A mediação pela tradição faz da articulação da vida presente uma interpretação interrompida e inautêntica da vida, situação que a filosofia da situação atual partilha com a medieval, movendo-se em grande parte de modo inautêntico num contexto de conceitos gregos alterados
A impossibilidade de recorrer a
Hegel, nesse estágio, conduz à necessidade de questionar radicalmente a tradição pós-grega recorrendo a
Aristóteles
A escolha de
Aristóteles, e não de
Platão, se justifica pela hipótese de que
Aristóteles representa o cumprimento e a real coroação da filosofia precedente ou, alternativamente, alcançou na Física uma nova posição problemática fundamental, determinante para a antropologia filosófica
A concepção aristotélica do homem e do ser-aí tem por objeto a vida em sua estrutura fundamental, tal como se mostra a partir de si mesma, o que em grego se diz phainómenon (fenômeno), definindo a filosofia aristotélica como antropologia fenomenológica radical
A questão de como o leitor posterior pode compreender nos textos aristotélicos aquilo que neles deve ser compreendido permanece em aberto, pois a estrutura fundamental da vida precisaria já estar autenticamente compreendida
A convicção heideggeriana sustenta que os conceitos fundamentais da filosofia, apesar de terem perdido sua função expressiva originária, conservam ainda uma precisa marca da origem, remetendo às suas fontes objetivas na filosofia aristotélica
O significado peculiar atribuído a
Aristóteles decorre de sua posição como início de toda filosofia posterior, momento em que ainda não existe tradição capaz de tornar autônomos os conceitos fundamentais
A pesquisa filosófica é caracterizada como, em sentido radical, conhecer histórico, na medida em que compreende o caráter objetivo e o modo de ser de seu tema
O conhecer histórico heideggeriano se opõe ao modelo hegeliano, pois o presente é caracterizado por sua imperscrutabilidade, e o passado não depende de uma autoconsciência transparente do presente
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A citação do rascunho descreve a pesquisa histórico-filosófica como colocada diante da tarefa de decompor o contexto interpretativo tradicional dominante em seus motivos ocultos, procedimento que Heidegger denomina destruição (
Destruktion)
O acerto de contas com as posições do escrito de habilitação revela que a particularidade e individualidade do compreender fazem emergir sempre um não-compreender, situando a vida presente na contingência histórica da tradição
A história da filosofia, no sentido heideggeriano, não é a sequência de articulações do tramandado, mas possibilidade de interrogar retrospectivamente o início da tradição, sendo a crítica da tradição sempre crítica do presente
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A citação esclarece que a crítica nascida da destruição não recai sobre o fato de nos encontrarmos numa tradição, mas sobre o modo como nos encontramos nela
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A destruição é descrita como o verdadeiro caminho, ao longo do qual o presente deve reencontrar-se em suas próprias motilidades fundamentais
A reciprocidade entre vínculo e libertação em face da tradição se expressa no conceito heideggeriano de motilidades fundamentais, que designam modalidades de realização da própria vida
A pergunta retrospectiva sobre o início não conduz a uma teoria filosófica pronta, mas confronta quem pergunta com a tarefa de apropriar-se radicalmente das possibilidades fundamentais de experiência
A escuta da imediatidade da vida subjetiva permanece o tema inicial de Heidegger, mas agora só é possível como escuta do início da tradição, um prestar ouvidos que não é servidão ao pensamento inicial
A particularidade do passado, à qual
Aristóteles não escapa, é reconhecida como aspecto essencial da apropriação da história
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A citação do rascunho afirma que a compreensão radical de uma pesquisa filosófica passada implica submeter os modelos ideais assumidos à crítica mais radical e cortante, pois o ser-aí fatual é o que é, sempre e somente enquanto ser-aí determinado
A universalidade da estrutura fundamental do ser-aí fatual não permite recorrer diretamente às determinações aristotélicas, respondendo-se a elas apenas com uma crítica mais sutil, transformada em proveitosa inimizade entre o primeiro início e o novo início
O primeiro início e o novo início são momentos dinâmicos do conhecer histórico, no qual método e objeto coincidem no ato mesmo de perguntar, distinguindo-se de
Hegel por reter a tensão entre os particulares
O conceito mais importante derivado dessa concepção é o de hermenêutica fenomenológica da faticidade (
Faktizität), a ser esclarecido a partir das lições de Ontologia — hermenêutica da faticidade, do semestre de verão de 1923
A faticidade designa o caráter de ser do nosso próprio ser-aí, no sentido do ser-de-cada-vez
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A citação define que o ser-aí, conforme o ser em seu caráter de ser, nos é, não como objeto de intuição sensível, mas para si mesmo no como de seu ser mais próprio
A faticidade remete à particularidade temporal da própria vida como fato irredutível, distinto do fato concreto constatável, associando-se ao termo ser-aí, que passa a preferir-se ao termo vida a partir das lições Prolegômenos à história do conceito de tempo (1925)
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O ser-aí, lido como infinitivo verbal, indica que há vida somente na medida em que ela é vivida, remetendo à motilidade já referida no rascunho sobre
Aristóteles
A associação heideggeriana de ser-aí a deter-se, não ir embora e estar-presente-junto indica atenção voltada à própria particularidade temporal, em oposição a não estar junto de si
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O decaimento (Verfallen), já nomeado no rascunho sobre
Aristóteles, designa o querer manter o vínculo obrigatório com a tradição, mantendo-se assim uma modalidade do próprio ser-aí
O decaimento só é possível quando a situação particular própria está situada no presente, sendo ele mesmo uma modalidade do ser-aí
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A citação afirma que, no afastar-se de si, a vida está presente a si mesma, e que o perder-se em algo tem em si mesmo um mais ou menos explícito e inconfessado respeito por aquilo diante do qual foge
O movimento entre permanecer preso à tradição e distanciar-se dela é articulado, no rascunho aristotélico, por meio dos conceitos que circunscrevem a estrutura da vida histórica
A hermenêutica, tal como definida por Heidegger, é uma determinada unidade na execução do hermeneüein (interpretar), interpretação da faticidade que leva ao encontro, à vista, à apreensão e ao conceito, sendo também o estar-desperto do ser-aí em relação a si mesmo
A explicitação hermenêutica da faticidade completa-se quando se explicitam tanto o decaimento no âmbito das sombras conceituais quanto o perguntar genuíno
A denominação fenomenológica da hermenêutica da faticidade remete ao termo tomado de
Husserl, cujo programa de uma lógica pura, nas Investigações lógicas, buscava descrever os objetos próprios da investigação lógica tal como se dão originariamente na consciência
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A citação de
Husserl esclarece que não se trata de discussões gramaticais em sentido empírico, mas de uma fenomenologia pura dos vividos do pensamento e do conhecimento
A correspondência entre a intuição husserliana e o prestar ouvidos heideggeriano à imediatidade da vida subjetiva, de um lado, e entre a descrição husserliana e a hermenêutica heideggeriana, de outro, evidencia a transposição do programa fenomenológico das vivências conceituais para uma fenomenologia do conhecer histórico e do ser-aí
A origem grega do termo fenômeno, de phainómenon (o que se mostra) e phainestai (mostrar-se), é explicitada por Heidegger como aquilo que se mostra como se mostrando, sem representação indireta
A adequação da fenomenologia ao propósito heideggeriano decorre de que a vida, enquanto ser-aí, é caracterizada pela autodação, tornando o ser-aí o objeto perfeito e único da fenomenologia
A presença peculiar do ser-aí, impenetrável e alcançável apenas historicamente pelo desvio da destruição, é estranha a
Husserl e central em Heidegger
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A citação afirma que, se ao caráter de ser do ser que é objeto da filosofia pertence um ser-fechado no modo do esconder-se e do velar-se, então a tarefa de trazer ao fenômeno torna-se aqui radicalmente fenomenológica
A definição de fenômeno em Ser e tempo pergunta o que merece o nome de fenômeno em sentido característico, remetendo ao que se manifesta antes de tudo e na maioria das vezes e que exprime o sentido e o fundamento
A identidade entre fenomenologia e hermenêutica da faticidade se confirma quando Heidegger afirma, em Ser e tempo, que o
lógos da fenomenologia tem o caráter do hermeneuein
A retomada do termo fenomenologia de
Husserl constrói uma ponte para as questões aristotélicas, das quais crescem lógica e ontologia a partir da nova posição problemática fundamental
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A citação do rascunho afirma que a problemática da filosofia diz respeito ao ser da vida fatual, sendo a filosofia ontologia primeira e, enquanto interpretação categorial do apelar e do interpretar, também lógica
O deslocamento anunciado nessa concepção da lógica, que já não trata a filosofia apenas como expressão e descrição da faticidade, mas como interpretação do apelar e do interpretar, conduz a uma crise da compreensão filosófica heideggeriana, da qual Ser e tempo é sintoma
A relação entre filosofia e religião, dominante no escrito de habilitação, não desaparece no projeto sobre
Aristóteles, mas se transforma: a filosofia decidida a apreender a vida fatual em sua possibilidade ontológica determinante deve ser fundamentalmente ateia
O sentido dessa caracterização é esclarecido em nota de rodapé: ateia não designa uma teoria como o materialismo, mas o afastar-se em relação à ideia de Deus como levantar a mão contra Deus, o que significa manter-se livre da aliciante ocupação de falar apenas de religiosidade
A aparente inconciliabilidade radical entre filosofia e religião não elimina o vínculo entre ambas, retomado por Heidegger a partir de
Kierkegaard, cuja análise do si mesmo e das formas de desespero, atribuída ao pseudônimo Anti-Climacus na obra A doença para a morte, reconhece nessa consideração o pecado cristão
A caracterização da filosofia como levantar a mão contra Deus é mais radical que a noção kierkegaardiana de pecado, pois configura uma alternativa entre vida e morte para a vida filosófica
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A antropologia teológica de
Agostinho, com sua ideia do homem e do ser-aí remetendo à filosofia grega, à teologia patrística e à antropologia paulina e joanina, entra no raio de ação do programa de destruição
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A referência à Primeira Carta aos Coríntios (1 Cor. 1, 19-25), segundo a qual o que os gregos buscavam tornou-se loucura diante da cruz, integra-se a essa mesma crítica
O significado dessa discussão para Heidegger revela-se na mudança que ela impõe ao programa de destruição, conduzindo por fim a uma visão da filosofia como contramovimento problemático em relação à religião