diltheyano da interpretação das objetivações, ainda que ampliando seu alcance semântico [8].
A aplicação da hermenêutica diltheyana ao universo simbólico preserva a intenção epistemológica original de tornar inteligível a lógica das objetivações e estabelecer as condições de validade da compreensão nas ciências humanas [9].
A extensão do arco hermenêutico abrange desde a psicanálise e a teoria do texto até a compreensão de si, mantendo sempre o foco na reflexão sobre os sentidos depositados em formas objetivas que demandam a integração de abordagens explicativas [10].
-
Inclusão de metáfora, narrativismo e história.
-
Retorno ao projeto de hermenêutica da existência.
-
Necessidade de confronto com o estruturalismo e a economia freudiana.
A compreensão do sentido impõe, na perspectiva ricœuriana, a obrigatoriedade do trânsito indireto através da ordem das objetivações [11].
A crítica de Hans-Georg Gadamer ao privilégio da objetivação identifica nela um resíduo cartesiano e contrapoe-lhe a facticidade da compreensão baseada no modelo da experiência da arte, onde a verdade reside no ser capturado pelo sentido e não no distanciamento metódico [12].
-
Influência de Martin Heidegger na desconfiança metodológica.
-
Primazia do ser-jogado ou ser-preso pelo sentido.
-
Caráter tardio e secundário da análise objetivante.
-
Fusão entre quem compreende e o compreendido.
A divergência fundamental entre os autores reside na filiação de Paul Ricœur ao paradigma metodológico das objetivações em contraste com a ênfase gadameriana na ontologia do Dasein como o local de advento do sentido, dificultando o diálogo efetivo entre as duas vertentes [13].
-
Percepção de Paul Ricœur como continuador de Wilhelm Dilthey.
-
Oposição entre método epistemológico e acontecimento ontológico.
-
Diferença nos pontos de partida filosóficos.
A articulação entre as disciplinas difere na medida em que Paul Ricœur propõe o enxerto da hermenêutica na fenomenologia via objetivações, enquanto Hans-Georg Gadamer opera uma virada fenomenológica da própria hermenêutica para superar o viés epistemológico tradicional [14].
-
Distinção entre o desvio pelas obras e o retorno à experiência originária.
-
Foco de Verdade e Método na história da hermenêutica.
-
Identificação da hermenêutica diltheyana como epistemológica.
A obsessão diltheyana com a fundamentação científica das humanidades é contestada por impor um ideal de objetividade exógeno que deforma a natureza específica da verdade na compreensão, submetendo-a a critérios de distanciamento e controle alheios à sua essência [15].
-
Combate ao arbítrio subjetivo como motivação de Wilhelm Dilthey.
-
Inadequação do modelo das ciências exatas.
-
Distorção da verdade pela distância objetivante.
A verdade hermenêutica manifesta-se na arte, na práxis e na linguagem cotidiana como resposta a um apelo que nos interpela, estrutura que não se confunde com o subjetivismo arbitrário nem depende do distanciamento objetivante [16].
-
Exemplo da evidência na arte e na moral.
-
Compreensão como ser-preso pelo sentido.
-
Resposta a um apelo ou interpelação.
O recurso às ciências objetivantes possui utilidade reconstrutiva, porém secundária, uma vez que a compreensão genuína ocorre em um nível anterior que implica necessariamente a aplicação do sentido à consciência do intérprete [17].
-
Posterioridade lógica da análise estrutural.
-
Condição de possibilidade da verdade na interpelação pessoal.
-
Elemento inerradicável da aplicação.
O imperativo de superar o paradigma epistemológico visa resgatar o tema da verdade para a hermenêutica, deslocando o foco dos critérios de validação objetiva para o acontecimento do desvelamento de sentido característico da investigação fenomenológica [18].
-
Risco de mascaramento da experiência de compreensão pela epistemologia.
-
Título programático em Verdade e Método sobre a pesquisa fenomenológica.
-
Reconquista do tema da verdade.
O retorno à fenomenalidade implica situar a compreensão como forma de realização originária da vida e da autocompreensão, anterior à codificação científica, permitindo definir o rigor e o método das ciências humanas a partir de sua própria práxis efetiva [19].
-
Recusa dos ídolos da epistemologia.
-
Compreensão como tradução de sentido para o sujeito.
-
Legitimação da verdade interna das humanidades.
-
Fenomenologia das ciências humanas.
A paternidade teórica da virada fenomenológica remonta à redefinição husserliana da consciência como intencionalidade aberta ao mundo da vida, onde a historicidade e o contexto de sentido atuam como condições de possibilidade e não obstáculos [20].
-
Contribuição de Edmund Husserl e Martin Heidegger.
-
Superação da subjetividade isolada.
-
Inserção da consciência na trama da vida e do sentido.
A radicalização do projeto exige o abandono da pretensão husserliana ao saber apodítico, cujas raízes ontológicas não elucidadas prendem a fenomenologia a modelos epistemológicos incompatíveis com a facticidade da linguagem e da vida [21].
-
Limitação da fenomenologia de Edmund Husserl.
-
Crítica heideggeriana aos esquemas de pensamento cientificistas.
-
Necessidade de fundamentos ontológicos elaborados a partir dos fenômenos.
A concepção heideggeriana desloca a compreensão da esfera do conhecimento teórico para a de uma competência existencial de orientação no mundo, onde a busca por sentido emerge fundamentalmente da experiência de estranhamento e não-familiaridade [22].
-
Saber como poder-ser ou capacidade.
-
Prioridade do não-senso na motivação do compreender.
-
Pressuposto da ausência de familiaridade.
O caráter projetivo da compreensão envolve o sujeito em um investimento de si que pode ser explicitado pela interpretação, oscilando entre as antecipações inautênticas do senso comum e a possibilidade de uma apropriação autêntica que serve de horizonte necessário à consciência da própria inautenticidade [23].
-
Definição de Auslegung como explicitação do compreender.
-
Papel dos rumores e do on nas antecipações inautênticas.
-
Função da má consciência e da dívida ou Schuldigsein.
-
Autenticidade como utopia pressuposta.
A hermenêutica da existência define-se como o esforço fenomenológico de apropriação das possibilidades de compreensão pelo Dasein, que, ao compreender o ser, torna-se capaz de voltar-se reflexivamente sobre seu próprio ato de compreender [24].
-
Natureza estritamente fenomenológica da descrição existencial.
-
Circularidade da compreensão do ser.
-
Lembrança da compreensão a si mesma.
O posicionamento de Hans-Georg Gadamer e Paul Ricœur caracteriza-se por um certo recuo diante da radicalidade da hermenêutica da existência, deslocando o foco da apropriação das antecipações ontológicas para a realização concreta da compreensão nas obras e na história [25].
-
Diferença de escopo em relação a Martin Heidegger.
-
Foco heideggeriano na desconstrução da metafísica da presença.
-
Interesse na realização ou Vollzug da compreensão.
A prática fenomenológica em seus desdobramentos hermenêuticos deve ser compreendida fundamentalmente como uma virtude do olhar capaz de fazer ver os fenômenos por si mesmo, e não como um conjunto rígido de regras metodológicas ou domínio de objetos [26].
-
Autonomia da visão fenomenológica.
-
Recusa da definição restritiva de método.
-
Capacidade de ver por si mesmo.
A complementariedade das trajetórias revela que Hans-Georg Gadamer submete a hermenêutica a um banho de fenomenologia para expurgar o psicologismo e o metodologismo, enquanto Paul Ricœur imerge a fenomenologia na hermenêutica para curá-la da ilusão da visão direta e da fundação última [27].
-
Hermenêutica filosófica versus Fenomenologia hermenêutica.
-
Correção mútua dos vícios das tradições de origem.
-
Capacidade de leitura e visão.
O projeto gadameriano visa destruir a hegemonia do ideal de domínio metodológico para revelar a eficácia da história e da linguagem como condições positivas da verdade, e não como obstáculos à objetividade científica [28].
-
Denúncia do instrumentalismo e do ideal de controle.
-
Reabilitação da consciência da história dos efeitos ou Wirkungsgeschichte.
-
Vigilância da condição langagière da compreensão.
A trajetória tardia de Paul Ricœur retorna ao projeto de uma hermenêutica da existência e da ipseidade, cumprindo rigorosamente a exigência heideggeriana de que a filosofia, nascida da interrogação da vida, deve refluir sobre a própria compreensão de si do existente [29].
-
Persistência da destruição fenomenológica através do desvio.
-
Passagem da filosofia reflexiva para a hermenêutica do si.
-
Equivalência final entre os dois movimentos de virada.
-
Fenômeno do re-jaillir ou zurückschlagen.