E se...

FLUSSER, Vilém. Angenommen: Eine Szenenfolge. Göttingen: European Photography, 1989./ What If? Twenty-Two Scenarios in Search of an Answer. Translated by Anke Finger and Kenneth Kronenberg. Minneapolis: Univocal Publishing, 2014 / Supposons: Une suite de scènes. Traduit de l'allemand par Paul Virilio. Paris: Les Impressions Nouvelles, 1991 / E se…: Vinte e dois cenários em busca de uma resposta. Tradução de Rachel Abi-Sâmbrâ. São Paulo: É Realizações, 2016.

Arquitetura Metodológica e Eixos Conceituais


Tópicos da apresentação de Anke Finger

No slipstream do “campo de possibilidades” de Flusser

1. Convidado em 1988 a falar sobre ficção científica no Clube de TV de Viena, Vilém Flusser a define como zona cinzenta em que ciência e ficção, fato e ficção, se sobrepõem, mas a considera em geral uma decepção, pois dela se esperariam hipóteses científicas fictícias e teorias alternativas às de Darwin ou Einstein, quando a imaginação se mostra muito mais viva na ciência dura do que na maioria dos textos do gênero, problema ligado ao conceito contemporâneo de verdade, cuja superação exige desaprender a busca de distinções nítidas entre certo e errado, verdadeiro e falso, e revivificar as tradições escolástica e talmúdica, buscando um nível do absurdo em que a verdade de algum modo transpareça, de modo que a ficção científica deveria tornar-se uma epistemologia do estranho, uma contraciência que exige ao mesmo tempo gosto pelo improvável e rigor científico, e um ano depois ele publica Angenommen: Eine Szenenfolge, enquanto cai o Muro de Berlim.

2. No mesmo ano, muito longe dali, Bruce Sterling lamenta que a ficção científica, tal como a antiga vanguarda da humanidade progressista, o Partido Comunista, tenha perdido contato com suas razões culturais de ser, acusando sobretudo a ficção científica dura de ter perdido sua identidade interior, inovação e criatividade, e propõe um novo gênero para designar uma escrita contemporânea voltada contra a realidade consensual, fantástica, por vezes surreal, ocasionalmente especulativa sem rigor, capaz de provocar uma sensação de profunda estranheza, que, em vez de chamar romances de sensibilidade pós-moderna, rótulo inconveniente numa estante, batiza por comodidade de slipstream.

3. E se?, tradução de Angenommen e um dos últimos livros de Flusser, permaneceu marginal numa obra vasta produzida ao longo de quarenta anos em mais de quatro línguas, pois, apesar da profusão recente de edições, estudos, exposições e congressos, não se encaixa bem na filosofia da mídia, na chamada escrita científica ou ficção filosófica, como a denominou seu amigo Abraham Moles, nem nos escritos sobre design, linguagem, comunicação ou história, tendo sido pouco comentado e, quando muito, tratado como roteiro de cinema ou televisão, inclusive na introdução a Vilém Flusser: An Introduction, de 2011, que chamou seus vinte e dois cenários de vinhetas, sem saber atribuir-lhes arco temático, coerência narrativa ou lugar contemporâneo, de modo que esse conjunto de microensaios, apresentado no primeiro cenário como série movida pela curiosidade, empreitada insensata e convite a uma viagem impossível, parece uma amarelinha de divagações em que o leitor encontra uma tênia intelectual e sexualmente preparada para servir de modelo à humanidade, o Abraão bíblico como misantropo rabugento e avuncular, um inseto devorador de parágrafos chamado Bibliophagus convictus, um partido político do século XXIII, um cientista que promove a criatividade pelo controle populacional, uma vaca zebu geneticamente modificada chamada SuperKali, catástrofes celebradas como produtivas e xamãs, Jesus e Martin Heidegger reunidos.

4. Os vinte e dois microensaios fictícios que Flusser chamou de cenários do futuro organizam-se em três conjuntos de mundos da vida, cenas da vida familiar, da vida econômica e da política, e, na dedicatória ao primo David Flusser, o leitor é instado a ousar transcodificar os cenários escritos em imagens, isto é, em filme ou vídeos, as novas mídias de 1989, pois, segundo Gustavo Bernardo, o poeta filosófico e filósofo poético busca um estilo de escrever e pensar capaz de exprimir sua posição especulativa e estimular novas ideias, que para Flusser nascem de imagens técnicas, do código, e, se Vampyroteuthis infernalis explorava um único mundo alternativo coerente em que um cefalópode espelha a espécie humana, cada cenário de E se? sugere ideias diversas pela natureza especulativa e projetiva de seu e se, no passado, no presente ou no futuro, indo do científico ao fantástico, do escandaloso ao provocativo, do lúdico ao caprichoso, de modo que uma série de TV de três temporadas com seis ou sete episódios cada poderia ser divertida, reflexiva, exasperante, estimulante e decididamente desconcertante, talvez um Black Mirror kitsch.

E se?: O passado

1. Os planos de transformar o texto em imagens não deram em nada em 1989, e poucos se ocuparam da gênese do manuscrito, com destaque para o escritor suíço Felix Philipp Ingold, amigo e correspondente de Flusser, cuja troca de cartas de quase uma década, documentada por Daniel Irrgang, mostra Flusser, após terminar Vampyroteuthis infernalis em 1981, refletindo sobre a diferença entre ficção científica e ciência fictícia, isto é, entre hipóteses e fábulas, e enviando a Ingold no outono de 1987 o primeiro cenário como pré-texto, que este tentou oferecer à Télévision Suisse Romande, embora duvidasse da viabilidade de codificar o texto em imagens e apontasse com precisão um problema insolúvel, o de que Flusser escrevia muito além dos conceitos, tornando eficaz o saber neles contido em cenas desenvolvidas com grande imaginação para depois declarar que numa produção televisiva apenas os conceitos deveriam ser transpostos em imagens, e, encerrada a correspondência em 1990, Ingold continuou fascinado pelo texto e, vinte e oito anos depois, num longo artigo no Neue Zürcher Zeitung, destacou a revolta de Flusser contra as convenções acadêmicas, sua obsessão pela escrita como aprendizado permanente e sua produção variada como convite a uma leitura nômade e não linear semelhante ao escaneamento ou ao salto entre telas, elogiando em E se? a presciência do décimo sétimo cenário, Paz perpétua, alusão ao tratado de Kant de 1795, que já no fim dos anos 1980 previa uma estagnação global que cumpriria desagradavelmente a promessa de paz perpétua, numa história composta e computada por potentados como Trump, Putin e Xi Jinping, fazedores e falsificadores da história que agem como manipuladores, artistas, gênios enganadores e teurgos, e concluiu descrevendo Flusser como pensador apocalíptico perspicaz e obstinado.

2. Além da participação de Ingold e de sua avaliação de que o texto talvez seja hoje mais instigante do que em 1989, a bibliografia é escassa, com Petra Gropp, em Szenen der Schrift, de 2006, dedicando ao livro um breve parágrafo que o lê como texto híbrido orientado para o tecnoimaginário, com cenas que retomam formas literárias tradicionais da literatura de viagem e aventura, e Heiko Christians, ao traçar a história conceitual do cenário a partir de Herman Kahn, modelo de Kubrick para Dr. Fantástico, e de Anthony J. Wiener, mostrando que Flusser não usou a técnica para jogar com as implicações futuristas do cenário diante da cena, mas para integrar o fator da existência finita, alheia às mídias, e o formato dialógico como estrutura cênica básica da comunicação, cruzando futurologia, cibernética e existencialismo dialógico, e, ao incluir a morte no campo de possibilidades, assumindo a antropologia do empreendimento, segundo a qual o humano é um animal que se alimenta de improbabilidades, justamente o que os cenários oferecem, virtualidades que o próprio Flusser sublinha numa de suas últimas conferências, em 1991.

3. A situação humana assemelha-se à de um ímã, em que tudo se aproxima de todas as direções e de todos os tempos, o pensamento linguístico está falido, as linhas deixaram de existir e progresso e regresso perderam o sentido, enquanto as coisas se aproximam, não infinitamente nem exatamente no caos, sob tendências ao tornar-se mais provável contrariadas por tendências ao tornar-se mais improvável, de modo que as virtualidades se cruzam acidentalmente e se tornam ainda mais virtuais, algumas prevalecem e uma quase chega, para desaparecer no último instante, descrição cuja dramaticidade permanece incerta.

E se?: O presente

1. Talvez leitores e estudiosos tenham procurado no lugar errado, recorrendo a categorias inadequadas e até hostis ao conteúdo de E se?, já que a categoria consolidada nos estudos flusserianos, ficção filosófica ou ficção científica no sentido de escrita científica, permanece insatisfatória e precisa ser atualizada por um diálogo ainda ausente com os estudos de ficção científica, campo que, como ficção científica ou especulativa, sofreu nos estudos literários e culturais uma marginalidade comparável à do livro na obra de Flusser, de modo que E se? pertence à subcategoria inaugurada por Bruce Sterling em 1989, ano de publicação de Angenommen, isto é, é ficção slipstream.

2. As histórias de E se? agrupam-se em três temas amplos, a família, que abrange um lar inteiro com avós, filho, irmãos, tio-avô e bisnetos, a economia, que trata de setores da produção moderna como indústria química, engenharia, ajuda externa, crescimento populacional e cultivo, e a política, com suas múltiplas formas, da guerra à paz, da revolução à democracia, da obediência aos direitos humanos, divisão que ao leitor apressado pode parecer de levemente intrigante a francamente tediosa, mas que, submetida à mineração de texto com a equipe do Greenhouse Studios a partir de personagens, temas e símbolos ou imagens, revela o livro como plenamente inserido na ficção especulativa, definida por Marek Oziewicz como ficção não mimética que atravessa diferentes mídias para refletir sobre seu papel cultural, em oposição às narrativas miméticas ou realistas.

3. Entre os personagens figuram um futurólogo, um terrorista, astronautas, a deusa Vênus, caçadores, neandertais, fantasmas ou espíritos, um feto muito arguto, a Taenia solium, o grande cã Timur, o Coxo, os romanos, os godos, um descendente de Anhalt-Lippe, crianças selvagens, o Homo immaterialis, monges sobrevivencialistas, o Ator-Jogador-Negociante, talvez uma só figura, o Profeta, Dario, rei de todos os arianos e não arianos, um ativista negro e todos os demais protagonistas já mencionados.

4. Os temas abrangem a singularidade como fim da humanidade, nascimento e renascimento, excesso, rationes seminales, falha tecnológica, o sentido da vida na tradição judaica, compaixão e agressão, espiritualismo e determinismo, involução da cultura, informação, datificação e classificação, amor e amor-próprio, parasitismo, etnocentrismo e eurocentrismo, as armadilhas do capitalismo, ambientalismo, a humanidade diante de suas próprias criações, arte e natureza, animismo, campos de partículas e ondas, a névoa do passado, darwinismo, percepção sensorial, audição e visão, budismo, o Alcorão, a democracia vista como falha no futuro e uma nova teoria das cores para criticar a supremacia branca.

5. Os símbolos e imagens incluem gráficos, diagramas, nós, linhas, curvas, armas, ímãs e limalhas de ferro, nuvens brancas, um oceano amarelo, uma ereção, montanhas e múltiplas aparições de Vênus, becos apertados, um manto de oração, uma biblioteca, um dicionário, criaturas humanoides, enterros, caçadores, um congresso de espíritos, o paraíso no útero, cidades destruídas, corpos mutilados, lâminas de barbear, estradas como fitas, carros como caixas fedorentas, um rio de bens de consumo, vacas gigantes, himenópteros, campos, ondas, partículas e redes, um cogumelo atômico, o inverno nuclear, uma curva imprevisível de múltiplos desfechos, telas telemáticas e botões com a história ao alcance dos dedos, mãos, pés, guerra nuclear e civil, continentes superpovoados, colonização planetária, sistemas centralizados de computação, a inscrição Mene mene tekel upharsin, o Ouroboros que devora a própria cauda e o trono do Pavão.

6. Entre os cenários destacam-se o Bibliophagus convictus, inseto perverso de proporções literalmente alucinantes e sorriso diabólico, e os diversos relatórios de etnólogos, cientistas ou exploradores, que beiram o kafkiano e lembram o Relatório para uma academia de Kafka, de 1917, enquanto alguns textos exigem várias leituras por sua obliquidade e resistência à interpretação, outros são horríveis, com crianças assassinas, catástrofes induzidas para limpar o mundo e a humanidade organizada em bidecádios, e outros ainda criam vórtices de dimensões espaço-temporais que lançam o leitor num passado alternativo ou num futuro distante e estranho, sem relação entre si, mas girando todos numa rede de humanos, não humanos, ideias, questões, acontecimentos e tempo que fala de versões da realidade tão presentes hoje quanto na época da publicação, enviando uma mensagem de mais de trinta anos atrás para um tempo pandêmico, dividido, estranho e eletrizante.

7. A razão para ler no século XXI um texto tão ligado ao momento pós-moderno de 1989 aparece no conto O submarino, incluído no livro de Flusser sobre design The Shape of Things, de 1999, em que o submersível, criação do século XIX que se torna expressão máxima da guerra moderna na Primeira Guerra Mundial, representa a imaginação desvirtuada de um sonho oitocentista convertido em pesadelo novecentista, servindo de laboratório a dezessete cientistas, artistas e teólogos que abandonam a sociedade e ancoram no fundo do Pacífico, perto das Filipinas, para impor o desarmamento militar e intelectual da humanidade, totalitarismo que fracassa, segundo o narrador situado séculos depois, não porque os materiais falhassem, mas porque as pessoas não obedeceram e todos se voltaram contra eles, cegos por um mundo de sonho do século XX em que uma simples bengala era campo eletromagnético, produto cultural, fabricação, símbolo sexual ou prova do Dasein, tudo menos uma bengala, embora tenham buscado corajosamente fundir fé, saber e arte pela primeira vez desde a Idade Média e, em seu efêmero domínio do mundo a partir do submarino, deixado de considerar o fator humano, que escapa ao design.

8. Com E se?, e por extensão com O submarino e Vampyroteuthis infernalis, Flusser alinha-se aos melhores traços da ficção slipstream, subcategoria da ficção especulativa cujo estatuto de gênero permanece disputado, mas cujo termo se fixou, já que, segundo Victoria de Zwaan, os estudos de ficção científica mostram um apego estranhamente persistente a ele, e cujas características e termos vizinhos, como estranhamento, capitalismo tardio, ficção pós-moderna experimental, disrupção, realidades contemporâneas, quase ficção científica, inquietante, estranho e contrarrealismo, justificam situar ali o livro, colocando Flusser em companhia familiar, pois, embora não tenha lido autores contemporâneos associados ao slipstream como Kathy Acker, Thomas Pynchon ou Ishmael Reed, entre os grandes precursores do gênero, segundo raro consenso crítico, estão Franz Kafka, que leu intensamente, e Jorge Luis Borges, com cujos mundos imaginários os seus foram repetidamente comparados.

E se?: O futuro

1. Que o futurólogo e o terrorista só se encontrem no campo de possibilidades de Flusser.