FLUSSER, Vilém. Natural:Mind. In French/Portuguese manuscripts, 1970s. (Primeira edição alemã: Standpunkte: Texte zur Situation. Göttingen: European Photography, 1998).
Caminhos
(Uma espécie de introdução)
1. Duas experiências convergem para formar o turbilhão destas reflexões, a última travessia do Passo do Fuorn, que liga o vale da Engadina aos vales do Trentino-Alto Ádige na fronteira entre Itália, Áustria e Suíça, e a recente visita às pedras de Carnac, na Bretanha, experiências que precisam ser descritas antes de poderem convergir.
2. O Passo do Fuorn, nome ladino que significa Passo do Forno, é uma estrada asfaltada estreita, de pouco tráfego por ligar regiões pouco povoadas, mas mantida livre de neve durante todo o inverno por ser a única conexão entre elas, ramal da grande artéria que vai de Chur a Milão pelo Passo de Maloja, saindo de Zernez, na Engadina, perto de St. Moritz, cidade de milionários americanos e xeques do petróleo, e de Sils Maria, a do Nietzsche de Zaratustra, subindo pelo Parque Nacional da Engadina a dois mil e trezentos metros, descendo pelo vale de Vinschgau com suas aldeias ladinas e castelos góticos e lombardos e entrelaçando-se no Trentino-Alto Ádige com a estrada que Druso construiu para vencer os récios, até alcançar em Bolzano, a antiga Pons Drusi, a autoestrada Munique-Roma, que é a Via Flamínia por onde Germânico penetrou nas florestas teutônicas e por onde, em sentido inverso, o imperador Henrique IV seguiu penitente para submeter-se em Canossa ao papa, de modo que, ligando transversalmente duas grandes artérias, parece obra recente e ousada de engenharia, destinada a aliviar o tráfego ininterrupto de caminhões entre a Europa central e a península itálica e exigente dos métodos tecnológicos mais avançados.
3. Percorrida diversas vezes com admiração pela paisagem majestosa de picos e geleiras e pela beleza de suas curvas, a estrada parecia a prova de que o espírito humano, armado da ciência, conseguira perfurar os segredos da natureza e abri-los à contemplação sob forma de beleza, até que um livro de paleoantropologia revelou ter sido o Passo do Fuorn, durante incontáveis milênios, a trilha de manadas de cavalos, auroques e renas perseguidas por caçadores paleolíticos, de modo que o traçado atual foi construído por esses animais, aos quais pertencem o projeto e a ideia da estrada, cabendo ao trabalho humano apenas a execução contemporânea, como as inúmeras versões anteriores, e quem hoje viaja de carro de Bolzano a Zernez apenas segue as pegadas dos animais da tundra, exatamente como os ancestrais caçadores.
4. A Bretanha é uma região misteriosa por muitas razões, seus curiosos calvários, o monte Saint-Michel, monstro monástico e monte Athos do Ocidente, as lendas pseudocristãs dos bretões expulsos da Grã-Bretanha pelos anglo-saxões e que ali continuam a bretonizar muito depois do desaparecimento de sua língua e cultura na pátria inglesa, o curioso povo celta armoricano, jamais realmente dominado por romanos, gauleses, bretões, francos ou pela burguesia parisiense que ergue prédios em suas praias, mas agora dominado, como todo o Ocidente, pela cultura de massa que o faz passar de armoricano a americanizado, e sobretudo pelos povos anteriores, quase desconhecidos, que entre seis e quatro mil anos antes de Cristo, mais de dois milênios antes da primeira pirâmide egípcia, ergueram absurdamente milhares de pedras pontiagudas e irregulares em Carnac e em Stonehenge, muitas delas várias vezes mais pesadas que o obelisco da Place de la Concorde, cuja ereção exigiu o máximo da técnica iluminista e do ardor revolucionário da República francesa, sem que os livros ofereçam resposta satisfatória a seu enigma, apenas interpretações fantásticas do tipo despertar dos mágicos ou banalidades freudianas sobre o falo, insatisfatórias porque toda obra humana suscita a pergunta por seu motivo e finalidade, e é isso que distingue a cultura da natureza, já que as obras culturais têm significado e são decifráveis, enquanto as pedras de Carnac são absurdamente misteriosas por se ter perdido a chave do código que lhes dá sentido, obrigando a interpretá-las em vez de lê-las.
5. Os milhares de pedras espalhadas pelas planícies em torno de Carnac, aldeia de pescadores e ostreicultores de nome misteriosamente evocativo do Egito e de sufixo anterior à Idade do Bronze, parecem à primeira vista ruínas caóticas de um edifício de proporções sobre-humanas derrubado por um terremoto, mas a observação atenta revela uma ordem ultracomplexa em que as pedras não são estátuas gigantescas à maneira de objets trouvés ou arte mínima, e sim elementos de cercas invisíveis ou desaparecidas que, reconstruídas mentalmente, delineiam centenas de caminhos entrecruzados num desenho geométrico sofisticado de avenidas e ruas colossais, diante das quais as próprias pedras se tornam anãs e os humanos, formigas desorientadas a tatear com antenas mentais em busca dos seres que outrora as percorreram, pois, embora as pedras tenham sido postas por gente como nós, com esforços e métodos difíceis de imaginar, o projeto não pode ter nascido de suas mentes nem servido a suas necessidades, devendo ter tido outra origem e sido de algum modo inspirado, de modo que os habitantes ignorados da Bretanha pré-egípcia teriam obedecido a projetos desconhecidos para abrir caminhos com finalidades igualmente desconhecidas.
6. As duas experiências convergem no projeto de caminhos, termos tão carregados de sentido que as reflexões giram em círculos centrífugos, fuga que pode ser disciplinada concentrando o pensamento num aspecto concreto, o de que os projetos dos caminhos humanos não são necessariamente humanos, sendo pré-humano no caso do Passo do Fuorn e extra-humano no de Carnac, o que permite distinguir os caminhos projetados, traçados e programados por deliberação clara, distinta e consciente, como o Eixo Monumental de Brasília e a Transamazônica, dos outros, como o Passo do Fuorn e Carnac, distinção capaz de aprofundar a compreensão dialética da natureza.
7. A tentação de atribuir a diferença entre caminhos deliberados e não deliberados à idade, supondo que os antigos teriam tido seus projetos esquecidos e por isso pareceriam naturais, não se confirma nos fenômenos, pois as antiquíssimas rotas do sal e do âmbar que cruzam a Europa revelam projetos deliberados, enquanto o Passo do Fuorn é um dos caminhos alpinos mais recentes, de modo que o caráter natural ou artificial de um caminho não depende de sua idade, já que a história não é um processo de artificialização crescente, mas retorna periodicamente às fontes naturais de onde brota, exigindo outra explicação.
8. Reagrupados segundo a função e não o projeto, o Passo do Fuorn e a Transamazônica servem ao transporte de bens e pessoas, enquanto Carnac e o Eixo Monumental servem como símbolos e transportam mensagens, critério sem dúvida exclusivista, pois o Eixo Monumental também conduz funcionários aos ministérios, os caminhos de Carnac devem ter servido a druidas e o Passo do Fuorn e a Transamazônica simbolizam respectivamente talvez um Mercado Comum e certamente um Brasil Grande, mas, predominando num par a função simbólica e no outro a econômica, a diferença entre caminhos deliberados e os demais torna-se mais clara.
9. O Passo do Fuorn é tecnicamente muito mais elaborado que a Transamazônica, em grande parte estrada de terra, e nesse sentido mais artificial, mas a Transamazônica impõe-se muito mais à paisagem, avançando contra ela e devorando a floresta, enquanto o Passo do Fuorn a realça, representando assim mais claramente a vitória da deliberação humana sobre as condições naturais, do mesmo modo que o código simbólico do Eixo Monumental, avião que decola rumo a um futuro brilhante, aurora, Brasil Grande, é muito mais denotativo, claro e distinto que o de Carnac, provavelmente sempre obscuro e conotativo, exigindo leitura mais intelectual que intuitiva e exprimindo mais nitidamente a vontade humana de dar sentido ao mundo, o que mostra que a artificialidade de um caminho não depende de sua elaboração nem de sua função, mas do clima existencial que o envolve, pois pelos caminhos artificiais e culturais a humanidade avança ereta rumo a um destino por ela projetado, e pelos misteriosos e naturais segue os passos de seres ignorados ou vagamente intuídos rumo a um futuro igualmente ignorado ou, como em Carnac, sem finalidade aparente, havendo portanto dois tipos de caminhos e dois tipos de Homo viator.
10. Essa distinção sugere à primeira vista conceitos insatisfatórios de cultura como imposição deliberada de sentido humano ao conjunto insignificante da natureza e de arte como método dessa imposição, conceitos refutados pela contemplação do Passo do Fuorn e de Carnac, pois, se fossem válidos, a Transamazônica seria progresso cultural em relação ao Passo do Fuorn e o Eixo Monumental, obra de arte mais significativa que Carnac, quando na verdade o Passo do Fuorn se apresenta como obra de arte capaz de proporcionar experiências poderosas e visões da realidade, e Carnac como testemunho de uma cultura perdida tão significativa e válida quanto a atual, de modo que caminhos antinaturais não são necessariamente frutos de uma arte mais evoluída e a cultura não é necessariamente antinatureza.
11. Os dois tipos de caminho sugerem, ao contrário, dois tipos de cultura com usos distintos da arte, um voltado a elaborar e fazer resplandecer a essência da natureza, tendo a arte como método de revelá-la, ao qual pertencem o Passo do Fuorn e Carnac, e outro voltado a impor deliberadamente projetos humanos à natureza e fazer resplandecer a essência do espírito humano, tendo a arte como método dessa revelação, ao qual pertencem a Transamazônica e o Eixo Monumental, esquema simplificador, pois esses tipos provavelmente nunca existiram em estado puro e toda cultura e toda arte concretas são mistura ou síntese de ambos, o que torna extremamente problemático tanto distinguir ontologicamente as culturas quanto estabelecer uma dialética rigorosa entre cultura e natureza.
12. Disso decorre que o Homo viator não é um ser que escolhe, deliberada ou espontaneamente, entre caminhos deliberados e misteriosos, mas que percorre ora uns, ora outros, ora deliberadamente, ora espontaneamente, e na maioria dos casos de modo parcialmente deliberado e parcialmente espontâneo, por caminhos também parcialmente deliberados e parcialmente espontâneos, já que o Passo do Fuorn e Carnac, de um lado, e a Transamazônica e o Eixo Monumental, de outro, são situações-limite, enquanto a maioria dos caminhos, como a Autostrada del Sole ou a Via Dutra, a Rue de Seine ou a Rua Direita, é mais ou menos mal planejada, justamente porque neles o espírito humano não conseguiu impor-se por completo, e é por esses caminhos que, em regra, se caminha.