Se a hermenêutica renuncia a uma fundamentação última, isso ocorre porque, desde o início, ela renuncia a um entendimento baseado em um vocabulário prévio capaz de traduzir adequadamente todos os discursos, surgindo ainda, para uma filosofia pós-fundacionista, o problema da compreensão da multiplicidade de paradigmas, ponto no qual
Rorty toca em uma questão-chave para a hermenêutica e aproxima-se muito da posição de
Gadamer. Longe de ser uma questão de apropriação e subjugação, o entendimento demonstra respeito pelo vocabulário no qual a incomensurabilidade do outro é articulada, sendo que o entendimento sugerido pela hermenêutica assemelha-se mais, segundo
Rorty, a travar conhecimento com uma pessoa do que a acompanhar uma demonstração. O tema de um diálogo com parceiros que são diferentes e incomensuráveis é desenvolvido com base no conceito hermenêutico de
Bildung, palavra alemã complexa e multifacetada que
Rorty traduz não como educação, mas como edificação, termo que para ele não significa o conhecimento do que está lá fora, mas sim formar a si mesmo e aos outros, de modo que a edificação deve ser tomada como a reinterpretação do nosso ambiente familiar. A edificação não é necessariamente construtiva, pois o discurso edificante deve ser anormal, para nos tirar de nossos velhos eus pelo poder da estranheza e nos ajudar a nos tornarmos novos seres, sendo um erro, contudo, entender a edificação como uma estrutura erguida sobre fundações, pois a edificação é, por sua vez, diálogo, e embora
Rorty indique uma saída da epistemologia, sua resposta não é fundacionista, uma vez que aponta para a possibilidade de deixar o diálogo infinitamente aberto.