Mundo Codificado

A obra conhecida em português como O Mundo Codificado: Por uma filosofia do design e da comunicação corresponde originariamente a uma coletânea temática de ensaios compilada e editada postumamente na Alemanha por Andreas Müller-Pohle (fundador da editora European Photography e colaborador próximo de Flusser):

1. Edição Original em Língua Alemã

2. Edição Brasileira e Organização Textual

3. Eixos Temáticos e Arquitetura Conceitual


Tópicos da apresentação de Rafael Cardoso

1. Design e comunicação, separados pelas burocracias acadêmicas em departamentos distintos, são para Flusser desdobramentos interdependentes de um mesmo fenômeno maior, a codificação da experiência, pois todo artefato nasce do ato de dar forma à matéria segundo uma intenção, o que corresponde ao sentido etimológico estrito de in-formação, de modo que, em sentido amplo, fabricar é informar, origem também do uso menos comum de fabricar como inventar ideias ou versões, como em fabricar um álibi.

2. Todo objeto manufaturado visa transformar as relações do usuário com seu entorno para dele extrair proveito e, ao concretizar uma possibilidade de uso, torna-se modelo e informação, como a alavanca que, uma vez compreendida, faz qualquer vara de madeira ou metal ser vista em seu potencial para a mesma finalidade, adquirindo função e significado pela existência prévia de um conceito, o que mostra que informar também é fabricar.

3. Essa constatação, longe de óbvia, contraria a divisão do design em projeto de produto e comunicação visual, mantida por deferência a uma tradição gasta de prática profissional, e a separação entre programação visual e demais aspectos da comunicação, movida por um corporativismo que preserva feudos profissionais e de ensino, quando livros e revistas também têm existência tridimensional, são feitos de matérias-primas, fabricados industrialmente e distribuídos e vendidos como produtos.

4. Do mesmo modo, cadeiras e garrafas participam de um universo de significação regido por códigos próprios e são suportes de informação dotados de semântica, pois, se não o fossem, não haveria sentido em diferenciar a aparência de objetos destinados ao mesmo uso, nem existiriam moda, estilo ou variação formal alheia a critérios estritos de operacionalidade, e é ao situar-se acima dessas divisões do senso comum que Flusser permite enxergar o problema maior da codificação do mundo.

5. As implicações dessa concepção são imensas e levam a rejeitar, no campo da comunicação em sentido amplo, a dicotomia entre representação e referente, signo e coisa em si, teoria e prática das estruturas de linguagem, já que fabricar e informar são aspectos de um mesmo programa, manifestações da ação humana única de impor sentido ao mundo por meio de códigos e técnicas, isto é, arte, palavra hoje acuada da qual derivam artefato, artifício e artificial.

6. A base de toda cultura é a tentativa de enganar a natureza por meio da tecnologia, ou maquinação, realizada com tal engenho que o mundo parece corresponder ao sistema conceitual que lhe é imposto, a ponto de regras numéricas abstratas descreverem, explicarem e preverem a experiência sensorial, e de os códigos humanos permitirem construir versões alternativas da realidade, mundos paralelos e múltiplas experiências do aqui e agora que convencem, comovem e se tornam reais na medida da crença coletiva em sua eficácia, como mostram, de forma primitiva e primorosa, as imagens e os textos de ficção.

7. A pergunta capciosa sobre se uma árvore que cai no espaço virtual sem ninguém online gera uma mensagem de aviso convida a examinar os códigos e convenções de um cotidiano cada vez mais sofisticado, num mundo de enorme complexidade construído com palavras, imagens e artefatos cuja lógica profunda permanece oculta para a imensa maioria de seus habitantes e inacessível até para os autores do programa, suscitando questões sobre a diferença entre material e imaterial, a troca de coisas por não-coisas, o armazenamento de ambas e o destino dos detritos dessa transformação frenética da natureza em cultura, cujo resultado final é um imenso acúmulo de lixo, ainda que eletrônico.

8. O fim da história parece coincidir com o esgotamento da capacidade coletiva de lutar contra a entropia, a desagregação do sentido e da forma, e, se a cultura reside no ato de in-formar, revela-se o paradoxo de que o excesso de informação conduza à desagregação do sentido, questão à qual Flusser responde com uma visão aterradoramente lúcida do admirável mundo novo inaugurado no século retrasado pela industrialização e pela imagem técnica, cuja primeira manifestação teria sido a fotografia.

9. A filosofia flusseriana leva a visão de mundo além do burburinho histórico de nomes, datas, relações e contextos e permite desvendar a lógica ampla do sistema engendrado pela humanidade em sua tentativa milenar de superar limitações físicas pela tecnologia, conduzindo, a partir do passado mítico de Deus e o diabo, Prometeu e o fogo roubado, os astros e as estações, até o limiar de eternidades artificiais manipuláveis por profetas, deuses e criadores, isto é, por designers de mundos projetados, percurso perigoso que exige atravessar a consciência histórica e abalar a crença na cronologia, na causalidade e até na certeza do destino da espécie.

10. Apesar do humanismo profundo que a motiva, essa filosofia não aponta para uma apoteose da humanidade, mas situa o indivíduo como nódulo numa rede de interações e possibilidades, vivendo em simbiose com as máquinas que criou e obrigado a renunciar ao controle de uma realidade transformada por sua própria ação, escravo de uma segunda natureza artificial que, ao contrário da antiga, existe em tese a serviço de seu bem-estar, enquanto o futuro do mundo robotizado, que abrange informática e biotecnologia, permanece incerto, pois máquinas mais eficientes e inteligentes começam a poder prescindir do humano.

11. Para quem estuda design ou comunicação, a compreensão adequada dessa filosofia conduz a uma conclusão menos pessimista do que parece, pois o que se torna supérfluo é a paisagem tecnológica herdada da Revolução Industrial, feita de matemática, física, mecânica e engenharias, de aço, concreto, alumínio, plásticos, cabos e condutores, isto é, o paradigma da tecnologia concreta, tangível e atual e a ilusão de controle absoluto do sistema, ao passo que a experiência do mundo passa a ser regida por outros códigos e convenções, por linguagens e projetos capazes de reformular mais a percepção do que a paisagem.

12. Com o ingresso pleno na era da imagem técnica, há de certo modo um retorno ao tempo anterior ao discurso linear e histórico, e a grande arena da transformação possível e das poucas utopias restantes situa-se no limiar entre verbal e visual, material e imaterial, precisamente no campo do projeto de design e comunicação, sem que isso signifique o salvacionismo de vozes proféticas como Buckminster Fuller ou Victor Papanek, pois Flusser jamais apostaria num final feliz, já que todo projeto é ao mesmo tempo solução e obstáculo e a única certeza é o aumento geométrico da complexidade, de resultado indeterminado entre agregação e desagregação, facilmente confundidas, restando como nova fronteira a consciência do sistema construído, que mais completamente comanda quando dá a impressão de ser usufruído.

13. A crescente importância do conceito de virtualidade talvez seja a prova mais elegante de que Flusser tinha razão, pois, embora tachado de pouco sério ou alarmista ao surgir no cenário internacional nos anos 1980, sua reputação só cresceu, a ponto de ser considerado talvez o primeiro verdadeiro filósofo do predomínio das linguagens visuais e digitais, a era pós-histórica da idolatria e da caixa-preta, e esta seleção de textos publicados no exterior e inéditos no Brasil busca apresentá-lo ao público de design e comunicação como pequena amostra de uma obra rica e variada que merece mais atenção dos estudiosos brasileiros, especialmente do meio de artes, design e comunicação, seu público eleito, e na qual ainda há muito a ler e descobrir.

14. Diante das poucas certezas deixadas por essa filosofia, resta situar a vida de Vilém Flusser em seu contexto, marcada, como sua obra, por um esforço heroico de tornar inteligível um mundo complexo e tumultuado, escrevendo em vários idiomas, sobretudo alemão, português e inglês, sobre temas tão diversos quanto design, fotografia, mídias eletrônicas, comunicação, teoria da informação, escrita, literatura, filosofia e religião, sem recuar diante do desafio de conciliar a tradição iluminista com as forças aparentemente caóticas e destrutivas que desagregam em escala planetária as antigas certezas civilizatórias, o que faz dele talvez a última voz da razão no sentido mais elevado da palavra.