FLUSSER, Vilém. Língua e realidade. São Paulo: Herder, 1963.
1. Entre as ânsias fundamentais do espírito humano está a de descobrir uma ordem no mundo, pois um mundo caótico, embora concebível, seria incompreensível, desprovido de significado e insuportável, tornando fútil a própria existência, razão pela qual o espírito, em sua vontade de poder, busca sob as aparências uma estrutura ao mesmo tempo estática, que fixa cada aparência num sistema de referência e a torna apreensível por catalogação, e dinâmica, que coordena as aparências num sistema de regras e as torna compreensíveis por hierarquização, de modo que, coroado de êxito, esse esforço transformaria o caos em cosmos e permitiria distinguir um mundo aparente caótico de um mundo real ordenado, cuja estrutura ainda não descoberta autoriza dizer, com certo otimismo, que o espírito avança da aparência para a realidade.
2. Essa afirmação otimista corresponde à herança grega segundo a qual através dos fenômenos transparecem os entes compreensíveis, os númenos, cuja descoberta equivale ao desvelamento da verdade, sendo filosofia, religião, ciência e arte os métodos pelos quais o espírito tenta penetrar as aparências até a realidade, esforço que abrange todo o território da civilização e que também as civilizações independentes dos gregos empreendem, ainda que o formulem de outro modo.
3. Apesar de sua antiguidade e vastidão, esse esforço é acompanhado, como tema secundário da sinfonia civilizatória, por três tipos de objeção, a epistemológica do ceticismo, que nega a capacidade do espírito de penetrar as aparências, a ontológica do niilismo, que nega a realidade, e a religiosa do misticismo, que afirma a impossibilidade de articular e comunicar essa penetração, objeções que ameaçam lançar a civilização no caos e são praticamente insustentáveis, refutadas pela continuação da vida e assumíveis apenas por instantes e por espíritos isolados, mas cuja vitalidade teórica permanece e mergulha toda a civilização num clima de pragmatismo superficial, frustração e inautenticidade.
4. Não sendo possível escapar desse clima, resta enfrentá-lo e aclimatar-se a ele tornando consciente a busca da estrutura, pois, sabendo com clareza o que se busca ao procurar conhecimento, realidade e verdade, as objeções dos céticos, dos niilistas e dos místicos perdem seu terror ao se revelar que visam algo diverso, deixando intocada uma estrutura mais modesta do que parecia, na qual conhecimento, realidade e verdade, embora menos absolutos, fundamentais e imediatos, continuam válidos, enquanto o conhecimento absoluto, a realidade fundamental e a verdade imediata se mostram conceitos ocos e desnecessários à construção de um cosmos, o que permite aceitar as objeções nesse sentido e manter válido, nesse cosmos restrito, o esforço de compreendê-lo, governá-lo e modificá-lo, sem que a vida nele seja fútil.
5. Este livro pretende contribuir para tornar consciente a estrutura desse cosmos restrito, identificando-a com a língua, da qual conhecimento, realidade e verdade são aspectos, sendo ciência e filosofia pesquisas da língua e religião e arte disciplinas criadoras de língua, afirmação nada original diante do logos dos gregos pré-filosóficos, da palavra-forma nama-rupa dos hindus pré-védicos, do nome santo dos judeus e do Verbo que abre o evangelho, mas que ainda choca o ouvido moderno, alienado da língua por uma filosofia atual dividida entre os logicistas, que só veem seu aspecto formal e tautológico e veriam nessa identificação ceticismo, niilismo e misticismo mudo, e pensadores como Heidegger, que, sentindo o valor ontológico da língua, a violentam em jogos de palavras, atitudes que, ainda assim, constituem um primeiro passo tímido de retorno à língua, assim como matemáticos puros e poetas concretos tocam quase conscientemente duas de suas raízes na busca de conhecimento, realidade e verdade.
6. O conceito de língua identificado com a estrutura do cosmos deve abranger e ultrapassar tanto a matemática pura quanto a poesia, e para defini-lo, tarefa frustrada por sua própria posição ontologicamente primordial, pouco servem as ciências da língua, que a tomam como um fenômeno entre outros a ser catalogado e classificado por disciplinas especializadas, perspectiva insuficiente como base do conceito, mas que não pode ser ignorada, de modo que os aspectos iluminados por essas ciências também devem ser incluídos.
7. O conceito deve incluir ainda o aspecto mágico ou santo visado pelos sábios antigos ao falarem em logos, nama-rupa ou nome santo, distinto dos aspectos matemático, poético, filológico e etimológico, e também o aspecto mágico atribuído pelos chamados povos primitivos, mais próximos da origem, para os quais conhecer o nome de um inimigo confere poder sobre ele e fórmulas mágicas podem submeter até seres superiores à vontade do iniciado.
8. É preciso considerar, por fim, a língua tal como se desenrola na mente, formando e governando todos os pensamentos, o que levanta mais que a suspeita de identidade entre língua e pensamento, embora os demais aspectos mencionados devam impedir a queda num idealismo puro e simples que tal identificação poderia acarretar.
9. Esse conceito vasto de língua nada tem de artificial, sendo antes forçados os conceitos estreitos habituais na ciência e na filosofia, que barram a visão da língua em sua plenitude, de modo que o primeiro esforço consiste em reconquistar uma ingenuidade perdida diante dela, o que, sendo impossível de modo direto, se tenta pela suspensão dos conhecimentos acumulados na história, mantidos em pendência para referência futura, segundo a disciplina mental violenta que Husserl chamou de fenomenologia e que promete uma ingenuidade de segundo grau capaz de tocar o eidos da língua, ideal inalcançável e dificilmente sustentável por muito tempo, do qual, ainda assim, se busca aproximar.
10. Espera-se que daí surja, ainda que de modo vago e nebuloso, aquilo que se chama língua, com sua identidade com a estrutura do cosmos tornada evidente, sem que isso constitua uma filosofia da língua, mas apenas a sugestão de algumas das inúmeras possibilidades de estabelecê-la, que é a intenção deste livro.
11. A língua, em sua imensa riqueza, é o instrumento mais perfeito herdado dos antepassados e aperfeiçoado por incontáveis gerações desde a origem da humanidade ou talvez antes, encerrando toda a sabedoria humana, ligando cada um aos próximos e aos ancestrais e constituindo a mais antiga e a mais recente obra de arte, bela e sempre imperfeita, que cada um pode trabalhar, sentindo-se no íntimo possuído e formulado por ela, como um pequeno portão por onde ela passa em seu avanço rumo ao desconhecido, mas podendo, nessa passagem, reagrupar seus elementos, formular e articular pensamentos e enriquecê-la, papel ao qual talvez se resuma a participação humana na estrutura do cosmos, mas no qual, ao formular e articular, se é humano no sentido mais digno e se preenche e talvez se ultrapassa a condição humana.