Filosofia como crítica da linguagem

1. Esta série de conferências representa uma promessa de aventura, pois pretende expor as linhas básicas de uma concepção de mundo, expressão intoleravelmente pretensiosa, e elucidar pontos ao mesmo tempo básicos e obscuros, segundo um programa apenas aproximado, um projeto no sentido da filosofia existencial, já tentado várias vezes com resultados diversos, que dependem das forças que nele convergem, isto é, dos ouvintes e do conferencista, de modo que a direção do argumento será canalizada pelas críticas recebidas e cada conferência será preparada em resposta à discussão anterior, oportunidade rara e bem-vinda de discutir essas ideias com um grupo como este.

2. Vista de uma distância fenomenológica que suspende todo saber prévio, a atividade chamada filosofia aparece como pertencente à classe da conversa fiada, consistindo em ler livros, discuti-los em grupos reunidos em salas de aula e eventualmente escrever obras sobre essas leituras para serem lidas e discutidas, e assim por diante até a náusea e ao infinito, sem efeito palpável algum, atividade puramente linguística que tem palavras como instrumento, tema e fim, e, se para Husserl essa distância seria sinal de humildade capaz de revelar o eidos da filosofia como conversa fiada, tal humildade fenomenológica é a forma mais alta de orgulho, que subestima o fenômeno diante do qual finge se curvar, pois a filosofia não admite distância e exige engajamento, revelando-se apenas ao participante interessado e apaixonado, e não ao observador distante e paciente, como uma essência que merece o nome de beleza.

3. Ainda assim, a distância que revela a filosofia como conversa fiada é um ponto de vista legítimo e epistemologicamente pertinente, embora existencialmente impertinente, pois filosofar é ler, escrever, falar com outros e consigo mesmo no diálogo interior que Platão chamou de pensamento, uma atividade inteiramente linguística, uma conversação curiosa cujo discurso flui sem progredir, como progride o científico, e sem manipular objetos, como o faz a arte, razão pela qual erra Dilthey ao querer transformá-la em ciência do espírito, já que é estruturalmente um discurso não progressivo.

4. Erra igualmente Marx ao proclamar que a filosofia apenas explica o mundo quando o que importa é transformá-lo, pois a filosofia é estruturalmente não manipuladora, e uma filosofia científica ou engajada no sentido marxista deixa por isso mesmo de ser filosofia, de modo que, dado seu caráter não progressivo e não manipulador, é perfeitamente legítimo chamá-la de conversa fiada.

5. Conversa fiada é a conversação em que as frases fluem por fluir, sem visar algo exterior, em que se fala por falar e cujo tema é ela mesma, carecendo portanto de significado, já que o significado de uma conversação é o fim externo que ela visa, e, embora composta de frases e palavras que são signos de algo, nela os significados ficam como que esquecidos e engolidos, importando as palavras e não o que significam, de modo que dizer que a filosofia é conversa fiada equivale a dizer que carece de significado.

6. O vendedor de laranjas que fala da saúde do comprador e o orador de comício que fala da dívida do país não se interessam pelo significado de suas palavras, mas buscam fins exteriores e inconfessos, vender laranjas ou angariar votos, que se tornam o significado de sua conversa, de modo que a conversa fiada, sem sentido se tomada literalmente, é cheia de sentido num contexto existencial mais amplo e distingue-se de seu oposto pela insinceridade, como conversação inautêntica cujo significado não coincide com o das palavras empregadas, e dizer que a filosofia é conversa fiada significa afirmar que ela é formalmente sem sentido, mas dotada de um sentido inconfesso, sentença impiedosa cuja legitimidade se questiona.

7. Essa sentença é legítima, pois as duas correntes mais características da filosofia contemporânea assim se julgam mutuamente, o neopositivismo, cuja análise lógica revela quase todas as frases existencialistas como ruído sem sentido, de modo que o existencialismo teria um fim inconfesso e seria conversa fiada, e o existencialismo, cuja análise revela nas frases neopositivistas um sentido diverso do das palavras, pretextos preciosos e presunçosos para evitar o confronto direto da mente com sua situação existencial, de modo que o neopositivismo também seria conversa fiada, e, aplicadas ambas as análises ao discurso filosófico do passado, quase todas as suas frases se revelariam conversa fiada, pois as poucas que resistem à análise lógica são existencialmente falsas e as poucas existencialmente sinceras não resistem à análise formal, restando apenas exclamações sentimentais sem sentido formal ou formalismos pretensiosos que ocultam a angústia existencial, ou ambos.

8. Diante dessa condenação, uma conversação que não fosse conversa fiada seria aquela cujo significado coincide com o das palavras empregadas, e a ciência parece sê-lo, aceita pelos neopositivistas como significativa por resistir à análise lógica ou abandonar as frases que não resistem e por ter como significado o mundo que suas palavras designam, pontos óbvios ainda que problemáticos, mas, vista existencialmente, revela-se uma insinceridade única, gigantesca e monumental, pois finge que o intelecto lógico pode apreender a realidade ou parcelas dela quando a experiência imediata o desmente a cada passo, e que o homem pode superar a situação em que foi lançado quando a morte o desmente a cada instante.

9. A ciência não passa, portanto, de conversa fiada cujo sentido inconfesso é a tentativa de esquecer o absurdo da condição humana.

10. Para o existencialismo, a arte é manifestação da autenticidade humana, pela qual o homem se realiza como existência e impõe seu modo de ser à circunstância em que foi lançado, sendo portanto plenamente significativa, ainda que problemática, mas, vista formalmente, o significado de um poema, de uma sinfonia ou de uma pintura não é o das palavras, sons ou tintas que os compõem, e sim outro, inconfesso, de modo que a análise formal revela a arte como conversa fiada única, gigantesca e monumental, formalmente equivalente ao zurro de um asno.

11. Esses dois exemplos bastam para conter o entusiasmo de abandonar a filosofia por outra conversação, pois sugerem que toda conversação é conversa fiada quando vista de um ponto de vista irônico, distante e não engajado, e, inversamente, que toda conversação em que se engaja de corpo e alma é plenamente significativa, distinguindo-se a filosofia das demais por ter consciência desse fato.

12. A filosofia distingue-se de todas as outras atividades linguísticas, como a ciência e a arte, pela perda da ingenuidade quanto ao significado da atividade humana, perda que constitui o espírito filosófico, podendo ser definida como a busca desse significado perdido, de modo que significado é o termo-chave da filosofia e destas conferências, termo cujo sentido varia com o contexto e cuja definição equivaleria a definir o próprio curso, motivo pelo qual se adota provisoriamente uma definição operativa, segundo a qual significado é aquele algo que os signos visam, fundamento a partir do qual os argumentos avançarão por território desconhecido.

13. Apenas signos têm significado, e uma situação sem signos é absurda, de modo que o mundo, situação em que se foi lançado, e a vida nele terão sentido na medida em que contenham ou se relacionem com signos, que introduzem no significado mas, pela mesma razão, o ocultam, sendo por isso enigmáticos, razão pela qual o mundo e a existência só têm sentido se contêm elementos enigmáticos, e os signos agrupam-se em sistemas chamados línguas, nos quais se chamam símbolos, de modo que uma situação é significativa quando contém signos e ordenada quando contém símbolos inseridos em línguas.

14. Toda atividade linguística, vista de fora, apresenta-se como conjunto de falsos símbolos, sem significado por não serem enigmáticos para quem não está engajado, e, vista de dentro, como conversação autêntica de símbolos genuínos, distinguindo-se a filosofia por ser a única que se observa de dentro, pois, enquanto ciência e arte partem dos símbolos para desenvolvê-los segundo as regras de suas línguas num movimento progressivo, a filosofia volta-se para o símbolo a fim de descobrir seu significado, num movimento reflexivo e regressivo que se opõe aos demais e os enfrenta para revelar seu sentido, sendo por estrutura crítica das atividades linguísticas e tornando pleonástica a expressão filosofia da linguagem, pleonasmo não percebido porque, pela ingenuidade quanto ao significado, nem sempre se tem consciência de que tudo o que não é linguístico é absurdo, e é essa filosofia como crítica da linguagem, isto é, a filosofia pura e simples, o tema do curso.

15. Na volta ao símbolo reside a perda de ingenuidade da filosofia, ao passo que o pensamento progressivo aceita ingenuamente que os símbolos, ou conceitos, visam algo exterior chamado realidade e não se assusta com seu caráter enigmático, enquanto a filosofia duvida dessa premissa e enfrenta o enigma, no sentido em que os antigos diziam, com Aristóteles, que o espanto é o começo do filosofar, espanto que só se extingue quando o filósofo crê descobrir que os símbolos nada ocultam, convertendo-se em sensação de absurdo e futilidade, como em Camus e Kafka, e formulado definitivamente por Wittgenstein ao afirmar que não há enigma, descoberta do nada por trás do símbolo que equivale à da tautologia da língua como sistema de símbolos vazios e falsos, implicando um mundo absurdo e uma condição humana absurda, resultado insuportável para o qual parecem apontar tanto o existencialismo quanto o neopositivismo e que significaria o fim da filosofia, de todo pensamento e da conversação chamada civilização ocidental, que se reconheceria como conversa fiada e teria de concluir, com Wittgenstein, que sobre aquilo de que não se pode falar deve-se calar.

16. O objetivo do curso é combater esse resultado, demonstrando formal e existencialmente que o enigma dos símbolos, elementos do pensamento, é inesgotável e que a conversação chamada civilização ocidental não está fadada ao mutismo, embora essa queda seja possível, por três caminhos, a análise formal do pensamento como atividade linguística desenvolvida no campo das línguas particulares, a análise existencial dessa atividade como realização progressiva de um projeto contido nas línguas e a ilustração dessa realização ao longo da história ocidental, aplicando sucessivamente, nos termos da filosofia clássica, a razão pura, a razão prática e a razão histórica à análise da situação presente, programa para o qual se pede colaboração.

17. A convicção a ser defendida e propagada com esforço de proselitismo é que ciências, artes e religiões, todas as formas de atividade mental, são elaborações progressivas de símbolos que podem se esgotar ao converter suas potencialidades latentes em realidades, como ocorre hoje nas ciências físicas, que transformaram seus símbolos em instrumentos, já não enigmáticos, convertendo o mundo da física num conjunto absurdo de teorias, enquanto outras conversações ameaçam cair no absurdo da conversa fiada, cabendo à filosofia contrariar esse avanço, descobrir o enigma inesgotável dos símbolos primordiais, mostrar que a realização alcançada é apenas parcial e imperfeita e renovar o espanto diante do mundo enigmático, conferindo assim novo sentido à vida humana, pois para quem se engaja no pensamento de corpo e alma pensar não é conversa fiada, mas descoberta constante do enigma como fundamento do pensamento, descoberta que é a beleza assustadora que a filosofia honesta revela e à qual se faz o convite.