A concepção apresentada acerca da literatura pode proceder de uma retroprojeção romântica derivada de uma consciência de formação alienada, uma vez que, embora a literatura como objeto de leitura seja fenômeno tardio, o caráter escrito pertence originariamente ao grande fazer poético, como indica o abandono da ideia romântica da originalidade da poesia épica, por exemplo a de
Homero, evidenciando-se que a escrita é mais antiga do que se supunha e que a poesia já existe como literatura mesmo antes de ser consumida como leitura, não representando novidade essencial o predomínio posterior da leitura face à conferência, como no caso da repulsa aristotélica ao teatro.
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Crítica à retroprojeção romântica.
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Caráter escrito como dado originário do fazer poético.
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Superação da ideia romântica sobre Homero.
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Antiguidade da escrita no elemento espiritual da poesia.
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Predomínio da leitura não configura inovação essencial.
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Especialmente na leitura em voz alta torna-se patente que não se pode traçar distinção nítida entre leitura silenciosa e leitura sonora, pois toda leitura compreensiva constitui forma de reprodução e interpretação, na qual entonação e articulação rítmica pertencem também ao silêncio, dado que o significativo e sua compreensão estão intrinsecamente vinculados ao linguístico-corporal, implicando sempre um falar interior.
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Leitura como reprodução e interpretação.
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Presença de entonação e ritmo também no silêncio.
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Vinculação do significativo ao linguístico-corporal.
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Compreensão como falar interior.
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A literatura, por exemplo na forma peculiar do romance, possui na leitura uma existência tão originária quanto a épica na declamação do rapsodo ou o quadro na contemplação do observador, permanecendo a leitura ocorrência em que o conteúdo se torna representação, ainda que marcada por grau máximo de desvinculação e mobilidade, como se evidencia na possibilidade de interromper e retomar o livro, o que revela que a leitura corresponde à unidade do texto.
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Existência originária da literatura na leitura.
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Paralelo com rapsodo e contemplação pictórica.
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Leitura como representação do conteúdo.
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Mobilidade e possibilidade de interrupção.
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Correspondência entre leitura e unidade textual.
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A forma de arte que é a literatura só pode ser concebida a partir da ontologia da obra de arte e não das vivências estéticas sucessivas da leitura, pertencendo a leitura essencialmente à obra literária tanto quanto declamação ou execução, todos graus do que se costuma chamar de reprodução, a qual constitui na realidade o modo de ser original das artes transitórias e modelo para a determinação do ser da arte em geral.
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Primado da ontologia da obra de arte.
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Leitura como elemento essencial da obra literária.
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Reprodução como modo de ser originário.
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Exemplificação para o ser da arte em geral.
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O conceito de literatura encontra-se vinculado ao seu receptor não como sobrevivência morta de um ser alienado, mas como função de preservação e transmissão espiritual que traz a cada presente a história oculta, sendo a tradição dos clássicos, desde os filólogos alexandrinos até a disputa entre anciens et modernes, uma tradição cultural viva que reconhece o exemplar e o transmite como modelo permanente.
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Literatura como preservação e transmissão espiritual.
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Formação dos cânones pelos filólogos alexandrinos.
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Tradição viva dos clássicos.
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Referência à disputa entre anciens et modernes.
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O desenvolvimento da consciência histórica transforma a unidade viva da literatura universal em questionamento histórico da história da literatura, processo provavelmente inconcluso, tendo sido
Goethe o primeiro a cunhar o conceito na língua alemã com sentido normativo ainda evidente, sentido que persiste quando se atribui a uma obra significado duradouro como pertencente à literatura universal.
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Transformação pela consciência histórica.
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Processo inacabado.
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Cunhagem do conceito por Goethe.
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Persistência do sentido normativo.
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O pertencimento à literatura universal implica ocupar lugar na consciência de todos e pertencer ao mundo, ainda que o mundo atual esteja distante do mundo originário da obra, pois o sentido normativo indica que tais obras continuam falando mesmo em contexto diverso, como comprova a literatura traduzida, sendo o modo de ser histórico da literatura que possibilita tal pertença.
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Distância entre mundos históricos.
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Continuidade da fala das obras.
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Prova pela literatura traduzida.
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Historicidade como condição de universalidade.
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A pertença normativa à literatura universal amplia o conceito de literatura para além da obra de arte literária, abrangendo toda tradição linguística, textos religiosos, jurídicos, econômicos, públicos e privados, escritos científicos e o conjunto das ciências do espírito, bem como toda investigação vinculada essencialmente à linguagem, sendo a capacidade de escrever o que delimita o sentido mais amplo de literatura.
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Inclusão de textos não artísticos.
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Abrangência das ciências do espírito.
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Literatura como tradição linguística.
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Escrita como critério delimitador.
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A aplicabilidade ao amplo sentido de literatura do que foi afirmado sobre o modo de ser da arte torna-se problemática, pois o sentido normativo desenvolvido pode parecer reservado às obras literárias consideradas como arte, levantando-se a questão acerca da participação fundamental das demais formas de ser literário na valência de ser da arte.
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Reserva possível do sentido normativo.
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Problema da participação das demais formas literárias.
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Ampliação ou restrição da valência artística.
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Obras científicas podem alcançar reconhecimento como arte literária em razão de sua qualidade de formulação, mas a crítica à consciência estética torna duvidoso o critério que separa arte literária e literatura, pois nem mesmo a obra poética se compreende pela mera formulação, mas pelo significado de conteúdo que nos fala, o qual compartilha com outros textos literários.
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Exemplos de obras científicas com qualidade literária.
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Limitação da consciência estética.
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Centralidade do significado do conteúdo.
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Comunhão entre poesia e demais textos.
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A diferença entre obra de arte literária e outros textos literários deixa de ser fundamental quando se considera que, embora haja distinções de linguagem entre poesia, prosa poética e prosa científica, a diferença essencial reside na diversidade da reivindicação de verdade que cada uma levanta, havendo profunda comunhão no fato de que a formulação linguística torna operante o significado, aproximando a compreensão historiográfica da experiência da arte.
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Diferenças linguísticas não decisivas.
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Diversidade de reivindicações de verdade.
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Operatividade do significado pela linguagem.
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Aproximação entre historiador e experiência artística.
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No fenômeno da literatura encontra-se o ponto de passagem entre arte e ciência, pois a escrita constitui a compreensibilidade do espírito tornada estranha e exige tarefa específica de compreensão, realizando no deciframento a transformação do estranho em familiar, diferentemente das relíquias materiais do passado, sendo a leitura como arte secreta que suspende espaço e tempo e atualiza o passado.
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Literatura como passagem entre arte e ciência.
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Escrita como estranhamento máximo.
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Deciframento como transformação espiritual.
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Suspensão de espaço e tempo na leitura.
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O conceito mais amplo de literatura torna-se válido porque, assim como o ser da obra de arte é jogo que se cumpre na recepção pelo espectador, também os textos somente na compreensão retransformam o rastro de sentido morto em sentido vivo, impondo a pergunta acerca de saber se o compreender pertence ao acontecer de sentido de todo texto, inclusive dos que não são obras de arte, tal como na música o fazer-com-que-se-torne-audível pertence ao seu ser.
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Paralelo entre arte e textos em geral.
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Compreensão como reativação do sentido.
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Realização do sentido na recepção.
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Problema da liberdade interpretativa.